quarta-feira, outubro 25, 2006

Coletânea

De você, beijo.
De você, bons conselhos e críticas.
De você, jazz e sertanejo.
Uma coletânea de noites regadas a vinho
De domingos chuvosos, de carinho.
De você, quero divagação e sensatez.
Muitas horas sobre os males do mundo
E sobre assuntos dos mais banais.
De você, sobriedade e embriaguez.
De você, uma coletânea de trocas.
Minha certeza, sua dúvida
Minha vontade, sua indecisão.
Minhas janelas e portas (abertas)
Meu diálogo, sua atenção
Minhas supresas, meus ideais.
Seus sorrisos reunidos em coletânea.
De você, quero possibilidades.
De você, quero Bethânia



E um pouco mais...

terça-feira, outubro 24, 2006

Diálogo...

Diálogo entre dois


Faz o seguinte: não vamos mais falar de mim!
Não vamos mais falar dos meus propósitos
Nem da minha espontaneidade.
O tema não mais será minha língua solta e inconseqüente.
Não vamos falar das minhas muitas viagens
Nem das poucas aterrissagens
Não vamos falar nada sobre mim,
Não vou ser tampouco coadjuvante.
Vamos sair dessa monotonia de um tema só.
Vamos adiante...
Não falemos dos meus afazeres sem importância
De minha carência, dissonância ou decepção.

Não quero - e o proíbo - de tratar da minha estática vida amorosa
Ou de minha libido nada sulfurosa.
Não toque nos meus fins de semana,
Não mexa nas minhas noites de insônia
E não teorize sobre minha sensatez duvidosa.

Faz o seguinte: vamos falar mais de você!
Da sua voz robotizada
Do seu cigarro fedorento
Das suas baforadas altivas
À frente do sorriso debochado
E do ar de intelectual.

Da sua roupa engomadinha, do sapato engraxado,
Do seu estilo ‘roupa de missa’.
Vamos falar da sua vida de nômade,
Da sua próxima parada,
Dos seus flagrantes fios brancos
Ou da sua namorada...
Vamos falar dos seus 20 e poucos anos
Dos seus erros e danos
Da sua família desmembrada.
Vamos falar dos seus planos, da sua carreira promissora,
Do seu dia-a-dia entre papel, pedra e tesoura.
Do seu ofício de guardar a janela alheia
Vamos falar do seu jeito vagaroso, sempre com os dois pés no freio...
Vamos - e isso é provocação da boa! - falar do seu um metro e meio.
E quando, por acaso, o assunto acabar,
A saliva secar ou a curiosidade se extinguir,
Vamos um para cada lado.
Ou sentados em um banco de praça,
Vendo qualquer cena cotidiana, banal e sem graça,
Vamos apenas sentir.





quarta-feira, outubro 18, 2006

Três!

Não é hoje que essa pedra vai sair daqui...

Não, não é hoje e nem amanhã. Eu sei. Pode demorar anos até que a erosão seja concluída e quando isso acontecer, talvez (eu disse: talvez), eu já tenha me esquecido porque ela foi parar cá em cima.

Acho pouco provável, mas é possível que um dia esta pedra tão familiar e tão parte de mim já não faça mais sentido sob meus ombros, pesando com força e entortando minha coluna, antes tão ereta.

Pode ser (eu disse: pode ser...) que um dia não faça mais sentido carregar este fardo, esta herança judaico-cristã, esse carma ou seja lá o nome que queiram lhe atribuir. Para mim pouco importa!

Pode ser que um dia (eu disse: um dia...) eu canse de curvar meu pescoço e outorgue minha liberdade. Então, vou perceber que nunca houve correntes, que nunca houve tranca, nunca houve sequer porta! Eram apenas janelas, todas abertas, todas exibidas com vasos de flores campestres e cortinas rendadas.

E direi: "Que tonta eu fui! São apenas janelas!"

Vou me debruçar sobre uma delas, sondar a paisagem e contar até 3:

- Um, dois...

quinta-feira, outubro 12, 2006

Toc, toc, toc, toc...Soluço!




Museu Rodin - Paris
"Há sempre algo de ausente que me atormenta" (Camille Claudel)






Quem pode obrigar uma idéia a ir para o papel, quando ela insiste em permanecer martelando na cabeça?!

Você explica para ela que o lugar dela é sobre o papel e nada! Ela é teimosa! E passa semana e chega semana e ela permanece irredutível. Você coloca o papel em branco na frente para ver se consegue seduzí-la. Ela faz pouco caso, vira a cara e segue seu cotidiano massacrante, desgastante, pesado. Você sacode a folha branca, como a mãe que tenta atrair a atenção do bebê para a chave enquanto retira a faca de seu alcance. Inútil!

Cansado, você a ignora, finge que ela não está ali, que não o encomoda, que não altera sua rotina, que não muda seu humor, que não é inconveniente...
E ela desaparece como soluço. Pausa: como parar um soluço?! este tema merece algumas palavras...

Você se sente aliviado, bem-humorado, tranqüilo, bem disposto, confortável, encaixado direitinho no mundo. Até que...
Soluço!
Receitas para acabar com soluço: (serviço de utilidade pública)

1. Beber água sem respirar
2. Papel na testa (contra indicado para pessoas que estiverem em público)
3. Susto (contra indicado para pessoas com pressão alta)
4. Beijo (não passa, mas é divertido!)
5. Beber água de cabeça para baixo (contra indicado para pessoas submetidas à gravidade)
6. Forçar o soluço (não ajuda a passar, mas você conseguirá chamar atenção...)
7. Prender a respiração.
8. Outros
9. Levantar os braços (ou esse é para quem engasga?!)
10. Se jogar - de cabeça - do último andar de qualquer edifício com mais de 5 andares (contra indicado para pessoas com amor à vida)

E quanto à idéia: conviva com ela aguardando para saber quem sobreviverá mais. Você ou ela?! Ou se joga sem pára-quedas sobre ela. Deixe-a acreditar que está ganhando, enquanto é desgastada aos poucos. Até que um dia você vai sentir falta de alguma coisa, vai abrir o armário, vai vasculhar de baixo da cama, vai verificar na caixa do correio e vai ficar um bom tempo com a sensação de que perdeu algo pelo caminho...

terça-feira, outubro 03, 2006

Série "Correspondências"

Abaixo, o primeiro post da Série Correspondências:
08. 02. 02
"Estou em casa, mais precisamente no quarto dos meus pais. Tenho um cartão telefônico na minha frente. Estou deitado. Na bela paisagem do cartão vejo nuvens, vejo árvores, vejo água, vejo casa. Vejo muita coisa. Só não vejo gente. Faltam pessoas para compor a paisagem, sinto que falta. É praticamente um Romeu e Julieta sem goiabada. Simplesmente falta algo essencial.
Converso com você. Gosto disso. Gosto de poder penetrar nos seus olhos e enxergar a sua mente. Embora você não saiba, seus olhos são claros, diria que até cristalinos. E isso me preocupa certas vezes. Isso me preocupa, pois consigo ver neles uma ambição de não enfrentar incertezas, incertezas que te incomodam. Na vida, o que a torna tão espetacular é o fato de um Deus estar jogando dados a todo instante. Somos regidos por incertezas e probabilidades, e isto é ótimo. (Sem essa incerteza, tenho medo de imaginar como seríamos). Nós somos microcosmos, e como tal, possuimos uma organização complexa. O que acontece conosco é o mesmo que acontece com os ecossistemas. Devemos interagir de forma construtiva com outros microcosmos, a fim de estabelecer um macrocosmo mais equilibrado. Ninguém é autosuficiente. Nós só estamos aqui pois sabemos nos relacionar de forma vantajosa com (muitos) organismos. Você já parou para imaginar quantas variáveis entram numa equação para que o resultado seja igual a "vida"? São inumeráveis, infinitas.
Digo isso para mostrar que nada nem ninguém é completo sem estar relacionado. Fico imaginando se mantendo o atual estado poderemos ajudar um ao outro. Não desejo ser apenas uma válvula de escape nem um passatempo. Isso não me torna melhor. Devemos pensar e modificar essa forma de tratamento. Todos estamos interligados. Seres vivos + "não vivos", tudo está ligado. Formamos uma teia e visamos o equilíbrio - a mãe Gaia agradece."

sábado, setembro 30, 2006

O revisor 2

Termina o expediente. Ele recolhe suas coisas: pasta, guarda-chuva e casaco. Se espreguiça e ameaça:

- Ahh, eu vou me vingar daquela rede! Eu sai de manhã cedinho e ela, danada, ficou me olhando com ar de deboche, debaixo daquele jamelão...

sexta-feira, setembro 29, 2006

"Um beijo meu"

“Entendo sua preocupação com essa situação e por isso queria te dizer, em caixa alta:

NÃO SE PREOCUPE.

Eu não estou chateado com você, nem poderia. Entendo bem que tudo isso tenha te causado certa angústia e poderia apostar que parte dela vem do fato de que você gosta (um pouquinho) de mim.

Da minha parte, queria apenas que você não me tratasse como um estranho nos momentos em que nos encontramos. Quero sempre sentir que você pode estar próxima ainda que, nesse momento, não possamos estar do jeito que eu gostaria que estivéssemos e que, espero, seja também o seu desejo, ainda que contido.

A não ser que você queira me dizer coisas a esse respeito, e prefira que seja pessoalmente, não vejo porque sentarmos pra conversar como você sugeriu. Quero sim, conversar com você como conversamos naquela delicatessem, sobre nossas vidas. Foi, sem dúvida, uma conversa maravilhosa!

Um beijo meu”.


Porque as cartas perdem espaço para os e-mails?! Fosse tudo aquilo escrito à mão soaria ainda mais romântico e ainda mais gostoso de ser lido e relido. O anonimato do autor só não superava em beleza o costume dos amantes de deixarem suas iniciais. Mas a ausência de um nome ao final dava um toque especial, como se reforçasse a idéia de que aquelas palavras só poderiam ter uma única origem.

Mais uma vez: porque as cartas perdem espaço para os e-mails?! Fosse enviada pelo correio selada, carimbada e registrada, chegaria junto com as contas e outras correspondências. Causaria um espanto no primeiro segundo e logo se destacaria, não por algo à mais, mas pela ausência. Não, não seria nunca uma ausência que atormenta. Poderia vir sem o remetente, deixando completo o falso ar de suspense. Falso porque ela, e apenas ela, saberia quem era autor das palavras e do beijo final.

