sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Insônia

A madrugada me abriga poeta.
Foge a expectativa de ver Morfeu se aproximar
As palavras entram em ebulição
Pedindo um lugar no papel.
A noite é o jardim onde semeio
Dúvida, anseio e esperança.
A noite me abriga mulher
Me brinca criança.
Quando o silêncio impera
Faz-se euforia interna
Minh’ alma entra em festa
Meus olhos se abrem arregalados
Sou iluminista e revolucionária.
Incendiária, lidero multidões.
Escrevo o manifesto dos loucos
E recito publicamente entre quatro paredes.
Próximo passo: resgatar a sanidade.
À noite, infinita enquanto noite,
O passado me visita
Ganha a forma desafiante da inspiração
Ou se traveste de nostalgia.
Os cães ladram e a carruagem estaciona,
Enquanto dorme a cidade.
Sobra tempo para vestir cada ilusão
E desfilar pelo mármore cristalizado
Construo mil cenários.
Sou múltipla persona, ser fragmentado.
Sambo na ágora, senado boquiaberto.
Sou Baco e Apolo na festa do vinho.
Toureio na Acrópole para as ruínas do Parthenon.
A noite fricciona em minha pele
A aspereza da solidão
E a tez aveludada das possibilidades.
À noite posso perder o ritmo e a rima
Me permito pecadinhos e heresias
E enquanto adormece a Divindade
Posso abdicar das boas maneiras,
Abrir mão do pudor e deslizar na luxúria.
Só o que me freia é a contradição.
Aquela que me alicia, também atemoriza.
Então sinto falta de ombro, mãos e conivência.
É quando durmo, embriagada de sono e ansiedade.

(Malu de Bicicleta)
***

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Jardim

"Meu conceito de jardim determina o que é praga ao redor de mim..."
(Affonso Romano)
Mas também determina o que é flor. E isso o Affonso Romano esqueceu de mencionar.
Eu lembro sempre.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A BANCA E O JOGO

