quinta-feira, abril 08, 2010

Nota de esclarecimento dos moradores de favelas de Niterói

Assembléia do Morro do Estado
8 de abril de 2010


Nós, moradores de favelas de Niterói, fomos duramente atingidos por uma tragédia de grandes dimensões.

Essa tragédia, mais do que resultado das chuvas, foi causada pela omissão do poder público.

A prefeitura de Niterói investe em obras milionárias para enfeitar a cidade e não faz as obras de infra-estrutura que poderiam salvar vidas.

As comunidades de Niterói estão abandonadas à sua própria sorte. Enquanto isso, com a conivência do poder público, a especulação imobiliária depreda o meio ambiente, ocupa o solo urbano de modo desordenado e submete toda a população à sua ganância.Quando ainda escavamos a terra com nossas mãos para retirarmos os corpos das dezenas de mortos nos deslizamentos, ouvimos o prefeito Jorge Roberto Silveira, o secretário de obras Mocarzel, o governador Sérgio Cabral e o presidente Lula colocarem em nossas costas a culpa pela tragédia. Estamos indignados, revoltados e recusamos essa culpa. Nossa dor está sendo usada para legitimar os projetos de remoção e retirar o nosso direito à cidade.

Nós, favelados, somos parte da cidade e a construímos com nossas mãos e nosso suor. Não podemos ser culpados por sofrermos com décadas de abandono, por sermos vítimas da brutal desigualdade social brasileira e de um modelo urbano excludente.

Os que nos culpam, justamente no momento em que mais precisamos de apoio e solidariedade, jamais souberam o que é perder sua casa, seus pertences, sua vida e e sua história em situações como a que vivemos agora.

Nossa indignação é ainda maior que nossa tristeza e, em respeito à nossa dor, exigimos o retratamento imediato das autoridades públicas.

Ao invés de declarações que culpam a chuva ou os mortos, queremos o compromisso com políticas públicas, que nos respeitem como cidadãos e seres humanos.


Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói

Associação de Moradores do Morro do Estado

Associação de Moradores do Morro da ChácaraSINDSPREV/RJSEPE – Niterói

SINTUFFDCE-UFF

Mandato do vereador Renatinho (PSOL)

Mandato do deputado estadual

Marcelo Freixo (PSOL)

Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK)

Movimento Direito pra Quem

Coletivo do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares

quarta-feira, abril 07, 2010

A árvore... (Morro do Estado, 2007)

Fonte: Jornal do Brasil, caderno Niterói - 28 de junho de 2007
(clique na imagem para ampliar)

Torço para que a árvore continue viva...

Estive lá em 2007. Foi impressionante ver aquele amontoado de pessoas dividindo minúsculos espaços - uns ainda mais apertados e comedidos que outros. Entre as melhores coisas que vivi ao longo do breve contato com o jornalismo foi conhecer melhor as comunidades de Niterói, e atravessar 'fronteiras' (invisíveis) nunca ultrapassadas por mim - por receio e desconhecimento. O primeiro produzido pelo último.

Quando possível, me auto-escalava para 'pautas sociais'. Em algumas oportunidades, percorri cantos alheios à Niterói que conhecia até então. Distante da cobertura policial, a qual essas áreas estão quase sempre relacionadas, procurava novas abordagens. E uma delas me deixou particularmente satisfeita.
(Enquanto escrevo este texto, mais uma viatura do Corpo de Bombeiros percorre ruas próximas. O barulho vem se aproximando. Indica pressa e urgência.)
***

Num domingo de 2007, numa visita 'exploratória' pelo Morro do Estado, durante meu esvaziado plantão de fim de semana, fui levada a conhecer algumas famílias. Aquelas pessoas há tempos buscavam permissão e ajuda para remover uma enorme árvore que ameaçava desabar e atingir as casas semeadas ao seu redor.

A árvore era enorme, cheia de galhos e raízes que se misturavam com as casas ali assentadas. Após conversar com alguns moradores fui me dando conta de que tratavam-se de famílias migrantes, nordestinas, que viviam no pé da enorme árvore, e formavam elas próprias uma mesma árvore genealógica. Um era irmão do outro, que era primo daquele, que era sobrinho de alguém mais adiante, que era filho... E por aí seguia.
Enfim a pauta da árvore que ameaçava famílias não chegou a agradar tanto quanto a ideia de retratar a vida de uma comunidade de migrantes nordestinos em torno daquele enorme pé-de-não-sei-o-quê. A matéria por fim ocupou as páginas centrais do caderno de Niterói do JB.

Hoje, ao receber o e-mail abaixo reproduzido, e tendo ouvido no rádio a contabilização dos cadáveres desse lado de cá da Baía, me lembrei daquela enorme família - de seus galhos e ramificações. Bateu uma curiosidade de saber como estão. Será que a velha árvore continua de pé? Será que os moradores ainda dividem espaço com aquelas enormes raízes e galhos? Teria a árvore sido retirada para evitar tragédias futuras como as que vejo noticiarem no rádio e na TV? Como estão aqueles quase conterrâneos (sou filha de nordestino e não consigo deixar de me sentir um pouco pertencente àquelas bandas mais próximas do Equador)? Incomodada, vou amaciar minha curiosidade... Mas como seria bom 'pescar' das ondas do rádio - ou de algum outro veículo - alguma informação. Qualquer uma... Ou melhor, uma das boas! Tento me convencer de que notícia ruim chega rápido. Agora pouco ligou um amigo contando sobre a morte de distantes conhecidos naquele mesmo morro.


Torço para que a árvore genealógica que conheci há três anos não tenha perdido um galho sequer. E que outras sejam poupadas.
Amém.

ps1: Algo me diz que as dezenas de edifícios, que surgem nesta cidade como se da terra brotassem do dia pra noite no lugar de velhas casas, não contribuem para uma urbanização planejada e responsável. Mas é só uma intuição...
Vale conferir! Ex-vereador fala, em 2007, sobre caos em Niterói.

ps2: Projeto de Lei iniciou o debate em 2007 sobre proibição de novas licenças de construção de prédios na cidade
http://bit.ly/bpuSJc


***

Informe da APN - Agencia Petroleira de Noticias

Morro do Estado enterra seus mortos
Os moradores do Morro do Estado, favela de Niterói, enterraram nestaquarta-feira, 7, três pessoas, vítimas das enchentes que assolaram a regiãodo Grande Rio. Mas a partir de amanhã, independente da continuidade das buscas, já se mobilizam, através da Associação de Moradores, parareivindicar obras de contenção de encostas e limpeza. A assembléia está marcada para as 10h de quinta (8/4), na sede da associação. Mais informações pelo telefone (21) 76061552 , com Sebastião Alves (Tão). O município de Niterói contabilizou o maior número de mortes, em decorrênciadas enchentes. De acordo com informações do Corpo de Bombeiros, o número oficial no Estado do Rio de Janeiro (até as 14h, de quarta, 7) era de 113 pessoas, 54 registradas em Niterói, 43 no Rio, 12 em São Gonçalo e outrasNilópolis, Paulo de Frontin, Magé e Petrópolis. Mas o número de vítimas devesubir. Dezenas de pessoas continuam desaparecidas. Só em Niterói, 47 pessoasainda estão sendo procuradas entre os escombros. O número de feridos edesabrigados não para de crescer. Ainda em Niterói, oito bombeiros ficaram feridos durante um resgate. O prefeito da cidade, Jorge Roberto Silveira, decretou luto de sete dias e estado de calamidade pública. As aulas nas escolas municipais estão suspensas por tempo indeterminado.

Moradores reclamam da indiferença do poder público
A Associação de Moradores do Morro do Estado está entre as entidades fundadoras do Fórum contra a Privatização do Petróleo e Gás, em março de 2008, e mantém um jornal que é distribuído regularmente na comunidade. Seus diretores afirmam que, há anos, existe um grande número de pedidos de obras e serviços públicos junto à Prefeitura Municipal, a maior parte alertando para o risco de deslizamento das encostas, mas que não costumam ser atendidos. Representantes da associação afirmam que as reivindicações das populações mais pobres raramente são consideradas. Nesse momento de luto,esperam conseguir, com muita mobilização, sensibilizar as autoridades.