“Um beijo meu”...

A inversão do pronome possessivo, que sempre vem à frente, demarcando a posse (minha caneta, minha vida, meu amor, minha namorada...) encerrava o e-mail com um charme todo especial.

Se ele escrevesse apenas “Um beijo”, seria um beijo solto, que poderia se perder pelo caminho e nem chegar até o destino. Mas porque “Um”, apenas 1, ou “Um” beijo qualquer? Logo ela se deu conta de que a indefinição daquele artigo representava a incerteza do que o futuro reservava para os dois.

Poderia ser “Um” entre vários ou poderia ser “Um” à espera daquele que fosse “O beijo”. Como ele escrevera em caixa alta, ela tentou não se preocupar e, embora ainda lhe restasse algumas centenas de palavras para serem ditas, ela concordou que seria melhor não correr o risco de pecar pelo excesso. Calou-se. Calou-se, buscando não alimentar em si expectativas de novamente voltar a falar...
Mas antes se permitiu uma último pensamento, daqueles que quase saem em voz alta de tão espontâneos.

Lembrou-se que no rótulo destacado de um vinho chileno como lembrança de um encontro inusitado ele escrevera: "adorável estranha". Os dois assinaram e dataram aquele vestígio da história, que ela logo correu para buscar dentro da bolsa. Em seguida, releu: "queria apenas que você não me tratasse como um estranho nos momentos em que nos encontramos".

Com o rótulo em uma das mãos, ela percebeu que não deixaria de ser adorável, tampouco estranha.

Deixou aquilo tudo de lado e foi andar de bicicleta...

quarta-feira, setembro 27, 2006

Mais um trecho (fora) do cotidiano

Ela esperava que ele a acompanhasse. Ele esperava que ela pedisse sua companhia. Ela esperava que ele falasse. Ele desejou suprimir as palavras. Ela disse que ia para esquerda. Ele se manteve em seu caminho. Eles foram embora, cada qual com seus pensamentos, porém sozinhos.
Antes, trocaram dois beijos cínicos, que não seguiram seus destinos, mas permaneceram retraídos um em cada lado da face.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Frases (fora) do cotidiano

Viajar é se perder...:

"Repleta de uma malvada sensatez, perdeu-se de mim antes que eu me perdesse dela."


***
O anti-super-homem:


Ele chega do almoço, senta na cadeira, se inclina jogando o corpo para trás e coloca o fone nos ouvidos. Antes disso, tranqüiliza: “eu tiro o óculos e fico inofensivo”.

O revisor, que acumula mais de 20 anos entre provas e originais, sofre da síndrome do anti-super-homem, mas guarda algumas características em comum com o cidadão de Metrópolis.

Ambos sobrevoam um ambiente jornalístico, embora o inofensivo ocupe um espaço menor que a gigante redação do “Planeta Diário”. Seu planeta, ao contrário, é mensal e bem menos imediatista, possibilitando que, após o almoço, o revisor feche os olhos por alguns minutos e possa imergir na sonoridade que só seus ouvidos tem o prazer de desfrutar.

De um lado, um se prepara para salvar o mundo, se despe de óculos e gravata. De outro lado, adaptado e confortável com algumas facilidades do avanço tecnológico, a luta do revisor, não menos nobre, é contra as terríveis palavras sem acento, os malignos erros ortográficos, os perigosos vilões da má concordância e as impiedosas incoerências textuais.

As armas: capa e óculos. As fraquezas: criptonita e hipermetropia.

domingo, setembro 17, 2006

Bombas de sódio e potássio...

De leigo para leigos...

A bomba de sódio e potássio tem importante papel no equilíbrio hídrico celular. Diante da grande porcentagem de água existente em seu interior, a célula tem que dispor de sistemas que mantenham em equilíbrio essa quantidade, tendo, como princípio elementar de funcionamento, as relações das concentrações de íons e proteínas entre os meios extra e intracelular. As concentrações são mantidas graças às trocas iônicas e protéicas estabelecidas entre os meios internos e externos à célula, de tal modo que se mantenham as concentrações ideais de cada íon e proteína em cada meio. A bomba de sódio e potássio é uma das estruturas pertencentes ao sistema de regulagem hidroeletrolítica da célula, sendo responsável, como o próprio nome diz, pela manutenção das concentrações iônicas do sódio e do potássio. A bomba localiza-se na membrana plasmática (que envolve a célula) e depende de ATP (“energia”) para o transporte desses íons (Na+/ K+), principalmente do potássio, cujo trajeto vai contra um gradiente osmótico (o potássio é transferido do meio extracelular, onde é encontrado em pouca quantidade, para o interior da célula, que possui cerca de 30x mais potássio que o meio externo). Assim, sódio e potássio cumprem seus respectivos papéis contribuindo para o equilíbrio hídrico celular.

***
Ela precisou buscar o auxílio da internet para compreender melhor aquela analogia que, mesmo incompreensível, lhe pareceu bastante interessante...

Ela se fez de réu confesso:

- Desculpe, acho que falo demais.

Ele encontrou a deixa para sua metáfora:

- Sabe o que é bomba de sódio e potássio?

Ela soube. Um dia, quando se preparava para prestar vestibular... Mas já não lembrava.

Após uma rápida explicação, que não foi bastante, ele disse que os dois eram como o sódio e o potássio, cada um necessitando de algo diferente que o outro. Necessidades diferentes, mas complementares. Melhor que necessidades, eram habilidades.

E, habilmente, ele a ouvia com atenção e carinho. Tanto mais ela tivesse para falar mais ele se ofereceria para ouvir. Mas não era daqueles ouvintes passivos... Um sorriso ou um olhar eram complementares e dialogavam durante aquele longo (talvez interminável) monólogo.


Ela por sua vez cumpria seu papel. Falar, falar e falar. E falar mais um pouco. Alterada esta composição, feita qualquer interferência nas concentrações de audição e “falação” estaria comprometido o equilíbrio...

domingo, setembro 03, 2006

Diálogo...

Cenário: ponte Rio-Niterói
Sentido: Niterói
veículo: ônibus

- Eu me sinto como um carro que pode ir a 300 km/h e só anda a 80.
- Ué, isso não é ruim. A velocidade máxima da ponte é 80 km/h.
- Tá, se você se contenta com 13 km...

Diário de viagem (trechos)

(Algum dia de julho de 2006...)

É incrível como viajar sozinha me fez ainda mais comunicativa, mas também me ajudou a exercer meu lado pensativo. Cultivei uma introspecção absurda! Sou daquelas pessoas (malucas?!) que falam sozinhas. E vi esse sintoma ser triplicado. Além disso, confesso: me tornei mais voyeur do que jamais fui. Sim, porque já exercia uma certa prática, um certo voyeurismo...

Gosto de observar pessoas.

Às vezes, quando estou dirigindo, paro no sinal e não resisto a um olhar furtivo em direção ao carro vizinho. Aliás, malditos insulfilmes!

O mais interessante de se observar as pessoas é imaginar quem são, perceber como estão vivendo aquele dia, o que estão pensando, para onde dirigem... É relaxante se perder no mundo alheio. Uma distração até que um verde dê um sinal de esperança e eu possa seguir.

Como dizia, durante a viagem, estava sentada em um bar de Montmartre e ao lado da minha mesa um casal. Os gestos dela e dele me pareceram muito familiares. A mulher jogava o corpo para trás, se inclinando sobre a cadeira a cada vez que ria de algo dito pelo seu interlocutor. Não falo uma linha em francês, mas posso jurar que o rapaz era bastante engraçado. Ou o jeito como a jovem se jogava para trás sorrindo e arrumava o cabelo desarrumando-o apenas fazia parte do diálogo entre os corpos. Sabiam que os corpos falam?! Já ouvi algo assim e penso que procede...

Ali, naquela rua da Cidade Luz, uma cidade que transpira romantismo – ou pode ter sido uma impressão mais subjetiva, dado minha, digamos, inspiração – enquanto eu comia meu hambúrguer com batata frita (delícia!) visualizei naquela cena a reprodução de outras. Algumas que eu mesma protagonizei.

Vi a euforia dos dois diminuir aos poucos, como se alguém houvesse pedido à banda que mudasse o ritmo e ao iluminador que abaixasse a luz... Claro que no meio da rua, naquelas mesinhas ultra charmosas, não havia música nem iluminação especial. Mas era como se houvesse.

Ele pega na mão dela e nesse momento os dois já têm certeza de que estão em sintonia. É tudo uma questão de tempo... Ela ainda ri de algo que ele fala (em francês, logo não entendi nada!), mas agora sem jogar o corpo para trás. Apenas a cabeça, como se tentasse fingir que deseja escapar do cerco que ele cria em volta dela. No entanto, ele já percebeu que ela está dentro do cerco e não quer sair. Enfim, o resto a gente já sabe como funciona. Resolvi deixar os dois a sós, pois este é o momento em que o plano se fecha, restando apenas o casal em cena. Ficaria apertado demais para mim.

Espelho

Tio Luiz e vovó:


- Olha mãe, eu chego em casa tão cansado, tão cansado, que eu não olho para o espelho. O espelho que olha para mim...

terça-feira, agosto 29, 2006

Borrão (feito para ler sem respirar)


















Excesso
Ex-cessar
Não cesso
Energia em excesso
Pensar
Conteúdo bruto
Massa amorfa
Que pede para ser modelada
Que explode na tela
Qual puta dor
Ódio catarse


E é ela
Só ela entende e absorve
O que o mundo ignora
Porque é amorfo
Porque não é rosa
Porque não tem cor
Excesso de energia
Excesso de potencial
Excesso de pretensão
Tensão
Explode na tela
A tinta sem forma
Ruído e comunicação
É sim informação
Não está armada
Pronta para ser deglutida
É amorfação
Informação amorfa
Espera o apreciar ruminante
Daquele que sempre
Pode se dar o direito de perder tempo
Ganhando amorfação
Informação amorfa
Energia excesso tela borrão.
(MLCM)

quinta-feira, agosto 17, 2006

Por Anna:

_PÉSSIMA ATRIZ. Fora do elenco. Fo-ra. E não ouse mais colocar os pés no meu palco. Ouviu? Não OU-SE.