“Inquirido disse: Que no dia de hoje, por volta das 14 horas e 45 minutos, a declarante caminhava pela Praia de Botafogo, em sentido ao Botafogo Praia Shopping, pelo calçadão, quando em frente à rua Farani, um grupo de três indivíduos que aparentavam ter entre doze e quinze anos, que com a mão sob a camisa, aparentando estar armado, um dos jovens disse: “Passa o celular e o dinheiro!”, sendo atendido; Que após o roubo, o grupo seguiu caminhando pelo calçadão em sentido ao Aterro do Flamengo, quando a declarante ouviu alguém gritar e olhou para trás...”
A declarante sou eu. Quisera não fosse. Quisera não tivesse nada a declarar. Mas tinha. Tinha muito mais do que me permitia o espaço reservado para meu depoimento, enquanto vítima e testemunha. Testemunha da insensibilidade humana, testemunha do desespero, da banalização, bem como da indignação e do medo quando transformados em individualismo e perversidade. A contragosto testemunhei tudo isso no dia mais triste de toda minha vida. Uma vida de poucos dias tristes, o que não minimiza o sofrimento do qual fui uma mera testemunha ocular.
Pudesse acrescentar alguns detalhes ao meu depoimento, assim o faria...
Que no dia de hoje, por volta das 14 horas e 45 minutos, a declarante, eu, caminhava pela Praia de Botafogo, trajando seu vestido novo, que fez questão de estrear no dia em que suas horas mal dormidas e todo seu esforço seriam recompensados e reconhecidos: “A Banca Examinadora, após argüição, decidiu pela aprovação com grau 100”. Possivelmente, sem perceber, a declarante, eu, trajava um sorriso de vitória ao ser abordada por três indivíduos enquanto caminhava pela Praia de Botafogo em sentido ao Botafogo Praia Shopping; (...) Que após o roubo, o grupo seguiu caminhando pelo calçadão em sentido ao Aterro do Flamengo, quando a declarante ouviu alguém gritar, olhou para trás e viu algo voar no céu, dar piruetas no ar a cair imóvel no asfalto que queimava sob o sol de 40 graus.
“Que deseja esclarecer que o taxista, autor do atropelamento não pôde evitar o acidente por se tratar de uma pista de alta velocidade e ter desviado dos outros dois indivíduos momentos antes, vindo a colher a vítima; Que com o indivíduo atropelado foi arrecadado o telefone e o porta-níquel com o dinheiro da declarante, sendo a vítima do atropelamento reconhecida ainda no local como um dos autores do roubo que fora vítima no dia de hoje...”
Eu, que prestei depoimento, que fui abordada, roubada e algumas horas depois obtive na 10ª DP meus pertences de volta; dos quatro, eu já não era tão vítima. Não conseguia me sentir vítima, tampouco lesada, vendo o sofrimento daquele garoto agonizando diante dos policiais e taxistas.
Trânsito lento, curiosos passam, espiam. Mais um acidente, como tantos que ocorrem pela cidade, pelo país. Fez por merecer. Ora, procurou!Tem mais é que morrer! Pior é que vai sobreviver e, réu, vai fazer outras vítimas. Garotos como ele, assaltam, roubam e até matam! Sem dó nem piedade. E aos 18 anos, voltam a ter a ficha limpa. Esse mundo é muito injusto... Infelizmente os outros dois escaparam. Antes tivessem sido lambidos pelo táxi, rodados no ar e caído agonizantes no chão. Esses garotos têm sete vidas e ainda gastam nossos impostos ao serem atendidos em hospitais públicos. O coitado fritou no asfalto! E que prejuízo esse garoto não deu ao se jogar na frente do táxi que passava, no mínimo, a 70 km/h. Uns R$ 500, calcula o taxista, candidatando-se ao posto de quinta vítima. Por enquanto, somos quatro, os três garotos e eu, testemunha e declarante.
Olhando o corpo no chão, imóvel enquanto não chegava o carro dos bombeiros, pensei na história dele. Um pé do chinelo jogado longe, talvez número 36, talvez aquariano como eu, talvez João, talvez Wellington, talvez irmão de mais 10, talvez filho único, talvez, talvez... Mas o que importa? Afinal, naquele instante era um corpo, era o corpo de um pivete que após se exibir dando piruetas no ar, permanecia segurando firme meu porta-nível e meu celular, devidamente resgatados depois que eu, caprichosamente, assinei três vias de um documento lá na 10ª.
O corpo. Sei que isso é desagradável, mas ainda tenho algo a declarar. Não sai da minha cabeça aquele corpo de bruços, aquela respiração ou qualquer coisa parecida que fazia as costas levantarem e descerem, levantarem e descerem num ritmo bem marcado, acelerado, como um animal abatido que resiste só por resistir, sem qualquer pretensão, apenas insiste em sobreviver.
Hoje eu fui testemunha ocular do visível e do invisível. Testemunhei horrorizada que a vida vale muito pouco nesses dias. Testemunhei que existe a pena de morte no meu país, debutante nas questões democráticas. Testemunhei que a sentença é dada sumariamente aos delinqüentes juvenis sem passado, sem história, sem desculpa, sem conserto, sem identidade. Apenas “pivete”. Ou o carinhoso e irônico diminutivo: “pivetinho”.
A declarante, eu, fui testemunha e vítima. Uma vítima que não se reconhece como tal. Uma vítima boba, complacente com os infratores, ladrões, delinqüentes... Indivíduos que lesam a sociedade de bem, que paga seus impostos e se ressente pela falta de segurança que assola este país.
Hoje, a historiadora aprendeu, na prática, as regras do jogo. Aprendeu como vivem indivíduos clandestinos, sem passado, sem história, sem justificativas. E por isso, previamente culpados.

domingo, fevereiro 05, 2006

Desafio

"Vou com um sorriso no rosto e uma idéia na cabeça!
Depois dessa montanha (que daqui parece enorme), espero encontrar algumas ladeiras para deslizar feliz. Até os próximos desafios..."

Malu de bicicleta

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Moeda da sorte

Moeda da sorte
Inspirado em "BROWN PENNY" (Moeda Marrom)
by William Butler Yeats


Eu sussurrei: “Sou muito jovem”
E depois: “Envelheci o bastante.”
Então, joguei uma moeda
Para descobrir se eu seria amada

Ah! Moeda da sorte, moeda dourada,
Diga-me onde encontro o amor
Qual o sentido, qual a direção?
Como alcanço sua morada?