Posto de arrecadação de donativos
O Clube Canto do Rio, no Centro, foi transformado num ponto de abastecimentoe já está recebendo doações para as vítimas das chuvas. O clube fica na Rua Visconde de Rio Branco, 701, no centro da cidade (próximo às Barcas). O telefone para contato é (21) 26208018. Serão bem vindos colchonetes, cobertores, alimentos não perecíveis, leite em pó, roupas de cama, vestuárioe produtos de limpeza. A Prefeitura de Niterói divulgou que 12 escolas municipais estão preparadas para receber os desabrigados. São elas: Rachid (Santa Bárbara); ErnaniMoreira Franco (Fonseca); Antonio Vieira (Morro do Estado); João Brasil(Morro do Castro); Paulo Freire (Fonseca); Nilo Neves (Boa Vista), JoséAnchieta ( Morro do Céu) e Senador Vasconcelos Torres (Jacaré). Já a escola estadual Capistrano, também em Santa Bárbara, serve de Posto de Alimentação.

Fonte: Agência Petroleira de Notícias.

quarta-feira, março 31, 2010

De novo Mandela...

"True reconciliation does not consist in merely
forgetting the past."

Um amigo me contou como foi interessante ver o paradoxo de o herói do faroeste americano dirigir um filme com trechos tão delicados e sensíveis, e ainda sobre um homem que inspira sentimentos de superação e conciliação. Compreendi o que ele quis dizer ao ver Invictus, de Clint Eastwood. Não falo da superação que ignora as desigualdades inerentes à lógica que se sobrepõe. E tampouco da conciliação "pelo alto", que sobrepõe sua lógica perversa de esquecimento e silêncio... (Vide o pouco lembrado, quase ignorado, aniversário do golpe de 31 de março 1964; ou seria 1º de abril?)

Já falei aqui sobre Nelson Mandela. Agora volto ao seu nome, mas com a desculpa de comentar o filme Invictus que vi há pouco. Não chega a ser uma coincidência que um momento de profunda melancolia tenha antecedido meus dois recentes 'contatos' com Mandiba* - através do documentário e da ficção. Não é casual que ambos tenham resultado, em momentos distintos, num sentimento de gostoso fortalecimento. Para usar uma palavra chave do filme, chego a sentir essa inspiração chegando perto...

Se uma informação qualquer exige que emissor e receptor sejam atuantes para fluir, eu fiz a minha parte. Estava receptiva à mensagem. Mesmo com os clichês de uma produção hollywoodiana, com suas mensagens de superação, união, patriotismo... E isso não necessariamente possui um caráter negativo, embora sejam bastante incômodos aqueles famosos discursos pré-batalha, do "nós" versus o "outro", onde a vitória de um (o bem) significa necessariamente a derrota do outro (o mal). Eis que multiplicam-se no cinema verdadeiras cruzadas. Aliás, essa divagação me lembra que preciso ver Guerra ao terror. Soube que a tradução do título é pra lá de infeliz!

No filme de Eastwood, por sua vez, a história fez prevalecer uma ampliação do "nós" com a incorporação, ainda que gradual, do "outro". É, nesse sentido, até interessante observar as cenas finais exploradas em câmera lenta, onde jogadores adversários formam um conjunto aparentemente uno, indiviso. Na tela vemos a delicadeza improvável de um balet "tribal" entre adversários e companheiros sobrepostos, imprensados uns contra os outros.

Além disso, Morgan Freeman (free man... vem a calhar!) me convenceu e cativou como Mandela.
Enfim, gostei! Vi com a emoção de hoje e ela, quem sabe, ajudou a acrescentar o que Eastwood, talvez, não conseguiu.
***
*Nelson Mandela no filme é chamado por diferentes nomes...Entre os quais estão Tata Mandiba Mandela. Os dois primeiros possuem cada um significados importantes dentro da cultura sul-africana:
Tata - pai
Mandiba - Esse nome é muito mais importante que um sobrenome, já que se refere ao ancestral de quem a pessoa descende. Mandiba era o nome de um chefe Thembu que liderou em Transkei no século 18. Considera-se bastante cortez chamar alguém pelo nome de seu clã.
***

William Ernest Henley (Invictus)
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

segunda-feira, março 15, 2010

Apresentando um poeta...

Há algum tempo estou querendo apresentar o livro (acima) do historiador, poeta, músico e amigo Guilherme Gonçalves. Até para mim, que conheço o autor desde que cursamos História no delicioso campus da UniRio, na Urca, foi uma grata surpresa abrir O peso da pena e as primeiras alegorias. Nos detalhes, Guilherme nos leva a viajar pelo mundo das suas profundas e deliciosas reflexões... Suas primeiras alegorias tem variadas trilhas sonoras: desde o poema Eu e ele - escrito ao som de Radiohead -, até Shiva, acompanhado pela Bachiana brasileira nº5 (Ária Cantilena). Em Contrações, ao som de Björk, a forma do poema incorpora a imagem do título; um vai e vem de metáforas àsperas e singelas.

Política, amor, sexo, paixão, alienação, História, golpes e revoluções, dor e êxtase: tudo é matéria prima.


"...o mundo
se abre com pernas de Afrodite
exalando odores íntimos
e pare, o amanhã descolando seus pulmões
espumando azul, meu coração não suporta
ouvir seu choro, lindo, lindo, como sempre soube"

(...)

"sinto-o chutar meu ventre seco
liquefazendo-me, em contrações
a viver o corpo entrevado que se agita"

Projeto 2009: o livro
A ideia, o conteúdo, a forma; tudo ganhou a marca da sensibilidade desse outro Gonçalves que, além de autor, assina o projeto editorial. Não sei ao certo quanto tempo demorou para a conclusão d'O peso da pena, mas sei que a concepção foi pra lá de demorada. Há um bom tempo escuto-o falando sobre o rebento que um dia viria ao mundo como produção independente. O projeto, concluído com a impressão de algumas dezenas de exemplares, dá agora lugar a outro: divulgar ainda mais suas alegorias. Quem sabe alguma editora não se habilita e dá uma forcinha?!

Produção independente

Ao contrário das concepções in vitro, a de Guilherme ocorrera 'na expansão do universo.' Suas intensas palavras versam sobre as coisas gigantes: "A saga do poeta é aspirar ao total, e diante do total, há muito pouco a ser dito". Talvez por isso, numa dialética bem armada, Guilherme acabe se dedicado a "capturar a fração, o instante preciso de sua revelação". A erudição do autor é somada à sua capacidade de sentir e de deixar-se afetar pela grandeza das coisas prosaicas, bem como pelo cotidiano das grandes experiências e potenciais transformações.

"Pois a tarefa de gentilizar o homem é a pena mais pesada
e a pena, não esqueçamos, por mais longa e pesarosa,
é também a memória da asa".


Com esse livro, por fim, Guilherme nos mostra uma forma muito boa de driblar "o peso da pena". Talvez deixando jorrar toda sua tinta sobre um papel, dando a ela o formato de belas poesias.





contato com o autor: guilherme_sazonal@hotmail.com

sexta-feira, março 12, 2010

Epígrafe para ditadura militar...

“Se havia alguém inofensivo naquele tempo,
era o envelhecido e desiludido Coronel
Aurélio Buendía, que pouco a pouco foi perdendo
todo o contato o contato com a realidade da nação.”

(...)
“Não fale de política", dizia o coronel.
“O que nos interessa é vender peixinhos”
(Cem anos de Solidão – Gabriel García Márquez)

terça-feira, março 02, 2010

Julie Delpy - A Waltz for a Night - Before Sunrise





Com esse filme aprendi que os finais de filme não precisavam ser 'mastigados'. Mas isso não me impede de desejar, ainda, que houvesse uma continuação...

- Baby, você vai perder seu voo. - Eu sei.


segunda-feira, março 01, 2010

Ambiguidade beauvoiriana

"Diálogo recente"

Por Email...

- Pensei agora: acho que tenho um pouco da ambiguidade beauvoiriana... A diferença é que nunca disse, nem publiquei livros dando a entender que eu era outra, diferente rsrs. Mas verdade seja dita: ninguém pode ser culpado por não ser uma coisa só.

