domingo, setembro 03, 2006

Diário de viagem (trechos)

(Algum dia de julho de 2006...)

É incrível como viajar sozinha me fez ainda mais comunicativa, mas também me ajudou a exercer meu lado pensativo. Cultivei uma introspecção absurda! Sou daquelas pessoas (malucas?!) que falam sozinhas. E vi esse sintoma ser triplicado. Além disso, confesso: me tornei mais voyeur do que jamais fui. Sim, porque já exercia uma certa prática, um certo voyeurismo...

Gosto de observar pessoas.

Às vezes, quando estou dirigindo, paro no sinal e não resisto a um olhar furtivo em direção ao carro vizinho. Aliás, malditos insulfilmes!

O mais interessante de se observar as pessoas é imaginar quem são, perceber como estão vivendo aquele dia, o que estão pensando, para onde dirigem... É relaxante se perder no mundo alheio. Uma distração até que um verde dê um sinal de esperança e eu possa seguir.

Como dizia, durante a viagem, estava sentada em um bar de Montmartre e ao lado da minha mesa um casal. Os gestos dela e dele me pareceram muito familiares. A mulher jogava o corpo para trás, se inclinando sobre a cadeira a cada vez que ria de algo dito pelo seu interlocutor. Não falo uma linha em francês, mas posso jurar que o rapaz era bastante engraçado. Ou o jeito como a jovem se jogava para trás sorrindo e arrumava o cabelo desarrumando-o apenas fazia parte do diálogo entre os corpos. Sabiam que os corpos falam?! Já ouvi algo assim e penso que procede...

Ali, naquela rua da Cidade Luz, uma cidade que transpira romantismo – ou pode ter sido uma impressão mais subjetiva, dado minha, digamos, inspiração – enquanto eu comia meu hambúrguer com batata frita (delícia!) visualizei naquela cena a reprodução de outras. Algumas que eu mesma protagonizei.

Vi a euforia dos dois diminuir aos poucos, como se alguém houvesse pedido à banda que mudasse o ritmo e ao iluminador que abaixasse a luz... Claro que no meio da rua, naquelas mesinhas ultra charmosas, não havia música nem iluminação especial. Mas era como se houvesse.

Ele pega na mão dela e nesse momento os dois já têm certeza de que estão em sintonia. É tudo uma questão de tempo... Ela ainda ri de algo que ele fala (em francês, logo não entendi nada!), mas agora sem jogar o corpo para trás. Apenas a cabeça, como se tentasse fingir que deseja escapar do cerco que ele cria em volta dela. No entanto, ele já percebeu que ela está dentro do cerco e não quer sair. Enfim, o resto a gente já sabe como funciona. Resolvi deixar os dois a sós, pois este é o momento em que o plano se fecha, restando apenas o casal em cena. Ficaria apertado demais para mim.

Um comentário:

AleXXX disse...

Quando vai ser postado o próximo trecho?