“Não escale a montanha vigiando a queda”.
Ah! Moeda dourada, dourada moeda,
Fui seduzida por um ritmo descompassado.
Meu par de novo bateu em retirada.

Como conter minha precipitação para saber o amor?
Como ser sábia e não viver a ansiedade?
O dia chega e flagra meu torpor.
Será o amanhecer um convite à possibilidade?

A música ainda toca ao fundo...
Ah! Moeda da sorte, dourada moeda.
Eu sei, cedo demais para um coração tão contrariado.
Mas esta noite a lua minguou e o tapete negro estava apagado.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Um convite para o dia seguinte...

Convite

CONVITE

Boemia, venha ver o pôr do sol!
É cedo para você, mas tarde para quem madruga antes das 6.
Quando ele mergulhar e você enfim aparecer
Não vá dizer que não avisei.
Não adianta me culpar pelo estrago que você fez.
Boemia, venha ver o astro rei
Sem essa de sair só depois que a noite ancorar
Deixa de história, para de se enfeitar.
Boemia, ele já está sumindo...
Corre se não vai perder
Deixa pr’a lá o que tiver de fazer
Isso não é ansiedade, tampouco afobação.
Quem lhe chama é a cidade, é São Sebastião.
Boemia, deixa seu tambor um pouco de lado
Vem batucar no meu terreiro
A chamo para ver o espetáculo
Você diz que só no próximo fevereiro.
Boemia, por que espera a festa da carne?!
A comemoração é agora!
Boemia, venha ver o pôr do sol!
Minha cara, que demora!
Já era... ele mergulhou.
Um bêbado se insinua...
Quer lhe pagar uma bebida, fazer uma brincadeira...
A noite é sua, nua, faça bom proveito!
Mas quando o sol escancarar sua bebedeira
Boemia, minha cara, sua graça não terá mais efeito.

MLCM

sexta-feira, janeiro 06, 2006

"Loucura"

Malu conheceu uma senhora cujo filho, esquizofrênico, está internado. Ao escutá-la narrar seu sofrimento de mãe vendo as ilusões da mente perturbada de seu filho, ela fingiu uma força que desapareceu mais tarde, quando veio um choro inexplicável.

"Ela" se destaca mais pela paixão de suas esculturas, pela riqueza de sua percepção do mundo modelada no barro, no bronze... Mas era a "loucura" de Camille Claudel que se fixara na mente de Malu enquanto ouvia a senhora. Aquela mãe contava algumas das alucinações de seu filho, que comemora todo dia o aniversário da irmã e não se alimenta porque seus olhos lhe pregam peças e acusam a existência de bichos em sua comida. A agressividade de um jovem, vítima das seqüelas da dependência química, e o descontrole sobre os instintos sexuais são episódios deprimentes de uma vida esmagada pela loucura.
Mas o que é a loucura? Serão os loucos realmente loucos? Serão os sãos realmente sãos?

O que dizer para aquela mãe? O que "Malu no país das maravilhas" pode dizer? Apenas que todos temos nossas "loucuras", nossas alucinações. Malu de bicicleta teme a escuridão. Tenta se convencer do contrário, mas quando confrontada com a imprevisibilidade que há na ausência de luz ela imagina que há pessoas a espreitá-la. Há casos sérios de pessoas que têm graves alucinações ao se apropriar de coisas alheias e afirmarem convictas total inocência no banco dos réus ou das CPIs da vida. Há outros que passam a vida desejando que o fracasso alheio se traduza magicamente em seu sucesso instantâneo. Cadê as camisas de força?! Estariam escassas no grande mercado da impunidade?!

A loucura é algo dolorido - não deixo de imaginar Camille quebrando todo seu ateliê pouco antes de ser internada. Mas também é curioso pensarmos que os loucos de hoje podem ser os gênios criativos, a escultora brilhante, o inventor magnífico... Tudo no magnífico amanhã, o senhor dos contrastes. Para Malu, um reservatório empolgante de possibilidades e um enorme e assustador buraco negro, cheio de imprevisibilidade.
"Mais louco é quem me diz que não é feliz..."