Vira-se para o ajudante, com muita classe:

_ Artur, acompanhe esta... esta menina até a saída.E quando ela já está quase saindo:

_Ei, menina, pensa em jornalismo. De repente tem mais a ver com você.

quarta-feira, agosto 09, 2006

terça-feira, agosto 08, 2006

Cenas do cotidiano...

(Imagem: Lisboa - Praça do Comércio)

- Filhinha, vovó foi para o hospital e depois vai para casa de papai do céu.
- É, eu vi. Foi lá no jardim. Ela caiu.
- Você entendeu, meu anjo? Vovó foi morar com papai do céu...
- Mas ela vai só com aquela roupa?
- É meu anjo... Lá em cima Ele vai dar roupa para vovó.
- Papai do céu dá roupa nova?

O pai abaixa a cabeça, rascunha um sorriso...

- É meu amor, papai do céu dá tudo que você pedir.



quinta-feira, agosto 03, 2006

Transversais 2

O beijo - Museé Rodin (Paris)
Clique na imagem para ampliá-la
Harmonia
(Anderson Sato)

No princípio tudo era novo
Incerto
Inseguro

As mãos e bocas vagavam
Descompassadamente
Seguiam

Permitiam-se a quase tudo
Depois a tudo
A mais que tudo

Das palavras cada vez mais desconexas
O descompasso se tornou sincrônico
As respirações ofegantes se uniram

O suor que escorria na pele
Pingou
Pingou
E pingou

No lençol branco só amassos
E suor

Ambos entenderam que dos erros de cada um
Da falta de tempo de cada um
Do atraso de cada um
A antecipação deles
Acabou por torná-los assim...
Harmônicos

E o galo cantou...
O sol raiou...
Amanheceu
Adormeceram.

Transversais

On me dit que le destin se moque bien de nous
Qu'il ne nous donne rien et qu'il nous promet tout
Parait qu'le bonheur est à portée de main,
Alors on tend la main et on se retrouve fou
Pourtant quelqu'un m'a dit /Que tu m'aimais encore,
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore.
Serais ce possible alors ?***


Poderiam ser como duas retas paralelas
E, reversos, nunca se cruzariam.
Ou, como na matemática, ansiariam até um tempo no infinito.

Poderiam ser como as perpendiculares,
Mas os corpos pesariam, desejando estreitar os 90º de distância.

Poderiam formar ângulos variados,
mas ainda sofreriam uma dolorosa ânsia,
esperando um encontro pouco obtuso, menos oblíquo.

Fosse assim, seguiriam como as retas
cada um em seu inabalável percurso.
Buscariam cada um seus sentidos e direções próprias.
Continuariam fiéis às fronteiras que, geometricamente,
separam suas formas.

Um não saberia da existência do outro.
E por isso, não conheceriam a vontade de rever, reencontrar.
Sequer esperariam pela remota possibilidade de re-sentir.

Suas curvas não provariam qualquer alteração,
Não formariam as elípticas e inevitáveis deformações do contato.

Seus conjuntos continuariam vazios
Sem elemento que os preenchesse.

Mas, empurrados ao confronto,
testaram a Física, reduziram espaços.
Enfrentaram resistências que limitavam a soma,
Multiplicaram as possibilidades horizontais.

Quando se imaginavam vencidos,
Comparsas, traçaram a angulação perfeita,
E os dois se descobriram. Ainda retas, mas transversais.
(MLCM)



***Falaram-me que o destino se diverte conosco/Que não nos dá nada e que nos promete tudo/Parece que a felicidade está no alcance de nossas mãos,/Então a gente estende a mão e se descobre louco/Portanto alguém fala para mim.../Que você ainda me ama,/Foi alguém que me disse que você ainda me ama/Será isto possível então?
(Carla Bruni - Quelqu'un m'a dit)

segunda-feira, julho 31, 2006

Entre a cruz e a espada - O imigrante

Lisboa - Portugal
"Ao infante D. Henrique e aos portugueses que descobriram os caminhos do mar"


Um brasileiro de Tocantins/Palmas buscou melhorar de vida em solo português. A esposa enviou os euros para passagem depois de trabalhar por uns seis meses como babá. O imigrante não teria coragem para ser o primeiro a se aventurar. Além disso, parece que é mais fácil para as mulheres driblar o pessoal da imigração.

Hoje, lá se vão quatro anos... Os dois enteados do imigrante (um deles recém-chegado) moram com ele, a mulher e a filha de 16 anos em um apartamento próximo à Praça das Nações, Lisboa.

Quem divide o espaço divide também as despesas. Todos trabalham, até a filha do imigrante, futura médica e atual garçonete no restaurante onde a mãe é chefe de cozinha. Aprender um pouco da culinária portuguesa deu resultado!

O imigrante que começou lavando carros hoje se orgulha por não colocar "um dedo na água". Foi promovido ao posto de recepcionista. Em sua matématica, quem chega para trabalhar em Portugal, como ele e outros milhares de brasileiros têm feito, pode começar ganhando 600 euros, economizar 400 e viver "bem" com os 200 restantes.

- Mas tem que querer trabalhar! - reforça o imigrante, que antes de redescobrir "os caminhos do mar" e se aventurar em Portugal ganhava inconstantes R$ 800 em "bicos" ocasionais.

Quando encontrei o imigrante na Praça das Nações, em Lisboa, ele havia acabado de buscar o mais novo dos enteados no aeroporto. O jovem de 20 anos curtia as primeiras horas respirando mais tranqüilamente o ar europeu. Com a carta-convite da mãe, chegou até Lisboa, mas não antes de ser interrogado, questionado e pressionado por cerca de duas horas. A conexão em Paris foi árdua!

Não bastasse ter que encontrar o portão de embarque dentro do Charles de Gaule (um caranguejo enorme!), ainda teve que justificar o motivo de sua viagem para um indivíduo que só falava francês.

O jovem imigrante sequer sabia arriscar um "Je ne parle pas français". Seus gestos tampouco indicavam o que ele pretendia, pois o francês se irritava ainda mais quando ele tentava mostrar com as mãos que não entendia nada do que estava sendo dito. Enfim, eis que chega "ela", linda, salvadora... A tradutora!

-Fui levado para delegacia.

- Não é delegacia, é a alfândega.

É o irmão mais velho quem corrige o jovem imigrante. Com dois anos a mais, gel no cabelo e corpo malhado o sotaque já não parece tanto com o do irmão mais novo, que puxa os "RR" e abusa das gírias oriundas da região do grande Araguaia.

E o imigrante, padrasto dos dois irmãos, olha o rio Tejo e deixa escapulir uma pontinha de saudade. Lembra do velho Araguaia...

Quatro anos depois de pisar em Portugal, ele planeja a volta para casa. Já comprou duas garrafas de wisky enormes, mas só para enfeitar o bar que vai construir em casa. Um antigo sonho de consumo.

Volta para Tocantins alguns euros mais rico, deixando a ex-metrópole para trás. Enviar o dinheiro para a terra natal nem lhe custa muito.

Os enteados ficam. Ainda há muito que explorar nesta terra de D. Henrique. Vindos de além-mar, eles colonizam os ex-colonizadores, esticam a bandeira verde e amarela na janela, conquistam postos de trabalho e só perdem para os angolanos.

- Esses caras ganham muito dinheiro por aqui - observa o imigrante olhando um homem alto, forte e negro que faz seu cooper à beira do Tejo. O imigrante sugere que os negros têm mais resistência para o trabalho pesado. Como se nascessem para isso...

E deu no jornal:

- São 250 mil brasileiros trabalhando em Portugal.

quinta-feira, junho 29, 2006

quinta-feira, junho 22, 2006

Relato um dia incomum

Deito. Mil flashes vindo à minha cabeça. Flashes de um dia incomum. Milhares de pensamentos atravessando minha mente, minutos antes de meus olhos se fecharem. A vitoriosa "Insônia" perde para o sono que se aproxima a galopes, embaralhando a lógica.

Hoje, vi o futuro, enquanto declamava algumas angústias juvenis. Entre meus experientes interlocutores, vi as rugas que terei, os cabelos brancos, os gestos lentos e o corpo curvado. Eu, que tenho minha visão sempre além, no horizonte, no infinito, vi minha vertebral envergadura empurrando o olhar na direção dos meus passos lentos. Vi minha alegria singela e vagarosa...

E me vi com olhares admirados para o vigor de uma jovem risonha, um rosto conhecido... Aquele rosto era emoldurado pelos meus cabelos, mas ainda cheios e castanhos. Possuía os meus olhos pretos, só que mais brilhosos e inquietos. . .

segunda-feira, maio 29, 2006

Tú me acostumbraste




"Tú me acostumbraste a todas esas cosas, y tú me enseñaste que son maravillosas."

domingo, maio 28, 2006

La reina (Pablo Neruda)

Yo te he nombrado reina.
Hay más altas que tú, más altas.
Hay más puras que tú, más puras.
Hay más bellas que tú. Hay más bellas.
Pero tú eres la reina.
Cuando vas por las calles
nadie te reconoce.
Nadie ve tu corona de cristal, nadie mira
la alfombra de oro rojo
que pisas cuando pasas.
Y cuando asomas,
suenan todos los ríos
en mi cuerpo, sacuden
el cielo las campanas
y un himno llena el mundo.
Sólo tú y yo,
sólo tú y yo, amor mío,
lo escuchamos.

domingo, maio 14, 2006

NOVO!!!

Malu de bicicleta quer interagir com você!!! A partir de agora, você poderá votar na nossa enquete.

*Caso as opções não sejam suficientes ou, se você quiser expressar sua opinião,vivemos em um país democrático! COMENTE À VONTADE!

Leia a "Carta ao Zézim", de Caio Fernando Abreu, e responda: "Qual o momento mais importante quando você escreve um texto?!"

domingo, maio 07, 2006

Carta ao Zézim

“Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta.”

Caio Fernando Abreu
Coloquei as palavras de castigo por não conseguirem expressar o que estou sentindo.
Ass: Engasgada.

sábado, maio 06, 2006

A carta de Gregória

A Jesus Cristo Nosso Senhor
"Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tăo repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a e queirais, Pastor Divino,
não perder na Vossa ovelha a Vossa glória."
--Gregório de Matos (1623-1696)



Mãe, feliz dia das mães. Submeto-me às comemorações oportunas ao comércio, embora eu bem saiba que, tão logo passar este segundo domingo de maio, o foco mudará e muitas mães permanecerão ocupando seus lugares entre a mobília.