Resposta...

- Acho que ninguém é uma coisa só... E, principalmente, que a ambiguidade sempre faz arte das pessoas. Às vezes ser mais sincero consigo mesmo pressupõe ser ambíguo*. E talvez tenha sido aí que a Simone (íntimas!) tenha, a meu ver, vacilado. Por que ela não admitia que pagava pau pro baixinho gordinho e zarolha, pô??!! Não, tinha que bancar a durona, a poderosa... Ela teve sua relevância, claro, não penso diferente disso não. Mas acho que, no final das contas, ela acabava se igualando às mulheres quadradonas das quais ela tentava se diferenciar.
*Adorei essa frase!

sábado, fevereiro 27, 2010

Por falar em liberdade...

Mandela: em nome da liberdade

Acabo de ver o documentário sobre a vida desse homem. Um homem apenas. Ele mesmo faz questão de desmistificar sua imagem: "Não sou um santo". Então estas palavras não são sobre santidade, perfeição, modelo ou paradigma. Mas sobre exemplo, um dos muitos, sobre experiências... O documentário é sobre um homem que passou 27 anos na prisão, que foi vítima da política racista do apartheid, e que, valorizando a educação, usou essa arma contra seus opressores, tornando-se o primeiro presidente de uma África do Sul mais igualitária, posta no caminho da reconciliação nacional, da paz interracial. Esse caminho, acabo de ver, não foi um caminho de esquecimento. O passado não precisava ser esquecido, mas precisava ser tornado passado, para nunca mais voltar a ser repetida a opressão entre seres humanos diferenciados pela cor da pele. No final de uma Copa Mundial de Rúgbi, Nelson Mandela vestiu o uniforme da seleção nacional, embora aquele fosse um esporte identificado com o branco, o opressor, o "outro".

Mandela convenceu seus companheiros de luta a aprenderem o idioma do inimigo, o "africâner" - língua do ramo germânico do grupo indo-europeu falada na África do Sul e na Namíbia. Negociou sua verdade no idioma de seu opressor.

Cenas da Truth and Reconciliation Comission me comoveram até as lágrimas. Consistia, entre outras coisas, no diálogo aberto de torturados diante de seus torturadores. Um diálogo sem limites, às claras. A descrição das torturas pelos seus sobreviventes foi feita perante os algozes ou perante aqueles que, por omissão, permitiram que ela ocorresse. Só uma democracia forte resiste às verdades. Ou melhor: uma democracia para tornar-se mais fortalecida exige verdade, transparência. E essa oportunidade foi dada ao país durante aquela transição democrática. A reconciliação não pressupôs empurrar a poeira por debaixo do tapete. Isso porque nenhuma história de silenciamento escapa do "retorno do oprimido", seja ele como for - pela violência declarada ou pelos sintomas de que a violência se fantasia. A história de Mandela, as imagens desse documentário, o ritmo africano - que, aliás, sempre exerceram uma espécie de encantamento sobre mim -; enfim, toda essa carga de emoção desviaram minha rota nesse dia. E quem pode prever o que provocará uma reação dessas? Eu não pude, mas fico satisfeita com o efeito provocado. Questões que me mobilizam atualmente, na forma de reflexões teóricas a serem postas no papel, ganharam esse reforço. A habilidade do negociador Nelson Mandela, sua característica de se opor sob uma tranquilidade invejável, sua postura de homem íntegro, cuja paciência se revestira de persistência.

Herói? Mito? Rótulos apenas, como tantos outros. Apontado no documentário como homem midiático e hábil na arte de comunicar-se, além de sobreviver à prisão, Nelson Mandela sobreviveu aos rótulos.

***

Estas são palavras imbuídas da emoção, da motivação pela estética do documentário. Um amigo outro dia quis contrapor sua própria "ciência" ao meu "tendencioso" encantamento pelas manifestações estéticas. E não é a estética algo político? Que poder tem os cantos africanos entoados pelas vozes femininas em pleno Congresso quando Mandela anuncia seu afastamento da vida política, abdicando de concorrer a um segundo mandato! "Nelson Mandela, Mandela, Mandela", canta a mulher seguida pelos demais presentes. Um outro colega me disse: "Essas são histórias de outra geração, outro tempo, outros valores". Com a afirmação parecia tentar convencer-me de uma defasagem. Não penso assim.

No meio do documentário, lembrei que a Copa deste ano será justamente lá, na África do Sul. Que outra desculpa melhor para nossas professoras daqui levarem para as salas de aula um pouco dessa história? Não como algo do passado, não com o tom saudosista de uma época heróica. Não é disso que se trata. Mas de uma experiência rica em elementos passíveis de comparação (contrastes?) com a nossa própria história. Se o desafio está em atrair a atenção dos mais jovens, em falar numa frequência que os estimule no sentido da valorização do conhecimento, da educação em sentido geral, haverá "gancho" melhor neste ano?!



“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. (John Donne)

"Amandla!"


quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Las paredes que hablan...

O passeio virtual desta semana me levou até o México... Saudades! Encontrei um blog bem legal que convida as pessoas a enviarem registros fotográficos da chamada 'arte de rua', ou seja, é um convite para ouvirmos as vozes ecoadas através de muros e paredes mundo afora. Arte Callejero é um espaço onde de clique em clique somos levados a aguçar nossos olhares diante do prosaico, do cotidiano, das 'vozes' de diversos cantos. Muitas dessas vozes são verdadeiramente oprimidas, virando silêncio, sintoma ou 'grafite'.

Aprofundando a questão...

É muito comum que importantes órgãos vigilantes das condições para liberdade de expressão nos diversos países se levantem em favor da liberdade de imprensa. Contudo, o que percebo algumas vezes é que muitas das manifestações nesse sentido não transpõem o limite restrito da liberdade de "empresas" (jornalísticas ou de entretenimento em geral). Mais que empresas cerceadas em seu direito de veicular os conteúdos desejados, há que se ressaltar a necessidade de indivíduos ou grupos que, destituídos de um veículo adequado, recorrem à indigência da rua para expor sentimentos, frustrações, perseguições, traumas, violências, silêncios, "esquecimentos". São comunicadores anônimos que não se contentam com a representação de suas 'falas' por terceiros, não raro, desvirtuadas. Tratam-se de falas locais, regionais, latino-americanas, indígenas, desapropriadas, exploradas...clandestinas.


Ectasma Torres

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Uma imagem e mil palavras...




Carente de arte, descobri hoje as telas de Alvaro Peña. Uma rápida busca no Google (que sempre se faz necessário) me diz que o artista é espanhol. Suas telas me mostram cenas familiares... Seus traços me 'falam' de uma leveza escassa ultimamente... Escolho o despojar-se de La mujer de azul (acima) ou de La mujer del sillón... imaginando, ao fundo, o som d'El hombre del saxo




terça-feira, dezembro 29, 2009

2010

Nunca teve tanto a ver comigo o trecho que volto a citar aqui. Pularei em 2010 com meu vestido verde de listras douradas. E vejamos que mágica isso vai atrair...

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente"(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, novembro 04, 2009

Back up

É irritante o jeito como as pessoas todas parecem saber exatamente para onde estão indo quando caminham pela rua. No centro da cidade, qualquer cidade, ninguém pára de repente tentando lembrar aonde estava indo quando saiu de casa. Ninguém parece questionar porquê exatamente escolhera se dirigir para este ou aquele lugar. E eu me pergunto isso a cada segundo!
Não atravesso de um lado ao outro da rua sem me questionar diversas vezes: será o melhor caminho? E se fosse melhor andar mais um pouco e atravessar naquela esquina ali da frente? São milhares de perguntas a cada minuto. Minuto? Não mesmo! Acho que a cada 30 segundos. Quer dizer, o tempo médio de um comercial na TV. Assim, enquanto alguém está vendendo um produto, as interrogações se multiplicam entre minhas milhões de sinapses.