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Licença poética

Até quando?
Até quando vou atravessar os outros como se eu estivesse dentro de um carro olhando a vida correr lá fora e esperando o momento certo de descer? Até quando vou sentir que há um sinal fechado logo ali adiante, justamente em frente àquele lugar onde eu queria dar uma paradinha, e quem sabe ficar um tempo? Até quando vou me cansar de um ano e correr para comprar a agenda do seguinte, tentando recomeçar a viagem que já dura mais de 20 primaveras. Até quando vou fazer questão de me jogar do carro justo nos lugares mais obscuros só para me certificar de que não estou perdendo alguma luz escondidinha e impossível de se ver da homogeneidade retilínea da estrada? Até onde vou ter que ir para encontrar o lugar que estava no cantinho do mapa que rasgou? Até quando vou procurar justamente pelo cantinho rasgado, quando há um mapa enorme indicando novas direções, novas possibilidades? Até quando vou me perguntar “quantos quilômetros faltam?!”? E quantos quilômetros faltam? E aquela sensação de que esqueci de carregar algo para essa viagem? Algo, que não encontrarei em nenhuma parada na beira da estrada, mas que, eu sinto, me fará uma falta enorme! É uma bagagem, uma leitura, um contato, um lugar, uma experiência, uma tentativa, um erro, um desafio, uma bobagem estratégica só para contrastar, só para dispersar... É uma nota, uma melodia, uma história, uma patota, uma farra, “um espinho na mão, um corte no pé”, uma meditação, uma pausa para ir mais longe... Mas onde mesmo?!



"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente"(Carlos Drummond de Andrade)


Stop!
O carro parou
Ou foi a vida?
**Malu de bicicleta passa bem. Estava um pouco desidratada, chegou a ter algumas alucinações. Imaginem que ela pensou que podia parar o tempo para descansar um pouquinho...

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Planície

Morro acima. Morro abaixo. E mais morro, morro. E quase morro de tanto morro.

Assim Malu de bicicleta traduziria seus últimos dias. Longas subidas... Trajetos inclinados, 40, 50°. E o tempo, por aí: 40, 50°... Sede, muita sede. A garganta foi ficando seca, as pontas dos dedos geladas, a visão turva, escura... pow! Desculpem os sonoplastas de plantão, mas essa onomatopéia foi exatamente o tombo. Não o primeiro, apenas um dos muitos. Lá no alto do morro, Malu foi ao chão. Desidratada, torrou sob o sol. O solo recebera seu corpo de forma grosseira, sem a recepção calorosa de um colchão, de uma rede, da areia, da água... Água! Quem dera... O morro se tornou maior, mais alto, parecia alcançar o céu. E por isso faltou pouco para que se assemelhasse com Malu, que quase ia encontrar com o pai sem sequer marcar hora. No alto do morro, ela mirra, morre e ninguém socorre. Triste fim.


Um resquício de consciência e Malu pensa que já havia subido tanto! Já era para ter chegado... Algo estranho acontecia com aquele morro que a cada dez passos se esticava vinte, numa progressão alucinante. Com seu resquício de consciência, já num estado de delírio, aquele chão de terra batida, rachado pelo sol, ficou mais confortável. Uma nuvem cinza e pesada encobriu o sol e fez chover água de banhar e água de beber. Uma brisa um pouco mais atrevida levantou-lhe o vestido que ia até abaixo do joelho. Braços fortes e sadios ergueram seu corpo que parecia ter se separado da alma ao ser suspenso em um único segundo. Daí, mais morro. Morro, morro, morro...

sábado, dezembro 03, 2005

Roda Vida

"Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração"

Roda Vida (Chico Buarque)


“O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração”.

Ela adormeceu um instante e quando voltou nada parava no lugar. A rotação da Terra seguia em passos retardados, débeis como seu sangue... Ela não saiu do lugar em que estava, continuou rodando naquela mesma roda que se soltou da bicicleta, apostando em novos rumos. E, como aquela roda, ela quis também se soltar, deixar seu jeito insosso, ser de carne e osso e rodar... No cotidiano a inércia não admite impulsos e ordena: que tudo permaneça igual, à menos que haja... atrito!