Não é o seu caso.

Devo dizer que a grana estava curta e este ano não haverá presente embrulhado sobre a cama, rosas, cestas ou homenagens dispendiosas. Não tome esta falta como se representasse outras (falta de amor, por exemplo). Além disso, como sabe, o trabalho e os estudos me consomem. Cansada, mal tenho ânimo para lhe remeter esta carta. Mas a data não passará em branco. Seu presente agora se põe a escrever estas poucas linhas.

Minha Senhora, esta ovelha vem lembrar-lhe que Vossa glória reside na capacidade maternal de abstrair, relevar, perdoar, doar-se e amar incondicionalmente.

Meus erros recorrentes se traduzem em superioridade quando confrontados com Vossa habilidade maternal para compreender todos meus traços de imperfeição.

Portanto, neste momento afirmo: Eu sou o seu presente, pois lhe dou a chance de ser melhor a cada dia.

Não me agradeça.

Um beijo da filha que te ama,

Gregória.

sábado, abril 22, 2006

V = ∆S / ∆t

Em quinze dias ela aprendeu a andar de bicicleta. Tombou algumas vezes. Chegou de lábios inchados e vermelhos, joelhos ralados, manchas roxas... Um aprendizado dolorido e colorido. Ela sobe na bicicleta e precisa de uma mãozinha amiga e "prima" para se equilibrar. Mas em pouco tempo ela já consegue tomar impulso sozinha. E o primeiro passo para o equilíbrio é não pensar no desequilíbrio. De queda em queda as duas rodas vão se tornando suficientes e ela aprende a frear no momento certo: antes de colidir com postes, meio-fio, pedestres, carrinho de pipoca, árvore, banco de praça e o que for. Arrastada de seu tempo costumeiro, a experiência de aprender a deslocar-se sobre duas rodas chega para ela no momento em que já conquistou o equilíbrio da maturidade. Antes, quando ainda alimentava uma infantil instabilidade emocional, lhe fora vetada uma prática que só cabia aos homens; abrir as pernas em posição tão erótica quanto aquela que exige a pervertida estrutura de uma bicicleta. A mentalidade de um adulto, que impregnou o brinquedo com uma pudica promiscuidade, retardou o aprendizado dela, que agora sem nenhum pudor, solta cada perna para um lado do banco e faz sobre os pedais a força transmitida para a roda traseira através da corrente. E, exercitando o físico e a Física, ela comprova a cada pedalada a equação básica V = ∆S / ∆t. Ou seja: a vitória é igual à Variação de Suor dividida pela Variação de tombos.


Continua...
*Este texto foi escrito com base na experiência real da mais nova ciclista de Niterói-RJ.

sexta-feira, abril 07, 2006

Fazendo sacanagem...


A menina, 10 anos ou menos, convidou o tio:

- Tio, vamos fazer uma sacanagem?!

O tio se assustou e logo pensou como essas crianças de hoje em dia estão precoces e como isso queima etapas e como é preciso rever a educação das nossas crianças e que a TV é a grande culpada e que os pais estão muito ausentes, porque têm que trabalhar o dia todo para ganhar uma miséria, e que a exploração pelo capital corrói a sociedade, compromete os valores da família e blá blá blá blá...

O pai da menina se aproximou e perguntou qual o motivo da indignação do cunhado.

- Cumpadre, não sabe o que acabo de ouvir da sua filha.
- O que?!
- Ela me disse: "Tio, vamos fazer uma sacanagem?"
- E você esperou que ela terminasse?

O tio balançou a cabeça respondendo que não.

- Então espere ela terminar o convite.

E o tio, constrangido, perguntou para sobrinha qual sacanagem ela queria fazer com ele.

E, com um jeitinho indecente que só as crianças mais puras conseguem ter, a menina respondeu risonha:

- Tio, vamos apertá a campainha do vizinho e saí correndo?

quinta-feira, março 30, 2006

PRESSA


“Nossas emoções cabem em uma hora e meia?” Embrulho minhas emoções para presente, sem retocá-las um milímetro, sem maquiá-las. Em seguida, faço uma oferenda para o mundo ou para o recorte dele que colei no meu mural de fotos, de instantes e pessoas importantes. O pacote é feito de tempo e tem prazo de validade. Passado o prazo se abrirá forçando um desnudar completo de minhas emoções. É como uma criança no ventre da mãe, que permanece embrulhada pelo tempo exato da gestação e encerrado o prazo rasga avidamente a cortina que lhe dá acesso ao mundo. Corre-se para desembrulhar o presente, choro, catarse... Qual o tempo necessário para empacotar cada emoção? E se ela nascer desnuda de um estouro, derramando-se sem hora pré- determinada, sem anestesia? Em uma hora e meia cabe a emoção de um bom resultado na prova do colégio. Mas não cabe a emoção de um primeiro beijo, menos ainda do último. Uma hora e meia é um embrulho enorme para a emoção de um torcedor que vibra com o gol do seu time no amistoso. Mas é extremamente pequeno se este embrulho guarda a emoção pelo gol da seleção aos 48 minutos do segundo tempo na final da Copa do Mundo. Aqueles que pedem a mim uma emoção compacta, envolta no tempo que me é concedido entre um reclame e outro, não entendem de emoção nem de tempo. Minha ansiedade de ver a cortina se abrir é enorme, corro para chegar logo o momento de ver minhas emoções no palco. Não se disfarçando ou se contorcendo para caber no tempo do espetáculo, uma hora e meia. Quero minhas emoções livres das amarras. Amarras que oprimem, me obrigando a sentir no compasso dos ponteiros. Amarras de um belo embrulho que transforma minhas emoções em presentes, aprisionados pelas correntes das perspectivas em relação ao futuro.

terça-feira, março 14, 2006

"EU TE _ _ _"

Saio da minha experiência hermética e me exponho ao transe. Ao transe de um indivíduo em busca da troca. De um indivíduo que aguarda profunda e ardentemente a oportunidade de deixar sua individualidade solitária. A oportunidade de pertencer sem carecer ou depender. A chance de compartilhar sem temer a vulnerabilidade de conjugar o famigerado verbo na primeira do singular: "EU TE ...". Mas conjugar sem o receio angustiante da flexão no plural: "Nós nos...?"

Entrego-me ao transe de discorrer sobre algo que não conheço. Surpreso, leitor?! E, por acaso, você conhece? De qual tipo? Sim, há tipos, Vários! Conhece o de Camões? Ou o de Vinicius? Ou, quem sabe, não inventou um tipo novo em suas andanças?! Sem problemas, leitor passivo. Não precisa se abrir. Afinal, quem se expôs ao transe fui eu. Exposição, uma atitude difícil, encantadora. Como um quadro na galeria ou como uma bailarina na caixinha musical é fácil. Desafio-o a tentar a exposição tal qual a de um crooner amador que sempre recebe vaias, mas arrisca-se todas as noites a, quem sabe, ser ovacionado. Afinal, conjugar este famigerado sentimento – você sabe qual – é um desafio para iniciantes e doutores. A última é sempre a primeira vez.


Acostumado a rimar sempre com terminações em “OR”, quase me surpreendi pedindo “Por favor!” Surpreso, leitor?! Pois saiba que esse conjugar complicado não aceita orgulho, tampouco vaidade. Rima-se com “dor” e com “felicidade”. Sim, ao mesmo tempo. Ora, sei sabendo! De ouvir dizer, de ver na TV, de ler nos livros, de ver nos aeroportos, nos portos... Claro, rima-se com partida e chegada, com saudade, com cessão, com sessão... É possível rimar com fantasia, com realidade, com perenidade, com eternidade. Mas, devo confessar, estas últimas rimas me parecem bastante escassas, como me parece escasso o.... Você sabe o quê. Como? Medo? Não! Só não quero falar dele hoje. Por quê? Nada de mais, não quero e não vou. Posso voltar ao meu transe?! Obrigada!

Entre um fogo que arde sem se ver e algo finito posto que é chama? Não sei. Não queria me queimar. Inevitável? Você acha? Mas por que cargas d’água tem porque tem que ser desse jeito masoquista? Você ri? É trágico! Sei, engraçado porque não é você que está na berlinda. Eu sei. Conjuga-lo é colocar-se nela, na berlinda. Sim, “lo” é “ele”. Não adianta, não vou pronunciá-lo. Ainda não. Não hoje. Amanhã, talvez. (MLCM)

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

"O tempo não pára!"

Insônia

A madrugada me abriga poeta.
Foge a expectativa de ver Morfeu se aproximar
As palavras entram em ebulição
Pedindo um lugar no papel.
A noite é o jardim onde semeio
Dúvida, anseio e esperança.
A noite me abriga mulher
Me brinca criança.
Quando o silêncio impera
Faz-se euforia interna
Minh’ alma entra em festa
Meus olhos se abrem arregalados
Sou iluminista e revolucionária.
Incendiária, lidero multidões.
Escrevo o manifesto dos loucos
E recito publicamente entre quatro paredes.
Próximo passo: resgatar a sanidade.
À noite, infinita enquanto noite,
O passado me visita
Ganha a forma desafiante da inspiração
Ou se traveste de nostalgia.
Os cães ladram e a carruagem estaciona,
Enquanto dorme a cidade.
Sobra tempo para vestir cada ilusão
E desfilar pelo mármore cristalizado
Construo mil cenários.
Sou múltipla persona, ser fragmentado.
Sambo na ágora, senado boquiaberto.
Sou Baco e Apolo na festa do vinho.
Toureio na Acrópole para as ruínas do Parthenon.
A noite fricciona em minha pele
A aspereza da solidão
E a tez aveludada das possibilidades.
À noite posso perder o ritmo e a rima
Me permito pecadinhos e heresias
E enquanto adormece a Divindade
Posso abdicar das boas maneiras,
Abrir mão do pudor e deslizar na luxúria.
Só o que me freia é a contradição.
Aquela que me alicia, também atemoriza.
Então sinto falta de ombro, mãos e conivência.
É quando durmo, embriagada de sono e ansiedade.