***
Hoje fui ao aniversário de uma prima. "Dez anos", ela encheu a boca para dizer. Lembro que, já nessa idade, inúmeras questões existenciais ocupavam meus infantis pensamentos. Os pêlos que cresciam; os seios que não cresciam; as férias que chegavam; as que não passavam; a turma que poderia se desfazer no ano seguinte... Uma tragédia em potencial. Sempre prevista, mas que nunca aconteceu de fato. Na verdade, tratei de me prevenir no ano em que a ameaça se tornou mais forte: mudei de colégio com algumas amigas melhores-amigas-da-vida-inteira-que-quase-nunca-vejo.

Fiquei em pé na porta do quarto da minha prima vendo suas coleguinhas interagirem. Estava intimidada, confesso. Com 20 e alguns, olho para as pequenas de dez e já me refiro a elas como "essa nova geração". O "essa" embute um distanciamento enorme! Sinto mesmo que daqui a alguns anos mais vou olhar para "essa nova geração" com o mesmo olhar de curiosidade e estranhamento que meu pai traz nos olhos quando me observa às vezes. Será que meu professor de sociologia da faculdade tinha razão ao afirmar que aos 20 somos incendiários e aos 40 bombeiros? Nunca quis aceitar essa ideia (não é que tiraram o meu acento?). Ainda queria provocar alguns incêndios por aí... Mas me pedem rigor, método, embasamento teórico... E assim o ímpeto quase vira fumaça se não há uma vitalidade qualquer que promova a combustão.

***
Minha mãe teve seu computador danificado por um vírus. Ela acha que não, mas compreendo a dificuldade e o esforço dela em lidar com algo tão abstrato quanto os códigos da tela azul que fala, num relance, de tal uma infecção expressa por letras e números tão ou mais estranhos que a sequência genética de um gafanhoto.

- Essa mídia não é para mim!

Foi uma constatação injusta com ela mesma. E com 'essa mídia' também. Oh McLuhan! O meio é a mensagem? Oh Aníbal! Oh Técnico de Informática. Todos os santos, venham em meu socorro! Eles atenderam. E acho que após um belíssimo back up minha mãe conseguirá superar seus traumas. As perdas foram mínimas. Aos poucos descobrirá que fazer back up está para o século XXI como a atividade dos monges copistas estava para a Idade Média.
***
De volta ao quarto todo rosa da minha prima de segundo grau e suas melhores-amigas-da-vida-inteira (e não venham me dizer que não tem hífen, pois adquiri limitações para assimilar a nova ortografia).
- Eu vou morar em Londres!
- E eu vou morar em Paris!
Dez anos! É isso mesmo?! Sim. E têm modelos de vida, castelos, planos. Os do meu primo, pai da pequena anfitriã, também estão traçados:
- Não vou trabalhar pr'os outros a vida inteira não! Daqui a uns dez anos, quero abrir minha empresa, com as pessoas trabalhando pr'a mim.

Boa sorte, primo!

As pessoas parecem saber exatamente para onde estão indo quando caminham pela rua... Mas eu herdei o desconforto materno, a sensação de estar constantemente deslocada. Solução: back ups constantes...Ontem mesmo atualizei o meu. E você? Está em dia com o seu?













Mario Benedetti

Triste Nº 1

Por la memoria vagamos descalzos
seguimos el garabato de la lluvia
hasta la tristeza que es el hogar destino
la tristeza almacena los desastres del alma
o sea lo mejorcito de nosotros mismos
digamos esperanzas sacrificios amores.

A la tristeza no hay quien la despoje
es transparente como un rayo de luna
fiel a determinadas alegrías.

Nacemos tristes y morimos tristes
pero en el entretiempo amamos cuerpos
cuya triste belleza es un milagro.

Vamos descalzos en peregrinación
triste tristeza llena eres de gracia
tu savia dulce nos acepta tristes.

El garabato de la lluvia nos conduce
hasta el hogar destino que siempre has sido
tristeza enamorada y clandestina

Y allí rodeada de tus frágiles dogmas
de tus lágrimas secas / de tu siglo de sueños
nos abrazas como anticipo del placer.

segunda-feira, setembro 28, 2009

segunda-feira, setembro 21, 2009

Bibi canta Piaf (Teatro João Caetano - 19 de setembro)

Foto de MªLuiza Muniz

A imagem é do Real Gabinete Português de Leitura em noite iluminada por Bibi Ferreira e por Edith Piaf . O Rio estava um pouco Paris no último sábado... Ou melhor, eu diria que é do Rio de Janeiro ser um pouco de cada coisa; um pouco Paris, um pouco Lisboa, um pouco Buenos Aires, um pouco Lima, um pouco Luanda... Como diz um autor que agora integra minhas referências bibliográficas, essa "volubilidade é condição humana, é feição pessoal e é característica brasileira".

sexta-feira, setembro 18, 2009

Nos(otros) o el jardín del vecino

No último dia 7, quando cheguei a Córdoba (Argentina), parei para o café da manhã na Confeitaria y Panadería Independencia. Pedi uma medialuna, um capuccino e o jornal veio como cortesia da casa aos fregueses. O jornal Ámbito Financeiro trazia na capa a seguinte notícia economico-futebolística:




Detalhe:






Pág. 3





quarta-feira, setembro 16, 2009

domingo, setembro 13, 2009

No te salves - Mario Benedetti

Por que não escolher o caminho mais fácil?
Porque aos 20 e tantos não há salvação em buscar apenas o equilíbrio e a constância das coisas...
Abaixo, o poema do mestre Benedetti na interpretação de Miguel Angel Solá
No te salves - Mario Benedetti

No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo
pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo.




sábado, setembro 12, 2009

Trailer - South of the Border

Aspas

"Dirán que nosotros somos los subdesarrollados, pero no lo crean" (Theotonio dos Santos, Buenos Aires - ALAS 2009)

Novela e Sociologia

Um professor de Sociologia me dizia que as novelas podem ser matéria-prima para compreensão de uma sociedade ou das representações que são feitas sobre ela. O último capítulo de Caminho das Índias, exibido ontem, dá um bom exemplo dessa suposta função das tramas televisivas.

***

Uma criança vai ao Juíz para anular seu casamento com o noivo indesejado. É abordada pela autora Glória Perez a tradição indiana do casamento arranjado entre crianças, apesar de leis contrárias. Bom, a jovenzinha de traquejos adultos consegue anular o matrimônio e corre para contar a novidade ao amigo dalit, um excluído sem casta.

Ela comemora, pois poderá escolher, no futuro, "um marido instruído e moderno". O pequeno dalit expressa seu desejo de ser o escolhido e sonda suas chances após alcançar as qualidades destacadas pela jovem de casta superior. Pela fala do pretendente, com suas prentensões de enriquecimento, "ganhar dinheiro" é igual a ser "instruído e moderno". A aceitação é imediata e um 'pacto de amor' é feito entre os pequenos de diferentes castas.

Interessante como a distinção originária do berço (a diferença de castas) é trocada por outra, caracterizada pelo dinheiro, ou seja, pela posição econômica do jovem pretendente. O mesmo valendo para sua versão adulta, representada pelo ator/apresentador Márcio Garcia. Fica a idéia de que a superação de uma distinção se dá pela criação de outra; vale dizer que a nova forma de diferenciação é racionalizada para parecer tão normal e natural quanto a que pretende substituir.

O marido moderno é oposto ao marido atrasado. Assim como a nova e moderna forma de diferenciação entre pessoas (ou pretendentes) se sobrepõe àquela outra, atrasada. Somos o que conseguimos conquistar com nosso esforço diário, segundo a máxima do self made man. E o 'fracasso' é sempre resultado de pouco empenho pessoal e nunca de condições econômicas estruturais, injustas e desiguais. Afinal, somos todos iguais perante a lei dos homens (e de Deus).