O sangue desacelerou em seu percurso sempre tão frenético, ele sempre tão preocupado em dar tempo, atarefado com a responsabilidade de enxaguar constantemente todo o corpo... Assim foi. Um coração arrebatado permitiu o atraso, ele próprio consentiu em bombear mais devagar... E o sangue deu suas voltas lentamente, retardando todo o resto.


Uma voz ébria aconselhou: “Por hoje deixe rodar, pois amanhã tudo permanecerá como sempre...” Insossamente parado.

No picadeiro, ela foi a atração. Rodou, rodou, se permitiu rodar...

A roda roda,
ela roda
na roda de samba,
o samba roda
ela roda,
bamba, samba...


O improvável é o desconforto, mas é também uma brecha mágica para a fascinante descoberta do inverso, do que é adverso, da falta de verso, de métrica, de rima. Quando a rotação cessa: surpresa! O acaso te surpreendeu mais uma vez.


“Me cobrir de humanidade me fascina...
Perfeição demais
Me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontra um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso...” (Mosca - Zélia)


Malu de bicicleta descobriu que tinha as ferramentas guardadas consigo e consertou ela mesma sua bicicleta. De novo em linha reta, busca seguir viagem... O circo ficou para trás, será?!

terça-feira, novembro 15, 2005

Hoje tem palhaçada?! Tem sim sinhô!

Vocês lembram que em “Infinito”, há duas postagens e muitos dias atrás, a roda traseira de Malu estava em um “estado lamentável” ?! Pois então, agora tudo caminha bem ou não caminha... Na verdade, Malu de monocicleta só anda em círculos, tentando desesperadamente chegar a algum lugar. Com uma única roda, o que parecia terminado, apenas mudou de rumo. Malu foi vista em algum lugarejo do planalto central, debaixo de uma lona colorida, fazendo graça para meia dúzia de criancinhas sorridentes e equilibrando-se em uma das rodas de sua bicicleta, a que saiu de seu costumeiro lugar.

É isso mesmo! Malu está trabalhando no Circo. Ela não é o palhaço, mas faz das suas e diverte o grande pequeno público. Às vezes somos público, às vezes a atração. Malu agora é a atração, assim como o incrível homem - gelo, o super mágico de Ozim ou a surpreendente mulher barbada. Neste momento, Malu é quem diverte e distrai uma dúzia (antes era meia, mas o público cresce...) de guris cheirando a leite, cheios de cáries, com deveres de casa por fazer... Dali, alguns vão direto para casa como seus pais ordenaram, outros vão ficar pela rua com seus coleguinhas, enquanto suas mães não saem cheia de rolinhos no cabelo gritando seus nomes: “Henrique João!” Até poderiam ser dois filhos, mas é o famigerado nome composto. Há uma lenda sobre nomes compostos que devo dividir com você... Reza a lenda, que um rei mexicano (licença poético-histórica) tinha dois filhos, Rodolfo e Fernando. Os dois meninos eram a razão de viver daquele monarca, tão preocupado com questões sucessórias que só afligem os ricos muitos ricos, que têm o que deixar para seus herdeiros.

Um dia, o reino foi invadido e sumariamente destruído. Os filhos do rei, dois rapazotes muito bem abençoados, foram levados e feitos escravos. O rei caiu em desgraça. Um reino usurpado e seus herdeiros escravizados. Era muito mais do que ele poderia suportar. Em uma noite, o pobre monarca ex-rico ingeriu um poderoso veneno, dando fim ao seu sofrimento. E os nomes compostos?! Bom, reza a lenda que antigos autores de antigas peças itinerantes, em função da notoriedade desta trágica história e da beleza dos dois irmãos que se perpetuara no imaginário popular, tentavam driblar a feiúra de seus mocinhos atribuindo-lhes os nomes dos jovens príncipes. Portanto, há muito tempo, assim surgiram os Rodolfos Fernandos. O resto ficou por conta da criatividade do povo: José Reinaldo, Armando José, Rodolfo José, João Fernando, Henrique João...