(Malu de Bicicleta)
***

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Jardim

"Meu conceito de jardim determina o que é praga ao redor de mim..."
(Affonso Romano)
Mas também determina o que é flor. E isso o Affonso Romano esqueceu de mencionar.
Eu lembro sempre.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A BANCA E O JOGO

“Inquirido disse: Que no dia de hoje, por volta das 14 horas e 45 minutos, a declarante caminhava pela Praia de Botafogo, em sentido ao Botafogo Praia Shopping, pelo calçadão, quando em frente à rua Farani, um grupo de três indivíduos que aparentavam ter entre doze e quinze anos, que com a mão sob a camisa, aparentando estar armado, um dos jovens disse: “Passa o celular e o dinheiro!”, sendo atendido; Que após o roubo, o grupo seguiu caminhando pelo calçadão em sentido ao Aterro do Flamengo, quando a declarante ouviu alguém gritar e olhou para trás...”
A declarante sou eu. Quisera não fosse. Quisera não tivesse nada a declarar. Mas tinha. Tinha muito mais do que me permitia o espaço reservado para meu depoimento, enquanto vítima e testemunha. Testemunha da insensibilidade humana, testemunha do desespero, da banalização, bem como da indignação e do medo quando transformados em individualismo e perversidade. A contragosto testemunhei tudo isso no dia mais triste de toda minha vida. Uma vida de poucos dias tristes, o que não minimiza o sofrimento do qual fui uma mera testemunha ocular.
Pudesse acrescentar alguns detalhes ao meu depoimento, assim o faria...
Que no dia de hoje, por volta das 14 horas e 45 minutos, a declarante, eu, caminhava pela Praia de Botafogo, trajando seu vestido novo, que fez questão de estrear no dia em que suas horas mal dormidas e todo seu esforço seriam recompensados e reconhecidos: “A Banca Examinadora, após argüição, decidiu pela aprovação com grau 100”. Possivelmente, sem perceber, a declarante, eu, trajava um sorriso de vitória ao ser abordada por três indivíduos enquanto caminhava pela Praia de Botafogo em sentido ao Botafogo Praia Shopping; (...) Que após o roubo, o grupo seguiu caminhando pelo calçadão em sentido ao Aterro do Flamengo, quando a declarante ouviu alguém gritar, olhou para trás e viu algo voar no céu, dar piruetas no ar a cair imóvel no asfalto que queimava sob o sol de 40 graus.
“Que deseja esclarecer que o taxista, autor do atropelamento não pôde evitar o acidente por se tratar de uma pista de alta velocidade e ter desviado dos outros dois indivíduos momentos antes, vindo a colher a vítima; Que com o indivíduo atropelado foi arrecadado o telefone e o porta-níquel com o dinheiro da declarante, sendo a vítima do atropelamento reconhecida ainda no local como um dos autores do roubo que fora vítima no dia de hoje...”
Eu, que prestei depoimento, que fui abordada, roubada e algumas horas depois obtive na 10ª DP meus pertences de volta; dos quatro, eu já não era tão vítima. Não conseguia me sentir vítima, tampouco lesada, vendo o sofrimento daquele garoto agonizando diante dos policiais e taxistas.
Trânsito lento, curiosos passam, espiam. Mais um acidente, como tantos que ocorrem pela cidade, pelo país. Fez por merecer. Ora, procurou!Tem mais é que morrer! Pior é que vai sobreviver e, réu, vai fazer outras vítimas. Garotos como ele, assaltam, roubam e até matam! Sem dó nem piedade. E aos 18 anos, voltam a ter a ficha limpa. Esse mundo é muito injusto... Infelizmente os outros dois escaparam. Antes tivessem sido lambidos pelo táxi, rodados no ar e caído agonizantes no chão. Esses garotos têm sete vidas e ainda gastam nossos impostos ao serem atendidos em hospitais públicos. O coitado fritou no asfalto! E que prejuízo esse garoto não deu ao se jogar na frente do táxi que passava, no mínimo, a 70 km/h. Uns R$ 500, calcula o taxista, candidatando-se ao posto de quinta vítima. Por enquanto, somos quatro, os três garotos e eu, testemunha e declarante.
Olhando o corpo no chão, imóvel enquanto não chegava o carro dos bombeiros, pensei na história dele. Um pé do chinelo jogado longe, talvez número 36, talvez aquariano como eu, talvez João, talvez Wellington, talvez irmão de mais 10, talvez filho único, talvez, talvez... Mas o que importa? Afinal, naquele instante era um corpo, era o corpo de um pivete que após se exibir dando piruetas no ar, permanecia segurando firme meu porta-nível e meu celular, devidamente resgatados depois que eu, caprichosamente, assinei três vias de um documento lá na 10ª.
O corpo. Sei que isso é desagradável, mas ainda tenho algo a declarar. Não sai da minha cabeça aquele corpo de bruços, aquela respiração ou qualquer coisa parecida que fazia as costas levantarem e descerem, levantarem e descerem num ritmo bem marcado, acelerado, como um animal abatido que resiste só por resistir, sem qualquer pretensão, apenas insiste em sobreviver.
Hoje eu fui testemunha ocular do visível e do invisível. Testemunhei horrorizada que a vida vale muito pouco nesses dias. Testemunhei que existe a pena de morte no meu país, debutante nas questões democráticas. Testemunhei que a sentença é dada sumariamente aos delinqüentes juvenis sem passado, sem história, sem desculpa, sem conserto, sem identidade. Apenas “pivete”. Ou o carinhoso e irônico diminutivo: “pivetinho”.
A declarante, eu, fui testemunha e vítima. Uma vítima que não se reconhece como tal. Uma vítima boba, complacente com os infratores, ladrões, delinqüentes... Indivíduos que lesam a sociedade de bem, que paga seus impostos e se ressente pela falta de segurança que assola este país.
Hoje, a historiadora aprendeu, na prática, as regras do jogo. Aprendeu como vivem indivíduos clandestinos, sem passado, sem história, sem justificativas. E por isso, previamente culpados.

domingo, fevereiro 05, 2006

Desafio

"Vou com um sorriso no rosto e uma idéia na cabeça!
Depois dessa montanha (que daqui parece enorme), espero encontrar algumas ladeiras para deslizar feliz. Até os próximos desafios..."

Malu de bicicleta

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Moeda da sorte

Moeda da sorte
Inspirado em "BROWN PENNY" (Moeda Marrom)
by William Butler Yeats


Eu sussurrei: “Sou muito jovem”
E depois: “Envelheci o bastante.”
Então, joguei uma moeda
Para descobrir se eu seria amada

Ah! Moeda da sorte, moeda dourada,
Diga-me onde encontro o amor
Qual o sentido, qual a direção?
Como alcanço sua morada?

“Não escale a montanha vigiando a queda”.
Ah! Moeda dourada, dourada moeda,
Fui seduzida por um ritmo descompassado.
Meu par de novo bateu em retirada.

Como conter minha precipitação para saber o amor?
Como ser sábia e não viver a ansiedade?
O dia chega e flagra meu torpor.
Será o amanhecer um convite à possibilidade?

A música ainda toca ao fundo...
Ah! Moeda da sorte, dourada moeda.
Eu sei, cedo demais para um coração tão contrariado.
Mas esta noite a lua minguou e o tapete negro estava apagado.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Um convite para o dia seguinte...

Convite

CONVITE

Boemia, venha ver o pôr do sol!
É cedo para você, mas tarde para quem madruga antes das 6.
Quando ele mergulhar e você enfim aparecer
Não vá dizer que não avisei.
Não adianta me culpar pelo estrago que você fez.
Boemia, venha ver o astro rei
Sem essa de sair só depois que a noite ancorar
Deixa de história, para de se enfeitar.
Boemia, ele já está sumindo...
Corre se não vai perder
Deixa pr’a lá o que tiver de fazer
Isso não é ansiedade, tampouco afobação.
Quem lhe chama é a cidade, é São Sebastião.
Boemia, deixa seu tambor um pouco de lado
Vem batucar no meu terreiro
A chamo para ver o espetáculo
Você diz que só no próximo fevereiro.
Boemia, por que espera a festa da carne?!
A comemoração é agora!
Boemia, venha ver o pôr do sol!
Minha cara, que demora!
Já era... ele mergulhou.
Um bêbado se insinua...
Quer lhe pagar uma bebida, fazer uma brincadeira...
A noite é sua, nua, faça bom proveito!
Mas quando o sol escancarar sua bebedeira
Boemia, minha cara, sua graça não terá mais efeito.

MLCM

sexta-feira, janeiro 06, 2006

"Loucura"

Malu conheceu uma senhora cujo filho, esquizofrênico, está internado. Ao escutá-la narrar seu sofrimento de mãe vendo as ilusões da mente perturbada de seu filho, ela fingiu uma força que desapareceu mais tarde, quando veio um choro inexplicável.

"Ela" se destaca mais pela paixão de suas esculturas, pela riqueza de sua percepção do mundo modelada no barro, no bronze... Mas era a "loucura" de Camille Claudel que se fixara na mente de Malu enquanto ouvia a senhora. Aquela mãe contava algumas das alucinações de seu filho, que comemora todo dia o aniversário da irmã e não se alimenta porque seus olhos lhe pregam peças e acusam a existência de bichos em sua comida. A agressividade de um jovem, vítima das seqüelas da dependência química, e o descontrole sobre os instintos sexuais são episódios deprimentes de uma vida esmagada pela loucura.
Mas o que é a loucura? Serão os loucos realmente loucos? Serão os sãos realmente sãos?

O que dizer para aquela mãe? O que "Malu no país das maravilhas" pode dizer? Apenas que todos temos nossas "loucuras", nossas alucinações. Malu de bicicleta teme a escuridão. Tenta se convencer do contrário, mas quando confrontada com a imprevisibilidade que há na ausência de luz ela imagina que há pessoas a espreitá-la. Há casos sérios de pessoas que têm graves alucinações ao se apropriar de coisas alheias e afirmarem convictas total inocência no banco dos réus ou das CPIs da vida. Há outros que passam a vida desejando que o fracasso alheio se traduza magicamente em seu sucesso instantâneo. Cadê as camisas de força?! Estariam escassas no grande mercado da impunidade?!

A loucura é algo dolorido - não deixo de imaginar Camille quebrando todo seu ateliê pouco antes de ser internada. Mas também é curioso pensarmos que os loucos de hoje podem ser os gênios criativos, a escultora brilhante, o inventor magnífico... Tudo no magnífico amanhã, o senhor dos contrastes. Para Malu, um reservatório empolgante de possibilidades e um enorme e assustador buraco negro, cheio de imprevisibilidade.
"Mais louco é quem me diz que não é feliz..."

