sexta-feira, dezembro 01, 2006

"Caramba, desculpe!"

- Então você é notívaga...
- Noti o quê?
- Notívaga.
- É, acho que sou.

Sem conseguir dormir ela lembrou de quando ouviu a palavra pela primeira vez. Foi a primeira que ele a ensinou. Gostava de aprender... Houve um tempo que passou a se encantar com o aprendizado acerca da reprodução das briófitas e pteridófitas. Bons tempos! Era só estar na companhia da pessoa certa e se deparar com alguns musgos ou samambaias para desfrutar de uma verdadeira aula sobre os vegetais sem flores, seus ciclos divididos em fases assexuada e sexuada, a afinidade com ambientes úmidos... Um mundo a parte no qual ela mergulhava, quase sempre de cabeça. Ela tinha o costume de se apegar às pessoas que lhe ensinassem coisas. Talvez um pouco por isso tenha se encantado com o professor de piano. Adolescente, ficava sem jeito quando ele pegava em seus dedinhos para colocá-los na posição certa sobre o instrumento. Achava graça quando o professor dava um tapa carinhoso em seu dedo mindinho que sempre apontava para o alto, enquanto os demais tateavam as brancas e as pretas. O mestre era um sujeito que fazia o estilo David, de Michelangelo. Exceto pela parte desavantajada, que ela sequer pensava em conferir, e por ser um respeitoso pai de família que não se prestaria ao ridículo de ficar posando nu por aí. Enfim, era fato. Pessoas ‘didáticas’ a conquistavam. E ela sabia reconhecer de cara o tipo: autoconfiança aparente, discrição, frases de efeito, palavras difíceis e aquele ar inconfundível de quem diz “já passei por esse caminho”, “já tenho a receita” ou ainda “já tenho o bolo pronto”. Não que se sentisse atraída por tipos completamente arrogantes. Isso ela abominava. Tinha que haver uma delicadeza. E mais que isso, uma generosidade. Não fosse assim, a conversa pareceria insuportável logo nos primeiros minutos. Tampouco poderia ser alguém prolixo, tinha que ser o tipo econômico, porém certeiro. Um tipo que ela própria sempre desejou ser, mas poucas e raras vezes conseguiu. Na verdade, ela até possuía a capacidade de atrair a atenção dos seus interlocutores, mas não conseguia mantê-la cativa. Dois defeitos a levavam ao fracasso em suas muitas tentativas: 1. a ansiedade flagrante de encantar o ouvinte, 2. o excesso. O segundo, claro, decorrente do primeiro. Ela sabia que a maioria dos interlocutores não se sentiam confortáveis diante de olhos latejantes, de gestos exagerados, de palavras atropeladas, de assuntos sobrepostos... Além de ser difícil para alguns acompanhar esse ritmo, acabava virando ruído. Na comunicação é assim: muita informação sobreposta e mal apresentada pode, e frequentemente vira ruído. Isso é característico de pessoas que sofrem da “síndrome do mau receptor”. Claro que em um diálogo somos sempre emissores-receptores. Mas há pessoas, e ela era mestre em cometer este erro, que se esquecem que a comunicação é composta por esse binômio (esta palavra está se repetindo em meus textos...). Quando começava a falar, pronto! Às vezes desandava em divagações intermináveis, dava voltas e mais voltas, criava neologismos, invertia ditados populares, passava a quinta e ia embora. Até que parava por uns dois minutos e percebia um enorme vácuo criado pelo silêncio repentino. “Caramba, desculpe! Acho que falei demais!”.


7 comentários:

Bernardo Tonasse disse...

É, Malu. Acho que esse tipo de encantamento é comum a boa parte de nós. Se bem que uma mulher assumindo a posição de mestre e tutora não é tão sexy no imaginário popular quanto o homem.. hehehe

Renata disse...

nossa, perfeito!
Qualquer semelhança com o cotidiano de muitos de nós definitivamente não é mera coincidência.

Stephanie disse...

Comentários de volta, êêêê!

pois é, pessoas didáticas são encantadoras porque vêm com aquela sensação de que nos 'acrescentam' alguma coisa.

eu já uma paixão platônicas por um professor. Jamais teria coragem de dizer/fazer nada, mas tirei minhas melhores notas de geografia na vida só por causa disso...

os mestres tem lá seu encanto, mas na hora de partir pro físico, eu prefiro alguém com quem consiga dialogar de uigual pra igual.

passa lá no blog, que eu queria que vc lesse o post novo!

beijos

Anderson Mululo Sato disse...

Olá Iza! Ou Malu??? É Iza msm...

Bem... como auto-análise o texto está maravilhoso.

"Pessoas "didáticas" a conquistavam." - A arte de ensinar não está em fazer o caminho, mas mostrar o(s) caminho(s) que pode(m) ser seguido(s). E para adquirir essa habilidade precisamos carregar uma certa bagagem de conhecimento, ou então de fingimento... Rsrrsrs...

Ensinar algo é definitivamente teatral! Precisamos fixar a atenção do público, mas ao mesmo tempo temos saber que o principal não é o emissor, mas sim a mensagem que gostaríamos de passar. A nossa atuação é mera coadjuvante, pois o papel principal é da mensagem. E ninguém tasca!

Como na vida pessoal... Somos emissores, que podemos deixar um legado bom ou ruim para as pessoas que nos cercam. As boas serão lembradas, as ruins também. A questão é saber escolher para qual lado queremos debandar.

Simples assim...

Ricardo disse...

obrigado pela visita... sinta-se à vontade lá que eu me sinto à vontade aqui...

Anna Carolina disse...

"ele pegava em seus dedinhos para colocá-los na posição certa sobre o instrumento"

então era isso que você aprendia com o professor de piano? hahahahaha

releve. estou insone de novo.

Anônimo disse...

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