The end! Ou melhor, Fim.
***
21 de setembro de 2009
Comentário da Priscila, que veio pedalar por aqui e aproveitou para deixar sua opinião sobre a crítica sociológica (sim, e por que não?) do último capítulo de Caminho das Índias...
Gostaria de dar minha humilde opinião sobre o texto Novela e Sociologia no seu blog: Concordo totalmente com seu professor que uma análise das novelas pode auxiliar e muito na compreensão de nossa sociedade. Quando a personagem Anusha diz querer um marido "instruído e moderno" acredito que seja um homem instruído academicamente e moderno segundo às tradições indianas. Ter dinheiro não tem o mesmo significado de ser "instruído e moderno", pelo menos para os indianos. Existem dalits ricos e brahmanes pobres na Índia. Dinheiro e casta não tem o mesmo valor por lá. A personagem de Hari, o menino dalit, é pretendente de Anusha há muitos capítulos não por uma promessa mas porque os dois assim o desejam. A instrução acadêmica é um requisito para o "pacto de amor" porque a educação é muito importante para os indianos. E ser moderno vai por tabela porque um dalit que respeitas as tradições aceita resignado o seu "destino" e nunca se casaria com uma vaishya. O sistema de castas não é substituído pelo nosso das classes sociais, constituído pelo dinheiro. Os dois são cruéis, mas existem em ambas sociedades. A personagem de Márcio Garcia considero um pouco diferente. Um dalit educado no Ocidente, só entende sua condição na Índia sob o prisma ecônomico. Acredita que será aceito quando tiver dinheiro, o que não acontece. Depois crê que a inclusão se dará pelo casamento com uma mulher de casta e rica, mas em nenhum momento Glória realiza esse desejo dele. Se essa diferenciação pelo dinheiro fosse a utilizada pela Glória Perez, Maya se casaria com Bahuan logo nos primeiros capítulos, porque os dois tinham posses. Até acredito que na sinopse original ela teria dado esse final feliz para os dois, mas não sei de que forma. Seriam ricos porque não sei se você percebeu, mas ao contrário da família dalit, todos do núcleo indiano eram ricos, inclusive o Bahuan (Márcio Garcia). Mas provavelmente morariam no Brasil ou na Inglaterra, porque na Índia sempre seriam dalits independente da conta bancária. Sou noveleira há muito tempo e com minha formação em História, pude perceber melhor essas nuances na narrativa dos autores. Discordo de alguns pontos da obra da Glória Perez como a caricatura que ela faz de algumas personagens, mas acho que ela é uma das poucas escritoras/escritores que tratam o universo de outras culturas com tanto respeito. Aliás ela é historiadora. Beijocas, Priscila .

quinta-feira, agosto 13, 2009

terça-feira, agosto 11, 2009

Os leitores

Teología y periodismo
"Dice el teólogo que el conocimiento filosófico es individual, mientras que la fe exige al otro: es tradición. En algo lleva razón: creer es confiar, lo contrario de pensar. Pensar es osar pensar y pensar por uno mismo.

A veces hay que mezclar la teología con el periodismo. El bueno siempre parte del pensar de sus lectores. El otro, el espurio, vive del creer y de la credibilidad acumulada." (Lluís Bassets)

http://blogs.elpais.com/lluis_bassets/2009/08/teolog%C3%ADa-y-periodismo.html

sexta-feira, agosto 07, 2009

E depois de resistir?

Comunicación que no comunica

A partir de los suicidios en empresas generados por las condiciones de trabajo, Mela Bosch advierte sobre los riesgos que surgen cuando “la comunicación no comunica” e informa sobre la reivindicación de los sindicatos europeos en la materia.
Por Mela Bosch *
Desde Milán

El 14 de julio de 2009 es una fecha histórica para Francia. Es el día del suicidio número 18 en 18 meses entre los empleados de Telecom. En una carta a su familia que ha sido publicada por diarios de diferente signo político, como Le Monde, France Soir y Libération, un hombre de 51 años de Marsella dice más que explícitamente: “Yo me suicido a causa de mi trabajo en Telecom”. Menciona como factores “la urgencia permanente” y “la sobrecarga de trabajo”.

En “C’est dans l’air” (Está en el aire), uno de los programas televisivos de debate de más audiencia de la TV5, la preocupación por el malestar de Sarkozy dejó espacio a este malestar, quizá no tan taquillero a nivel mundial pero mucho más significativo.

Y no es para menos. Sólo en Telecom Francia, empresa de la cual el Estado es el accionista mayoritario y que emplea a más de cien mil personas, desde el inicio de la crisis económica se han producido 18 suicidios y 10 tentativas. En Renault ha habido tres suicidios y otros tantos en pequeñas empresas del interior, como el caso del delegado obrero de una fábrica de cerámica que no pudo evitar que sus compañeros terminaran en la calle.

El Ministerio de Trabajo, según anunció su titular, Xavier Bertrand, está llevando una investigación nacional sobre el estrés laboral para identificar los sectores más expuestos. Esta decisión se tomó a partir de un informe sobre los riesgos psicosociales en el trabajo, elaborado por un equipo coordinado por el magistrado Philippe Nasse y el médico psiquiatra Patrick Légeron. Este último hizo notar que la fragilidad es mayor entre los trabajadores del área de servicios y en especial en el sector comercial de las telecomunicaciones, sujetas a lo que el suicida marsellés llamó en su nota póstuma: “administración por medio del terror”. Se trata de una forma de gestión que se basa en la competencia permanente entre los funcionarios y que estimula el aislamiento frente a la computadora, a la vez que usa la humillación y la desvalorización como formas de castigo pasivo hacia quienes no producen de acuerdo con los objetivos de ventas exigidos, especialmente en un momento en que la recesión hace que estos objetivos resulten irreales e inaccesibles.

Los expertos del gobierno proponen lanzar una campaña de información para los directores de las empresas y los trabajadores sobre sus derechos en cuanto a condiciones de trabajo, lo cual resulta casi banal en medio de lo devastador de la situación. El médico y psiquiatra Légeron precisó en el programa televisivo que la crisis empezó siendo financiera, se hizo económica y terminará siendo sanitaria. Y es algo para tener en cuenta, si consideramos que desde el inicio de la crisis en Francia el suicidio por estrés laboral ha producido más víctimas que la gripe A (el 30 de julio se produjo la primera víctima, una niña de 14 años que padecía de una enfermedad grave).

Pero, por otra parte, es para valorar que en una sociedad individualista y frustrada por la crisis aparezcan nuevos valores y recursos en el campo de las luchas sociales. A partir de esa muerte del 14 de julio, sindicatos, comisiones obreras y de empleados de servicios y de telecomunicaciones han lanzado una revolucionaria reivindicación: considerar el suicidio como accidente de trabajo y hacer responsables a las empresas cuando esté claramente identificada la causa. Es revolucionario porque implica dar un nuevo enfoque a la seguridad en el trabajo, considerando dentro de los riesgos y la violencia en el ambiente laboral también los aspectos psicológicos, morales y de dignidad humana que involucran los despidos masivos, el aislamiento frente a la computadora y la competitividad despiadada entre compañeros. Un indispensable paso en el triste camino a recorrer para mitigar la impotencia y el dolor a las familias de las víctimas de las políticas liberales, que intentan cubrir su fracaso e ineficacia echando a sus trabajadores o exigiendo metas imposibles.

* Consultora lingüística. Docente on line de la Cátedra Tecnologías en Comunicación Social de la Facultad de Periodismo de la UNLP (Universidad Nacional de La Plata).

quinta-feira, agosto 06, 2009

Cambiando de mundo...

Um amigo me disse hoje que deve morar em Angola pelo próximo ano. Outro está procurando um inquilino para eu 'cafofo' em Copacaba (R$ 1.200,00 "com tudo incluído" - fiz a propaganda e quero minha parte...). Enquanto uns partem, outros se (re)encontram.

"O máximo que eu conseguia com ele era me lembrar de você". Um terceiro amigo reinaugura uma história de amor ao som dessas palavras, ditas por uma "ex", futura "atual". Antes, porém, meu amigo terá a difícil tarefa de comunicar a reviravolta da trama para a terceira ponta do triângulo. O ponto de virada é o retorno do romance passado, que agora pede para ser presente e futuro. Tudo junto. Isso significa um ponto final súbito no roteiro que vinha sendo rascunhado com capricho. O que me lembra aqueles fins estranhos de novelas com baixo índice de aprovação. Imagine se Machado de Assis escrevesse orientado pela divindade Ibope: será que Dom Casmurro correria o risco de terminar com um final feliz? Seria um desastre para nossa literatura!
Então, quem disse que os finais tem que ser sempre felizes, meu caro amigo?