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Licença poética

Até quando?
Até quando vou atravessar os outros como se eu estivesse dentro de um carro olhando a vida correr lá fora e esperando o momento certo de descer? Até quando vou sentir que há um sinal fechado logo ali adiante, justamente em frente àquele lugar onde eu queria dar uma paradinha, e quem sabe ficar um tempo? Até quando vou me cansar de um ano e correr para comprar a agenda do seguinte, tentando recomeçar a viagem que já dura mais de 20 primaveras. Até quando vou fazer questão de me jogar do carro justo nos lugares mais obscuros só para me certificar de que não estou perdendo alguma luz escondidinha e impossível de se ver da homogeneidade retilínea da estrada? Até onde vou ter que ir para encontrar o lugar que estava no cantinho do mapa que rasgou? Até quando vou procurar justamente pelo cantinho rasgado, quando há um mapa enorme indicando novas direções, novas possibilidades? Até quando vou me perguntar “quantos quilômetros faltam?!”? E quantos quilômetros faltam? E aquela sensação de que esqueci de carregar algo para essa viagem? Algo, que não encontrarei em nenhuma parada na beira da estrada, mas que, eu sinto, me fará uma falta enorme! É uma bagagem, uma leitura, um contato, um lugar, uma experiência, uma tentativa, um erro, um desafio, uma bobagem estratégica só para contrastar, só para dispersar... É uma nota, uma melodia, uma história, uma patota, uma farra, “um espinho na mão, um corte no pé”, uma meditação, uma pausa para ir mais longe... Mas onde mesmo?!



"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente"(Carlos Drummond de Andrade)


Stop!
O carro parou
Ou foi a vida?
**Malu de bicicleta passa bem. Estava um pouco desidratada, chegou a ter algumas alucinações. Imaginem que ela pensou que podia parar o tempo para descansar um pouquinho...

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Planície

Morro acima. Morro abaixo. E mais morro, morro. E quase morro de tanto morro.

Assim Malu de bicicleta traduziria seus últimos dias. Longas subidas... Trajetos inclinados, 40, 50°. E o tempo, por aí: 40, 50°... Sede, muita sede. A garganta foi ficando seca, as pontas dos dedos geladas, a visão turva, escura... pow! Desculpem os sonoplastas de plantão, mas essa onomatopéia foi exatamente o tombo. Não o primeiro, apenas um dos muitos. Lá no alto do morro, Malu foi ao chão. Desidratada, torrou sob o sol. O solo recebera seu corpo de forma grosseira, sem a recepção calorosa de um colchão, de uma rede, da areia, da água... Água! Quem dera... O morro se tornou maior, mais alto, parecia alcançar o céu. E por isso faltou pouco para que se assemelhasse com Malu, que quase ia encontrar com o pai sem sequer marcar hora. No alto do morro, ela mirra, morre e ninguém socorre. Triste fim.


Um resquício de consciência e Malu pensa que já havia subido tanto! Já era para ter chegado... Algo estranho acontecia com aquele morro que a cada dez passos se esticava vinte, numa progressão alucinante. Com seu resquício de consciência, já num estado de delírio, aquele chão de terra batida, rachado pelo sol, ficou mais confortável. Uma nuvem cinza e pesada encobriu o sol e fez chover água de banhar e água de beber. Uma brisa um pouco mais atrevida levantou-lhe o vestido que ia até abaixo do joelho. Braços fortes e sadios ergueram seu corpo que parecia ter se separado da alma ao ser suspenso em um único segundo. Daí, mais morro. Morro, morro, morro...

sábado, dezembro 03, 2005

Roda Vida

"Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração"

Roda Vida (Chico Buarque)


“O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração”.

Ela adormeceu um instante e quando voltou nada parava no lugar. A rotação da Terra seguia em passos retardados, débeis como seu sangue... Ela não saiu do lugar em que estava, continuou rodando naquela mesma roda que se soltou da bicicleta, apostando em novos rumos. E, como aquela roda, ela quis também se soltar, deixar seu jeito insosso, ser de carne e osso e rodar... No cotidiano a inércia não admite impulsos e ordena: que tudo permaneça igual, à menos que haja... atrito!

O sangue desacelerou em seu percurso sempre tão frenético, ele sempre tão preocupado em dar tempo, atarefado com a responsabilidade de enxaguar constantemente todo o corpo... Assim foi. Um coração arrebatado permitiu o atraso, ele próprio consentiu em bombear mais devagar... E o sangue deu suas voltas lentamente, retardando todo o resto.


Uma voz ébria aconselhou: “Por hoje deixe rodar, pois amanhã tudo permanecerá como sempre...” Insossamente parado.

No picadeiro, ela foi a atração. Rodou, rodou, se permitiu rodar...

A roda roda,
ela roda
na roda de samba,
o samba roda
ela roda,
bamba, samba...


O improvável é o desconforto, mas é também uma brecha mágica para a fascinante descoberta do inverso, do que é adverso, da falta de verso, de métrica, de rima. Quando a rotação cessa: surpresa! O acaso te surpreendeu mais uma vez.


“Me cobrir de humanidade me fascina...
Perfeição demais
Me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontra um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso...” (Mosca - Zélia)


Malu de bicicleta descobriu que tinha as ferramentas guardadas consigo e consertou ela mesma sua bicicleta. De novo em linha reta, busca seguir viagem... O circo ficou para trás, será?!

terça-feira, novembro 15, 2005

Hoje tem palhaçada?! Tem sim sinhô!

Vocês lembram que em “Infinito”, há duas postagens e muitos dias atrás, a roda traseira de Malu estava em um “estado lamentável” ?! Pois então, agora tudo caminha bem ou não caminha... Na verdade, Malu de monocicleta só anda em círculos, tentando desesperadamente chegar a algum lugar. Com uma única roda, o que parecia terminado, apenas mudou de rumo. Malu foi vista em algum lugarejo do planalto central, debaixo de uma lona colorida, fazendo graça para meia dúzia de criancinhas sorridentes e equilibrando-se em uma das rodas de sua bicicleta, a que saiu de seu costumeiro lugar.

É isso mesmo! Malu está trabalhando no Circo. Ela não é o palhaço, mas faz das suas e diverte o grande pequeno público. Às vezes somos público, às vezes a atração. Malu agora é a atração, assim como o incrível homem - gelo, o super mágico de Ozim ou a surpreendente mulher barbada. Neste momento, Malu é quem diverte e distrai uma dúzia (antes era meia, mas o público cresce...) de guris cheirando a leite, cheios de cáries, com deveres de casa por fazer... Dali, alguns vão direto para casa como seus pais ordenaram, outros vão ficar pela rua com seus coleguinhas, enquanto suas mães não saem cheia de rolinhos no cabelo gritando seus nomes: “Henrique João!” Até poderiam ser dois filhos, mas é o famigerado nome composto. Há uma lenda sobre nomes compostos que devo dividir com você... Reza a lenda, que um rei mexicano (licença poético-histórica) tinha dois filhos, Rodolfo e Fernando. Os dois meninos eram a razão de viver daquele monarca, tão preocupado com questões sucessórias que só afligem os ricos muitos ricos, que têm o que deixar para seus herdeiros.

Um dia, o reino foi invadido e sumariamente destruído. Os filhos do rei, dois rapazotes muito bem abençoados, foram levados e feitos escravos. O rei caiu em desgraça. Um reino usurpado e seus herdeiros escravizados. Era muito mais do que ele poderia suportar. Em uma noite, o pobre monarca ex-rico ingeriu um poderoso veneno, dando fim ao seu sofrimento. E os nomes compostos?! Bom, reza a lenda que antigos autores de antigas peças itinerantes, em função da notoriedade desta trágica história e da beleza dos dois irmãos que se perpetuara no imaginário popular, tentavam driblar a feiúra de seus mocinhos atribuindo-lhes os nomes dos jovens príncipes. Portanto, há muito tempo, assim surgiram os Rodolfos Fernandos. O resto ficou por conta da criatividade do povo: José Reinaldo, Armando José, Rodolfo José, João Fernando, Henrique João...

Bom, o caso é que nossa amiga está muito bem e permanecerá se equilibrando em cima daquela única roda que se soltou até que o Circo a leve para outro canto ou que os ventos soprem para outra direção.

Respeitável público, ficamos por aqui!
Abraços!

quarta-feira, novembro 09, 2005

Kataplef!

“Malu andava de bicicleta, linda, leve, solta e segura de que nunca cairia, pelo menos não naquele terreno. Só não se deu conta que o dia escurecia, e que nunca havia pedalado à luz da lua. Num primeiro momento ficou maravilhada com as estrelas, com os sons dos grilos... até que se distraiu e: kataplef!!! Caiu no chão. Não sabia expressar o que sentia no momento, um misto de sentimento de...derrota, medo. O que fazer agora?! Pôs-se então a chorar copiosamente. Até que era belo o seu choro. Com aquilo intentava o impossível: chamar a atenção de um socorro. Pai, mãe, padre, polícia... Sei lá! Alguém viria lhe ajudar, era humilhante ter que levantar do chão machucada e suja. Mas ela não sabia, à noite é diferente. Ela havia fugido de casa, não podia chamar os pais. O padre já havia rezado a última missa. E a polícia... Bem, esta à noite se parece mais com os ladrões. Preferiu, mesmo assim, continuar chorando a se levantar e continuar pedalando e aproveitar o que a noite ainda poderia lhe trazer, de bom ou de ruim... Talvez fosse mais seguro mesmo continuar ali onde sempre esteve...

Malu mal se levanta, e quer voltar para seu ninho de novo...Mas a noite é feita de suor, lágrimas, sorrisos e provocações, muitas provocações..."

quarta-feira, novembro 02, 2005

Chorinho para você musicar

A vida inspira a arte, ou vice-versa?
O sentido requer o hipertexto. Este, ficarei devendo...

Chorinho para você musicar

Te ignoro para não me jogar de novo no teu abraço
Assim eu me defendo do seu pouco caso, do seu descaso.
Te ignoro para não me jogar no teu abraço.
Aberto, mas escasso.
Te ignoro, enquanto não te esqueço,
Porque seu colo é o berço da minha dor.
Ignoro e quando não suporto choro...

Um chorinho descompassado
Como os que você cantou em Santa Tereza
Um chorinho minguado, mal ritmado.
Pois afinal é um choro de tristeza

Só derramo lágrimas.
Não posso derramar qualquer requisição
Por quem nada prometeu.
Eu, "Prometeu acorrentado",
Quero me livrar desse acorde furado,
Desse arremedo de relação.
Antes que venham as despedidas, o espelho quebrado.

[Por isso] Choro um chorinho descompassado
Como aqueles que você cantou em Santa Tereza.
Um chorinho minguado, mal ritmado,
Afinal, é um choro de tristeza.

De repente, a noite virou dia.
Como sempre acontece,
Não mais que de repente, a claridade atravessou a janela.
Meus olhos de ressaca não puderam dissimular.
Me perdi nos seus braços, boemia.
E este poeta chora por não conseguir se encontrar.

Chora um chorinho descompassado
Como os que você cantou em Santa Tereza
Um chorinho minguado, mal ritmado.
Pois, afinal, é um choro de tristeza.

Abandono a métrica, porque não me faz falta
Ela só me atrapalha a inspiração.
Te ignoro para não me jogar nos teus braços, boemia peralta.
Te ignoro e choro, sem métrica nem discrição.

Um chorinho descompassado
Como os que você cantou em Santa Tereza
Um chorinho minguado, mal ritmado.
Pois, afinal, é um choro de tristeza. (MLCM)

“E o meu medo maior é o espelho se quebrar...” (“Espelho”, João Nogueira)
para ouvir “Espelho”, digite Espelho no uol Busca, site http://musica.uol.com.br/radiouol e escolha a versão cantada pelo sambista João Nogueira, do CD Uma Noite Com A Raiz Do Samba.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Infinito

“Você tem medo de descobrir que você não é apenas esse personagem casto que você criou?”

Malu nunca achou que tivesse vocação para a castidade, pelo contrário.
Mas ao ouvir essa frase sentiu como se as palavras formassem um todo, um sólido, pesado, feito única e exclusivamente para ela. As palavras se uniram, cristalizadas em uma só e esta se repetia em sua cabeça.

As últimas experiências, quase traumáticas, fariam com que Malu se questionasse quanto a alguns “tabus” e aquelas palavras ecoaram em seus ouvidos: “Personagem casto”, “Você tem medo”, “Você não é apenas esse personagem...”

Quem as proferiu não merecia crédito algum. Fora derrotado já no segundo round. Contudo, suas palavras, ditas em pleno ringue - poderia ser um ringue de amor, mas não - soaram estranhas aos seus ouvidos. Claro, que não duvidava de que fizera o certo ao repelir aquele ser asqueroso que avançara em seus cabelos, puxando-a para si como o jogador viciado que sente o cheiro da sorte, aposta e raspa a mesa repleta de moedas na primeira rodada de pôquer. Mal sabe que esta é só para animá-lo a lances mais altos.
Quanto maior o vôo, maior a queda. Novamente volto às expectativas. Ou são elas que se voltam contra mim. “Só não quero que você tenha expectativas”. Como me pedem um absurdo desses?! Como ousam contrariar minha natureza: ansiar, aspirar, ambicionar expectante... Ah! Acabo de lembrar! Ouvi que em todas as línguas a palavra “noite” seria a união de n+oito. Bom, a explicação é interessante e até comporta a mudança do “o” pelo “e”. Afinal, não teria cabimento se chamássemos “noito” a cada vez que o sol brigasse com um lado da terra iluminando só o outro.
Que seja noite (com "e")! Ainda assim, vale a observação: night = n+eight (sem o “e”); noche = n+oche (ou ocho, que seja!). Forcemos a coincidência e eis que a palavra noite se revela como constituída pelo número 8 ou ∞, que significa o infinito. De fato, a noite e o infinito são parentes. Quem já não passou por uma noite interminável? Ou quem nunca olhou para uma noite em especial e pensou que esta bem poderia ser infinita? Noite, oite, oito, infinito, infinoito infinoite. Que viagem! Inspirada pelo significado dos números, talvez depois eu fale do “0” à esquerda.

Bom, quanto à viagem de Malu, um simples pernoite (ou pernoito) causou um rebuliço em sua cabeça. Isso porque as palavras do homem desprezível e repugnante ganharam vida própria e ainda a atormentam. Malu sequer festejou sua nova conquista. Na pressa de despedir-se de sua última parada, confiscou uma bicicleta que mais poderia ser uma ‘monocicleta’, dado o estado lamentável da roda traseira.

Novamente com seus cabelos ao vento, Malu prosseguiu pela estrada. Em seu rastro foram aquelas palavras ditas por um zero à esquerda em um momento que pareceu infinito: “Você tem medo de descobrir que você não é apenas esse personagem casto que você criou?”

terça-feira, agosto 30, 2005

2° ROUND

Malu segurava em suas mãos algo estranho. Peludo, corpo mole... Um bicho?! Talvez... Uma espécie de cola na parte inferior a impedia de soltá-lo. Pensou o que teria acontecido para que aquele homem se afasta-se sem que fosse preciso um grito ou um chute estratégico, nada. Apenas se debatera por alguns instantes. Com as pernas imobilizadas, articulou os braços aleatoriamente até que o homem se afastou, sem que Malu tivesse escutado o juiz determinar o fim da luta. Vitória? De quem?!

Seria apenas uma pausa para o golpe de misericórdia? Seria o momento de pedir clemência? Será possível que o inimigo tenha sido tomado por uma súbita compaixão, como o perseguidor de cristãos da Bíblia que se convertera? “Por que me persegues, Saulo?” Bom, sendo assim, pensou Malu, seu oponente deveria estar cego, como o fariseu, personagem bíblico atingido por uma forte luminosidade. A luz que cega é a mesma que ilustra.

Por vezes quando fecho os olhos tudo fica mais claro. Aliás, ultimamente, quanto mais os mantenho abertos menos enxergo. Já não confio no que eles me dizem. Vejo feições que não consigo interpretar e o mundo se dissimula, me pregando peças a todo instante. Malu, igualmente, recusava-se a abrir os seus olhos, tentando se desvencilhar daquele corpo estranho preso às suas mãos. Em vão. Pela respiração ofegante, teve a sensação de que o adversário apenas se preparava para um novo embate. Engano. Curiosa, arriscou um olhar de relance, temendo o que veria. Atordoada, pensou que havia outro homem além daquele com quem acabara de digladiar. Outro oponente?! Como?! Ergueu-se rapidamente. Teve nojo ao notar o vermelho que estampava a toalha jogada ao seu lado. Ainda assim, cobriu-se.

Sentado sobre os escombros daquela guerra sangrenta, um homem. Um outro homem. Cabisbaixo, humilhado... Não! Era o mesmo homem. A mesma mão ferida, os mesmos cordões pesando no pescoço, a blusa desabotoada, o peito à mostra... Era o mesmo. E estava novamente ferido.

Como explicar que Malu detinha entre seus dedos a força de seu adversário? Como imaginar que a determinação de um sujeito fosse abalada com um simples golpe desferido contra sua vaidade?! O Sansão perdera sua força e virilidade, instantanea e subitamente. Uma Dalila contrariada segurava numa das mãos as falsas mechas.

Quando se deu conta do caráter cômico da situação, Malu teve vontade de rir, mas a prudência lhe soprou ao ouvido que talvez não fosse adequado. E quem escuta essa senhora?! Dona prudência... Estamos sempre a contrariá-la. Pior se torna quando somos tomados pela dúvida que atormenta as almas barrocas, indecisas entre a catarse e a contenção:

“Mas desde o Céu a Santa Inteligência
Com doce inspiração mitiga a chama;
Onde a paixão ceda à prudência,
E a razão pode mais, que a ardente flama:
Em Deus na natureza, e na consciência
Conhece, que quer mal quem assim ama;
E que fora sacrílego episódio
Chamar à culpa amor, não chamar-lhe ódio.” (Caramuru: poema épico, de Santa Rita Durão)

(Mais uma vez destôo. Sugerirei que Malu escolha um(a) narrador(a) com menos pretensões a “eu-lírico”)


Catarse! Uma gargalhada ecoou entre os morros. Como quem desfere seguidos golpes sobre o oponente já derrotado, Malu não se conteve. Enquanto se apressava para abandonar o ringue, tripudiava. Numa das mãos, carregou seu merecido troféu, a peruca. Para trás, deixara um Sansão completamente nocauteado.


Vou fechar meus olhos por algumas horas e esperar que faça-se a luz! (Boa noite!)

segunda-feira, agosto 22, 2005

1° ROUND

Uma tinta vermelha coloria o chão. Na verdade, não era uma tinta. Na verdade, não predominava. Aquele vermelho forte que simboliza paixões, que arrebata multidões, que é pano de fundo de uma luta quase tão antiga quanto o pecado original; aquele mesmo vermelho lambuzava toalha e roupas, mas apenas respingava sobre as folhas secas do outono.

O cenário faria qualquer espectador recém-chegado apostar que houvera um confronto. As tábuas que antes serviam para esconder um corpo ensaboado agora estavam caídas. O banheiro improvisado ruíra. Nenhum grande estrago, se compararmos às quedas históricas (a Bastilha, a Bolsa em 29, o Muro de Berlim...) Assim, a queda de um mísero W.C não é nada se comparada a de um W.T.C.

Nenhum dos dois lutadores saberia naquele momento distinguir por onde escorria o sangue. Estamos naqueles ínfimos segundos entre o corte e a dor. Não tenho experiências com cortes. Até poderia falar sobre uma vez que fui tentar descascar uma laranja e “Ai!” Só uma pontada. Outras tantas, quando faço exame de sangue, o médico nunca encontra minha veia. Uma, duas, três... até cinco tentativas. Só uma espetatinha e depois vejo meu sangue jorrar para dentro do tubo de ensaio. Lindo! Não tenho muitas experiências com dores, não com as físicas. Mais com aquelas que desatinam sem doer.

Cá estou eu novamente me intrometendo em uma história que não é a minha. Assim sendo, não vou tentar descrever o corte, a dor, tampouco o amor. Antes de prosseguir, acabo de lembrar de um filme: “O óleo de Lorenzo”. Os pais de um garotinho lutam para curá-lo de uma grave doença. Daí, quando o filho já está quase inconsciente, a mãe fala algo como: “Lorenzo, fale para o seu dedo mindinho falar para sua mão falar para o cérebro ordenar que ele mexa." Acho que é esse o caminho a ser percorrido - mindinho-mão-cérebro-mindinho. Uma música tocante, minhas lágrimas embaçando a visão, Lorenzo aéreo e de repente... O mindinho mexe! Aleluia! Quase desidrato de tanto chorar.