"Ela tem um poder de fogo nos olhos que vai acabar comigo", disse ele, preocupado com o momento em que o triângulo terá que ser desfeito. Lembro-o daquela namorada, à época da faculdade. Tento defender a tese do "tudo passa"... "Ela era estranha", uma provocação. Trazia um botão fechado no lugar dos lábios. Sorrisos? Não cheguei a presenciar. Meu amigo conta que naquela época o namoro já estava desgastado. Mas um dia a moça havia sido atraente aos seus olhos: "Ela era a única menina que lia e pintava o cabelo de vermelho. Depois o tempo foi ingrato e ela acabou perdendo a graça para mim".

***
Comecei a escrever pretendendo fazer uma breve introdução. Lá se foi a brevidade em troca da fofoca... Enfim, o poema abaixo é de um uruguaio, falecido recentemente, que sabia como ninguém expressar essas coisas que versam sobre corações e finais. No poema com o qual me deparei há pouco, Mario Benedetti é certeiro com sua metonímia.
Assim que o poeta morreu no início do ano, recebi as seguintes palavras: "Mario Benedetti foi um dos últimos poetas a que me apresentaram e que valeu a pena conhecer (...) Apresentar um poeta a uma pessoa é coisa muito generosa. (Tanto, que às vezes, a gente até se engana com um gesto desses.) Gosto dos poucos versos dele que li. E gosto muito de você por, entre outras razões, fazer com que a gente leia coisas dessas na vida." São palavras de quem, longe, parece permancer. Ok, que seja...

Cuando la poesía

Cuando la poesía abre sus puertas
uno siente que el tiempo nos abraza
una verdad gratuita y novedosa
renueva nuestro manso alrededor
cuando la poesía abre sus puertas
todo cambia y cambiamos con el cambio

todos traemos desde nuestra infancia
uno o dos versos que son como un lema
y los guardamos en nuestra memoria
como una reserva que nos hace bien

cuando la poesía abre sus puertas
es como si cambiáramos de mundo.

*Poema inédito de la obra en marcha de título provisional: Biografía para encontrarme

In process...



Acima, mais um estágio de uma obra não terminada. Na parte lisa (que acabei transformando num grande vazio com cor-de-burro-quando-foge) ainda pretendo ousar, colocando em prática umas idéias que há semanas passam aqui pela cabeça. Jeans e contorções... Linhas de lã... Bom, como pretendido, o branco entre as partes coloridas deu um realce ao conjunto...

sábado, junho 13, 2009

quinta-feira, abril 16, 2009

Apenas um rapaz latinoamericano...ou Encontros.

Este texto me fez lembrar de encontros casuais que ocorrem durante viagens. São situações imprevisíveis que nos fazem, às vezes, mudar a rota e descobrir novos caminhos. A despedida é sempre como conta Juan Cruz no texto que captei de seu blog http://blogs.elpais.com/juan_cruz/. Ainda espero por novas viagens e pelas felizes surpresas que elas trazem... Para terminar este breve comentário e deixar o resto do espaço com o titular do blog Mira que te lo tengo dicho, chamo atenção para a última frase do texto de Cruz. A identificação é total!


16 abril, 2009 - 10:30 - Juan Cruz
Escritores entre Cervantes y una paloma
Estuve anoche en el Corral de Comedias de Alcalá de Henares conversando con cuatro jóvenes escritores latinoamericanos, nacidos todos ellos a partir de 1970. El más joven es el mexicano Tryno Maldonado, que nació hace 32 años. Los otros son la chilena Andrea Jefatnovic, la boliviana Giovanna Rivero y el argentino Juan Terranova. Todos han publicado ya libros, sobre todo novelas, y los cuatro fueron invitados para estar todo este mes en Alcalá de Henares. La iniciativa es de la Universidad, que hace coincidir esta invitación para que los jóvenes autores se encuentren y encuentren el centro del territorio de Cervantes con los actos que arropan allí la entrega del premio Cervantes a Juan Marsé, un maestro. El marco es, pues, el Festival de la Palabra, y este esquema de arropamiento de jóvenes escritores se llama Escritores en Residencia. Ellos están encantados de estar aquí; no se conocían, o se conocían poco, por los medios electrónicos; sabían algunos de ellos de ciertos textos suyos, pero no se conocían. Reproducían en sí mismos un problema grave de la comunicación literaria en español: conocen a los españoles, o lo que pasa por España, pero se desconocen entre países latinoamericanos. Y ese es un gran déficit de ahora, del pasado y del porvenir. Hablaron de eso, y hablamos de muchas más cosas. De las influencias; del lenguaje; de cómo el español de España y el español de los países iberoamericanos se impide o se retroalimenta; de los caciquismos literarios; de Cortázar; de Los últimos días de la humanidad de Karl Kraus; de cómo el marketing terminan impostando las novelas; de las imposturas; de cómo la literatura se mide con el capital; del marxismo; de las palomas que cagan sobre la estatua de Cervantes; de las novelas nazis (o sobre nazis) que se hicieron en México; de la novela híbrida (invención de Giovanna); de que todas las novelas ahora son híbridas; de Unamuno; de releer los libros propios; de la humildad; de la paciencia; de los egos revueltos; de los egos resueltos; de la búsqueda como sustento eterno de la vocación literaria; de los 1433 escritores que hay en México (y otros tantos en tantos sitios); de cómo se dice coger, follar, en cada sitio; de cómo se dice correrse; de cómo se traduce culear; de cómo Jean Claude Van Damme dice en español joder, y así sucesivamente. Quedamos para vernos otra vez. Lo que más lástima me dio es no ser joven y seguir allí, con ellos, escritor en residendcia. Pero soy latinoamericano. Que ya es muchísimo.

Clarice sempre me faz lembrar de você...

"...o horror e as emoções negativas são infinitamente preciosos na medida em que também constituem modalidades daquele espanto ontológico elementar, que é nossa forma mais concreta de consciência do futuro latente em nós e nas coisas". Clarice Lispector

quarta-feira, março 25, 2009

Frase do dia

“Só quando transgrido alguma ordem o futuro se torna respirável"

Mário Benedetti - Antologia Poética

domingo, março 22, 2009

“I have doubts!” (“Eu tenho dúvidas!”)

Embora tenha sido batizada e tenha feito a primeira eucaristia, seguindo os sacramentos da Igreja católica, não tenho muita familiaridade com o texto bíblico. Fiz algumas leituras na Catequese, ouvi repetidas vezes as repetidas passagens do Evangelho nas missas - quando meus domingos eram religiosamente marcados pela visita à igreja -, e estudei trechos do antigo testamento em uma disciplina na faculdade de História. Ainda assim, é pouca minha familiaridade com os capítulos e versículos do sagrado livro.

Apesar disso, ao buscar na caixinha da memória, logo aparecem referências (vagas) sobre passagens marcadas pela dúvida. Uma delas é aquela da tempestade. Afasto uma lembrança daqui, outra dali, e finalmente alcanço a mensagem que, segundo acredita-se, os discípulos quiseram fazer chegar às gerações seguintes. O trecho da tempestade em alto mar é justamente aquele em que Jesus caminha sobre as águas. Salvo engano, Pedro é o desafiado da vez. Ele se joga ao mar para ir ao encontro de Jesus, que se encontra sobre as águas, mas a tempestade o assusta e ele teme, duvida. Jesus o repreende: “Homem de pouca fé, porque duvidaste?”

Há outras passagens ainda, mas não creio que seja o caso de revirar mais esta minha caixinha em busca de outros exemplos. Este me basta.

A questão é que – concluo agora – a Bíblia é marcada por histórias em que a dúvida representa a “crise de fé”. Ah, claro! Como posso ter me esquecido de São Tomé? Eis o desconfiado discípulo que precisa tocar as chagas do Cristo ressuscitado para crer no fenômeno supostamente impossível.