Bom, assim aconteceu. O dedo falou para a mão para falar para o cérebro... “Ai, sua vadia! Você me cortou!” Ofegante e assustada, a autora da obra estava caída sobre as tábuas daquilo que minutos antes era um banheiro. Levantou a cabeça. Como doía! Doía o corpo inteiro. O homem a olhava, furioso, enquanto tentava estancar o sangue com uma toalha.

Em sua mão esquerda Malu ainda segurava o canivete, mas alguma coisa escapulira da outra mão(!!!). Ao perceber uma certa mudança na feição daquele homem, ela rapidamente se deu conta do que faltava. “Vou gritar!” Ameaçou, mas não gritou. Ficou quietinha, em silêncio. Aos poucos sua respiração foi ficando menos descompassada. Os enormes olhos azuis daquele homem foram ficando maiores e mais azuis, à medida que iam se aproximando...

segunda-feira, agosto 15, 2005

Estado onírico

Há quanto tempo seus pés não recebiam uma boa esfregada! Amassados dentro do tênis ou esparramados na sandália, os dedos acumulavam aquela sujeira preta que se acomoda dentro das unhas. A escova estava escura e a água que escorria formando um pequeno lamaçal em volta do banheiro improvisado era da mesma tonalidade.
Malu soltou os cabelos - já na hora de aparar - e aos poucos, bem aos poucos já que o chuveiro retardava o processo, ela foi sentindo o cabelo sendo encharcado.Gélida, a água parecia penetrar em sua cabeça, esfriando seu cérebro, tranqüilizando-a até se sentir alcançar uma outra dimensão, aquela para onde vão os contemplados que conseguem superar anseios e frustrações; ela viajou. Pensou nos próximos lugares que conheceria, pensou em tudo que havia passado, lembrou de sua bicicleta, mas não lamentou, não se inquietou, apenas percorria serena pelos limiares da consciência. Chegava a cantarolar... Era uma melodia que em nada combinava com o lugar, denunciando seu distanciamento.
De repente, um barulho a despertou de seu estado quase onírico. Aliás, sei que a história não é minha e que sou uma mera narradora, mas me veio uma idéia, que preciso expor. Seria a palavra “onírico” da mesma família que “ônus”? Já imagino a professora de latim: “Onírico vem do latim: “ônus”, que significa “aquilo que resulta em perda”.” (Reviravolta na academia! E no Olimpo!) Ainda que pareça uma conjectura absurda, chego a pensar que há um certo sentido. Vejam: quando sonhamos nos tornamos mais vulneráveis, não? E assim mais propícios para cairmos no conto de um vigário mal intencionado. As expectativas ou projeções, disse-me certa vez um amigo, são armadilhas, nas quais só caem os apaixonados e os estatísticos.

Voltando à história... Malu reconhecera aquele chacoalhar. E este se aproximava cada vez mais. Em tempo, o canivete estava na mão esquerda. A direita garantia que a toalha permanece enrolada ao corpo, desnudo e molhado. Enfim, o presente de seu pai serviria para algo além de descascar frutas.

Devo confessar que essa história de onírico me deixou com sono. Vou dormir um pouco. Mas tomarei o devido cuidado para não sonhar. (Como se pudéssemos evitar...)

sábado, agosto 13, 2005

Hora do banho...

O copo estava sujo. No leite boiava a nata. Malu detesta nata. Imaginou que, se pedisse para a moça coar, os olhos daqueles senhores se convergiriam em sua direção. Não era o lugar próprio para frescuras desse tipo. Tentou beber se esquivando da nata. Quanto ao misto, já fora quente um dia.

Enquanto ela comia, notou que o sujeito do cigarro não desviava os olhos. Se esforçou para ignorá-lo, mas isso parece extremamente difícil quando nos forçamos a fazê-lo. É como numa festa, onde tentamos ao máximo não olhar na direção daquele certo rapaz. Contudo, parece que o canto do olho age involuntariamente nessas ocasiões. Bom, neste caso, Malu não desejava que aquele sujeito a abordasse e o canto de seu olho parecia agir guiado por um instinto de sobrevivência. A cada movimento denunciado pelo barulho das correntes, Malu estremecia, temendo que ele se aproximasse. Não se aproximou. Não naquele momento.

Terminando de degustar o banquete, ela procurou se informar sobre a possibilidade de encontrar um cantinho para se recostar até o amanhecer. Não haveria outro jeito.

A alguns metros dali encontrou uma meia dúzia de casas. Famílias construíram seus barracos na beira da estrada. Um dia ainda serão despejadas por alguém que chegará dizendo que quer desenvolver a região pá ta ti, pá ta ta... E vai ser patada para todo lado se alguém ousar dizer que não sai.

Malu dormiu numa casa de família. Uma grande família. Pessoas simples, mas bastante atenciosas. Num mesmo cômodo dormiam pai, mãe e cinco filhos. Como sempre cabe espaço para mais um ou mais uma... Coluna castigada e a viajante se esticou num cantinho apertado da casa, quase junto da porta que dava para a varanda. Mais um pouco dormiria ao relento.

Já caía tranqüila nos braços de Morfeu quando nossa amiga foi acordada por um choro. Um choro miúdo, fraquinho, como se fosse abafado pelas mãos de um sujeito asqueroso que no meio da noite procura um corpo novo, rosadinho e... “Sai de cima dela, seu porco imundo!”, quase gritou. Antes que o fizesse, Malu viu que era a mais velha das filhas e, na verdade, não era propriamente um choro. Não era dor, concluiu. Deixou os dois sozinhos.

De seu colchão, próximo à porta, viu um senhor sair ajeitando as calças. O barulho das correntes não deixou dúvidas. Ao amanhecer, a filha mais velha foi a primeira a se levantar. Só faltava o véu para coroar tanta candura. Embora a menina não aparentasse, já passava dos vinte. Nesses lugares apegados aos costumes mais antigos, pensou Malu, já ficava para titia. Por aquelas bandas casava-se cedo. Foi assim que uma após a outra as casas foram sendo construídas. Quem casa, quer casa. Ainda mais embuchada. Uma roça na frente, umas galinhas no fundo e por pouco não se passava fome.

Malu juntou suas coisas e foi tomar banho. O banheiro ficava um pouco acima do nível das casas, ao pé do morro. Era nojento. Em um buraco todos faziam as necessidades e aquela visitante chegou a pensar que talvez os dejetos carregados pela água das chuvas poderiam chegar até as roças. Por via das dúvidas, não ficaria para o almoço. Foi difícil se concentrar na posição em que se encontrava. Puxou a calça até os joelhos para evitar que entrasse em contato com a terra. Tudo fedia terrivelmente. Malu se agachou e... Bom, detalhes podem até serem bons para reforçar a veracidade dos fatos, mas há um limite.

Por trás de algumas tábuas de madeira estava escondido um corpo desnudo, que após dias finalmente se banhava com a água que caia timidamente de um chuveiro improvisado, assim como todo o resto. Malu teve a impressão de que alguém a vigiava. Talvez fosse só impressão, mas por via das dúvidas tratou de se apressar.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Lá vem ela de novo...

Ela sumiu. Deixou de se comunicar. Precisava de um tempo para definir novos rumos. Daí que desde a última vez que ouvimos falar da moça, muita coisa aconteceu. Muita água rolou debaixo da ponte. E quem tem tiver fôlego que acompanhe...

O trem pára. Malu desce. Passara algumas horas vendo mato, mato e mais mato. Pensou "como é impressionante haver disputa por terra num país tão grande, com tanta terra vazia... Colocam uns bois e pronto! A terra é produtiva!"

Quando o trem parou, ela saltou. Não avistava viva alma. Só uns bois magros morro acima. Aliás, morro era o que não faltava. Não saberia descrever a vegetação, mas pensou que já não estava no Estado do Rio de Janeiro. Minas, talvez... Se ao menos encontrasse alguém que falasse “uai” ou “trem bão” - estereótipos - ela se certificaria. Se ao menos sentisse um cheirinho de pão de queijo, tutu à mineira... Humm! O estômago reclamava.

Ela caminhou até a estrada a alguns metros do trilho. Nada. Nem viva alma. Pensou que talvez fosse perigoso pegar carona com um estranho... E que outra alternativa, ora?! Para alguém que decide sair mundo afora pedalando não deveria haver tempo ruim. Acontece que ter perdido a bicicleta deixara nossa amiga viajante e desbravadora subitamente um tanto cautelosa. Não o suficiente.

Passou um caminhão e ela fez sinal. Antes da carona, veio a pergunta sem resposta: “Para onde a menina quer ir?” Qualquer lugar, ela diria. Muito vago... “Só até a próxima cidade ou o próximo posto.” Nem mais uma palavra pelos próximos quarenta minutos.

Malu dormia, quando sentiu uma mão em seu rosto. Mão áspera... Era o motorista. “Chegamos, menina”. Rapidamente, ela se ajeitou, pegou suas coisa e desceu do caminhão. “Fico por aqui mesmo, obrigada!” Descera em um lugar um tanto impróprio. Logo deu de cara com um estranho sujeito. Não tanto pelo chapéu preto ou pelos óculos escuros e grandes, pelas correntes douradas que pareciam pesar em seu pescoço ou pela calça sambando nos quadris. Não tanto pelo modo como fumava seu cigarro, levando-o à boca, tragando e soltando a fumaça, como se gozasse a cada baforada no vazio. Não era nada disso. Era o conjunto. O lugar, o contexto. O clima frio, a noite que ameaçava cair, um cachorro cheio de feridas purulentas que se esgueirava ao redor da lixeira disputando com um moleque qualquer resto de comida, a luz amarela e fraca, alguns poucos caminhoneiros que devoravam a bóia quase como animais...

Malu pôs a mochila nas costas e caminhou em passou lentos, como quem se sente espreitado. Foi até o balcão e pediu: “Leite quente e um misto, por favor”. Um pequeno banquete para seu estomago faminto.

Bom, desculpem se a opção pelos detalhes torna a narrativa lenta. Simplesmente, quero ser fiel aos fatos.
Uma pausa para o café. Também tenho fome. Já continuo...