***

Acabo de assistir ao filme Doubt (Dúvida), do diretor John Patrick Shanley, com Meryl Streep (Sister Aloysius Beauvier), Philip Seymour Hoffman (Father Brendan Flynn) e Amy Adams (Sister James). Mais do a história de uma freira que confronta um padre suspeito de ter aliciado um estudante negro, o filme é repleto de densos diálogos sobre religião, moral, autoridade e a dupla dúvida/certeza.

No início do filme, o Padre Flynn começa seu sermão com a seguinte pergunta: “O que você faz quando não tem certeza?” O padre desenvolve seu sermão falando sobre a solidão daquele que duvida e sobre as possibilidades inerentes à dúvida tanto quanto à certeza: “A dúvida pode ser um vínculo poderoso e sustentar tanto quanto a certeza”, diz o sacerdote. A conclusão do Padre Flynn é um consolo para os Pedros e Tomés: “Quando nós duvidamos, nós não estamos sozinhos”.

Ou estaríamos vivendo uma solidão coletiva? No rastro do paradigma racional e positivista, a certeza é extremamente valorizada. E seu oposto, ainda que não seja a confissão da ignorância propriamente, já coloca o Tomé da vez em condição errática. As “crises de fé” da contemporaneidade são extremamente penosas, vide por exemplo, os efeitos do vigiado Risco Brasil. Este mede o nível de confiabilidade que os investidores estrangeiros podem ter em relação à economia brasileira, no caso. O índice varia em sentido negativo para a economia nacional quanto mais as condições políticas e econômicas colocam em dúvida a segurança do país como destino para os capitais em fluxo.

Em Doubt, há um ótimo diálogo entre o Padre Flynn e a Irmã James, uma jovem aparentemente fraca, dada sua dita ingenuidade e temperamento sentimental. Tais características são ainda mais ressaltadas diante da autoritária Irmã Aloysius Beauvier, a personificação da certeza, racionalidade e segurança. Será mesmo?

No referido diálogo, Padre Flynn defende seu comportamento carinhoso e humano no trato com os alunos da escola dirigida pela implacável Irmã Aloysius Beauvier. Em especial com Donald Miller, o pobre garoto negro, único na instituição de ensino. Em sua própria defesa, o padre aconselha Irmã James: “Há pessoas que vão atrás da sua humanidade, Irmã, para dizer-lhe que a luz no seu coração é uma fraqueza. Não acredite nisso!” E ele completa: “É uma velha estratégia de pessoas cruéis para matar a bondade em nome da virtude. Não há nada de errado com o amor”.

O contexto completo da fala acima será captado por aqueles que assistirem ao filme. Detenho-me aqui ao trecho matar a bondade em nome da virtude. Pois é disso que trata a apologia à certeza, uma defesa da virtude em detrimento da bondade. Esta vista no sentido daquilo que pertence ao campo semântico da emoção e dos sentimentos – supostamente erráticos e incertos. É compreensível, portanto, que na busca por fazer aparecer a verdade, Irmã Aloysius Beauvier acabe pecando. E após pecar, se justifica: “Em busca do pecado, um passo distante de Deus”.

Lembro que no colégio, e mesmo já na Universidade, alguns professores usavam de um expediente muito constrangedor para confirmar se o aluno sabia mesmo a resposta à pergunta feita: “Você tem certeza?”. E então o silêncio da dúvida preenchia a sala de aula. Dirão os adversos que o constrangimento é apenas para aqueles que não sabem o conteúdo ensinado. De fato. O constrangimento é àqueles que não estão seguros, que duvidam. A virtude é saber. E saber com certeza!

O denso embate entre o Padre Flynn e a Irmã Aloysius Beauvier traz nas palavras do primeiro a peça que promove o encaixe entre a certeza e seu ‘oposto’, a dúvida.

“A certeza é uma emoção, não um fato”.

E , sim, eu tenho dúvidas. E quantas!

quarta-feira, março 11, 2009

Título da obra: Anna

(Não comprei tinta preta para o cabelo...)

quinta-feira, março 05, 2009

Anatomia

"O sofrimento é inerente ao homem. Mas por que insisto em me dar marteladas? Para poder me sentir ótima quando eu paro".

segunda-feira, março 02, 2009

Testes...

Os retoques não pararam...


Eis a última versão (espero não tocar mais os pincéis na tela):

p.s: O efeito da combinação sol+tintas foi o toque final, não acham?



sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Planos


Os jardins do último post foram para o espaço com umas pinceladas... Abaixo, Planos. Com uma iluminação externa, as cores ganham mais vida. Ainda aprendo a colocar essa luz na tela!

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Arte com o jardim do vizinho...

Esta é minha primeira tela pintada inteiramente com pincéis e com tinta a óleo! Na verdade, ela foi feita em duas partes. Assim que terminei a primeira, fiz a foto que segue logo abaixo. Mas ainda senti que faltava jogar na telaum pouco mais de 'confusão'. Portanto, a versão final é a das duas últimas fotos. O nome do quadro é Verdes jardins.

E a versão acabada! Só não vale chorar pela tinta derramada :(




terça-feira, fevereiro 24, 2009

"Perfis"

MLCM
Tinta guache sobre cartolina - "Perfis"

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

"Casal de cor"




Eis mais uma obra da artista "amadora"! Sem pudores, resolvi brincar com as cores e ângulos ao fotografar o quadro e postá-lo, dando uma valorizada no casal... Aqui, estão dois dos resultados que mais gostei.


Casal de cor não segue o 'padrão' que vinha estabelecendo, de pinturas soltas e sem uma forma muito definida. Resolvi ousar e percebi como é difícil colocar no papel as imagens que passam pela cabeça.


Inicialmente, em Casal de cor aparecia a mulher de frente (pena que não fotografei esse estágio!). Mas não consegui dar a ela uma feição que me agradasse. Tentei de várias formas fazer os olhos, boca e nariz. O resultado era sempre uma mulher triste ou com uma cara de esnobe (sobrancelhas! aí está o truque, que ainda não sei). Enfim, depois de várias tentativas (pensei até em deixá-la sem rosto, repetindo a obra anterior), resolvi que a mulher estaria de costas. E dá-lhe preto da tela!

Já o homem não me deu trabalho. Apenas seus cabelos longos, que surgiram após um traço equivocado. Solução: alongar as madeixas do rapaz. Até que gostei!

Bom, Casal de cor (com o "ó" aberto) é o quarto quadro que pinto com as mãos (os pincéis estão pela hora da morte!). É uma entre as muitas tentativas que venho fazendo para avançar no mundo das tintas, das misturas e, para mim, das viagens por cenários múltiplos. Cada quadro é isso: uma verdadeira viagem, para quem quer aprender de cor que em qualquer caminho "amar é o que basta" (licença para citá-lo, ok?). MLCM



P.S.: Saber de cor - quem ama algo, não o esquece. Portanto, quem sabe algo de coração, vai lembrar-se disso para sempre. "Saber de cor" provém daí.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Laranja mecânica

...e pensei que, desde que me apaixonei por você, talvez seja movida pela mecânica de amar... Não a mecânica que rege os relógios, sempre os mesmos tempos para os mesmo espaços, mas uma mecânica livre, que às vezes pede pausa e em outras movimento.

MLCM

terça-feira, fevereiro 10, 2009

'Mulher sem rosto e taça de vinho tinto'


Artista: MLCM
Tinta guache - pintado à mão.
Primeira obra do velho-novo movimento da printura contemporânea, Catarsentela

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Mais um dia 10...


B.


BRILHA NO CÉU ESSA ESTRELA SOZINHA

RELUZ LÁ LONGE COMO PROMESSA

E, NESTE CHÃO DE TERRA ESPESSA,

NOITE VIRA DIA

O ESCURO VIRA CLARO,

CASO VOCÊ APAREÇA.

ORA, E SE TUDO INVERTE,

SOL DE NOITE, ESTRELA DE DIA...

TORÇO POR DIAS MAIS CURTOS E LOGO

AMANHEÇO EM SUA COMPANHIA.

domingo, fevereiro 01, 2009

O tempo (por B.C.)

O tempo, minha amada, é castigo para quem vive do presente. Mas o castigo é ainda maior para quem não tem o presente.

Você ficou 25 anos assim, sem o dia pós dia. Hoje, quando você acordou, me coloquei no seu lugar. Os olhos girando para todos os lados, em busca de uma referência que te prendesse a esse novo presente. Uma referência que a fizesse perceber que o tempo de abstração involuntária perante o mundo realmente chegara ao fim. Acho que me decepcionaria. Os seus sonhos deviam se passar em um tempo onde as coisas eram mais simples.

Olhando nos meus olhos, você finalmente percebeu que, lá no fundo, apesar da confusão gerada pelos pêlos na face, pelas leves rugas nos cantos dos olhos, pelo cabelo desgrenhado com as marcas das preocupações colecionadas ao longo de mais de duas décadas, eu era aquele seu amigo de outrora. Espero que acredite em tudo que vou te contar a partir de agora.

Em 1984, quando você adormeceu, a lógica do big brother, fundada pelo Orwell, era mais amena. Hoje virou programa de televisão, virou doutrina estabelecida na maior nação do mundo. Virou CPI, virou paranóia nos celulares (não sabe o que é isso, né? Depois te explico isso e a Internet, com aulas práticas...) de quem tem algo a dever à sociedade.

Minha amada, naquela época ainda lutávamos contra o que restava de um autoritarismo institucional. Nossa vitória não veio no primeiro momento. As instituições ainda conseguiram derrotar a maior das instituições - o povo - uma vez mais. Mas elas trataram de amenizar a própria estupidez e nos permitiram, cinco anos depois, que escolhêssemos um presidente.

Ah, presidentes... Esses foram destaque. Você não sabe, mas há duas semanas um negro, com descendência muçulmana e africana, assumiu o governo dos Estados Unidos da América. Sim, Ronald Reagan, o bonitão de Hollywood, ficou restrito aos livros de história. O nome do negro é Barack Hussein Obama. Nada hollywoodiano, hã?

Se você já está supresa, deite-se novamente. Nosso primeiro presidente eleito pela vontade do povo foi um bonitão, promissor. Fernando Collor de Mello. Você acredita que ele não durou nem dois anos no cargo? Foi derrubado. Calma! Não foi golpe. Dessa vez, as instituições cumpriram a "vontade do povo". Depois do autoritarismo, seguia uma era de corrupção. A sigla CPI virou moda no Brasil. Comissão Parlamentar de Inquérito. Deputados e senadores investigando até mesmo seus pares e outros figurões do governo.

Pois muito que bem. Tivemos um presidente tampão, cuja ação mais famosa foi reativar a linha de produção dos Fuscas no Brasil. Em seguida, um outro presidente, muito conhecido seu, assumiu. Lembra dele? O Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo, que falava sobre a dependência externa brasileira. Pois o sujeito privatizou quase tudo no Brasil. Sabe o que é privatizar? Vendeu as empresas estatais. O Estado, o famoso Estado, foi se encolhendo.

Mas, há quase sete anos, o Brasil teve o seu Barack Obama. Elegemos um torneiro-mecânico, sem instrução, presidente. Mais um daquela nossa época. O Lula! Sim, o sindicalista! Ele é o presidente do Brasil!

Mas, calma... O Brasil não virou mais um aliado do Kremlin no quintal dos Estados Unidos. O Kremlin não é mais o mesmo. A União Soviética acabou. O comunismo perdeu. Lula, o radical, hoje veste ternos de primeira linha, tem cabelos brancos e barba bem aparada. Um gentleman do povo.

Bom, sobre guerras, mortes e intolerâncias, te falo mais tarde. Você ainda está muito fragilizada para ouvir tudo isso. Mas, saiba logo: o mundo continua não sendo um lugar muito simples para viver. Mas ficar de olhos fechados é muito desperdício diante de tantas novidades, não acha?

Calendário

- Esse calendário que você me deu está com defeito. A saudade é crônica e ainda faltam três semanas!
- O tempo, minha amada, é castigo para quem vive do presente. E alento para quem vive do futuro. Escolha sua opção... Amo presente e futuramente.


segunda-feira, janeiro 26, 2009

P.S.:


"Se é verdade que estamos todos sós no mundo, então também é verdade que estamos juntos nisso"

Frase do filme P.S.: Eu te amo


Foto: por MLCM, feita com o celular de BMLC - Icaraí, Niterói (RJ).
25 de janeiro de 2009

Palavras

...e me ama, como eu nunca conheci, completa e intensamente, com as expectativas de um futuro já existente no horizonte. Só a espera de nós dois...

domingo, janeiro 11, 2009

O mirante da Dona Marta




A "morena de Angola", a doceira do Engenho e o Pão de Açúcar

terça-feira, dezembro 16, 2008

Folha de laranja e cotovelo

Ok, meu amigo, não vou desprezar sua dor. Já vi coisa parecida algumas vezes e sei como essas coisas dominam sentimento e razão, fazendo ambos se confundirem no espaço da memória. Sei que as manhãs fazem falta e que seu teatro das reais carícias e regalias para a mulher amada está vazio desde que a personagem principal deixou o palco das primaveras contínuas. Sinto não ser mais útil, já que só posso oferecer meus ouvidos e condolências. O último parece atrair a palavra "enterro" e não acredito que seja o caso. Não ainda. Vele essa dor que agora sente, mas não vele o amor porque este não morreu ainda. Ameaça transformar-se. E isso, também sei, é tristeza ainda maior para os amantes que não desejam tornarem-se apenas amigos. Este seu oráculo tem pouco a sugerir. Se o mal fosse essa gripe que agora me atinge, aconselharia folha de laranja, ‘alfavacão’ e capim limão batidos no liquidificador com mel. Não é receita infalível, mas aplaca os efeitos que agora deixam meu corpo e mente anestesiados para os compromissos do dia a dia. Mas sendo dor de amor, é vírus para o qual, lamento, não encontro receita. O único modo que conheço para lidar com esses sintomas que o mal traz é curtir o momento em banho-maria com uma mão sustentando o cotovelo e a outra a cabeça. Esta deve continuar sobre o pescoço, aquele é bom que não encoste diretamente sobre a mesa. Pode ficar grudado ali por um bom tempo e é outro efeito que não desejaria para um amigo tão querido. Bom, coloque no lugar cabeça e cotovelo. Caso algumas lágrimas queiram escorrer, não prenda. Elas rolarão mais cedo ou mais tarde. E como já aprendi em situações anteriores: quando elas querem partir, é melhor permitir sem resistências. Não há tranca capaz de retê-las e todas as válvulas as ajudarão a escapar. No mais, tente o chá de folha de laranja quentinho. Não fazendo bem, mal não fará. Estarei aqui, com ouvidos e condolências. De resto, consulte o Tempo...






I heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this, the fourth, the fifth, the minor fall, the major lift, the baffled king composing Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

Your faith was strong but you needed proof, you saw her bathing on the roof, her beauty in the moonlight overthrew you
She tied you to a kitchen chair, she broke your throne, she cut your hair, and from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

Maybe I have been here before, I know this room; I have walked this floor, I used to live alone before I knew you
I've seen your flag on the marble arch, love is not a victory march, it's a cold and its a broken Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

There was a time you let me know whats really going on below, but now you never show it to me, do you? (and)
Remember when I moved in you; the holy dark was moving too, and every breath we drew was Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

Maybe there's a God above, and all I ever learned from love was how to shoot at someone who outdrew you
And its not a cry you can hear at night, its not somebody who's seen the light, its a cold and its a broken Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu--jah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu---u---jah

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Elephant gun ou Um desafio

Desafio o caro leitor deste blog a não querer dançar, rodopiar e saltitar ao ver este clipe da banda Beirut (http://www.beirutband.com/) Uma delícia de melodia! Quem vencer o desafio, na verdade, estará perdendo... Sim, já me entreguei ao som por aqui. Uma mini-catarse não faz mal a ninguém.





***

If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight

Far from home, elephant gun*
Let's take them down one by one
We'll lay it down, it's not been found, it's not around

Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down

Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down

And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the night

And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the silence, all that is left is all that i hide

**elephant gun: é uma arma de calibre largo. Ela tem esse nome porque originalmente eram feitas para uso de caçadores de elefantes ou outras caças perigosas.

quinta-feira, dezembro 11, 2008