Bom, o caso é que nossa amiga está muito bem e permanecerá se equilibrando em cima daquela única roda que se soltou até que o Circo a leve para outro canto ou que os ventos soprem para outra direção.

Respeitável público, ficamos por aqui!
Abraços!

quarta-feira, novembro 09, 2005

Kataplef!

“Malu andava de bicicleta, linda, leve, solta e segura de que nunca cairia, pelo menos não naquele terreno. Só não se deu conta que o dia escurecia, e que nunca havia pedalado à luz da lua. Num primeiro momento ficou maravilhada com as estrelas, com os sons dos grilos... até que se distraiu e: kataplef!!! Caiu no chão. Não sabia expressar o que sentia no momento, um misto de sentimento de...derrota, medo. O que fazer agora?! Pôs-se então a chorar copiosamente. Até que era belo o seu choro. Com aquilo intentava o impossível: chamar a atenção de um socorro. Pai, mãe, padre, polícia... Sei lá! Alguém viria lhe ajudar, era humilhante ter que levantar do chão machucada e suja. Mas ela não sabia, à noite é diferente. Ela havia fugido de casa, não podia chamar os pais. O padre já havia rezado a última missa. E a polícia... Bem, esta à noite se parece mais com os ladrões. Preferiu, mesmo assim, continuar chorando a se levantar e continuar pedalando e aproveitar o que a noite ainda poderia lhe trazer, de bom ou de ruim... Talvez fosse mais seguro mesmo continuar ali onde sempre esteve...

Malu mal se levanta, e quer voltar para seu ninho de novo...Mas a noite é feita de suor, lágrimas, sorrisos e provocações, muitas provocações..."

quarta-feira, novembro 02, 2005

Chorinho para você musicar

A vida inspira a arte, ou vice-versa?
O sentido requer o hipertexto. Este, ficarei devendo...

Chorinho para você musicar

Te ignoro para não me jogar de novo no teu abraço
Assim eu me defendo do seu pouco caso, do seu descaso.
Te ignoro para não me jogar no teu abraço.
Aberto, mas escasso.
Te ignoro, enquanto não te esqueço,
Porque seu colo é o berço da minha dor.
Ignoro e quando não suporto choro...

Um chorinho descompassado
Como os que você cantou em Santa Tereza
Um chorinho minguado, mal ritmado.
Pois afinal é um choro de tristeza

Só derramo lágrimas.
Não posso derramar qualquer requisição
Por quem nada prometeu.
Eu, "Prometeu acorrentado",
Quero me livrar desse acorde furado,
Desse arremedo de relação.
Antes que venham as despedidas, o espelho quebrado.

[Por isso] Choro um chorinho descompassado
Como aqueles que você cantou em Santa Tereza.
Um chorinho minguado, mal ritmado,
Afinal, é um choro de tristeza.

De repente, a noite virou dia.
Como sempre acontece,
Não mais que de repente, a claridade atravessou a janela.
Meus olhos de ressaca não puderam dissimular.
Me perdi nos seus braços, boemia.
E este poeta chora por não conseguir se encontrar.

Chora um chorinho descompassado
Como os que você cantou em Santa Tereza
Um chorinho minguado, mal ritmado.
Pois, afinal, é um choro de tristeza.

Abandono a métrica, porque não me faz falta
Ela só me atrapalha a inspiração.
Te ignoro para não me jogar nos teus braços, boemia peralta.
Te ignoro e choro, sem métrica nem discrição.

Um chorinho descompassado
Como os que você cantou em Santa Tereza
Um chorinho minguado, mal ritmado.
Pois, afinal, é um choro de tristeza. (MLCM)

“E o meu medo maior é o espelho se quebrar...” (“Espelho”, João Nogueira)
para ouvir “Espelho”, digite Espelho no uol Busca, site http://musica.uol.com.br/radiouol e escolha a versão cantada pelo sambista João Nogueira, do CD Uma Noite Com A Raiz Do Samba.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Infinito

“Você tem medo de descobrir que você não é apenas esse personagem casto que você criou?”

Malu nunca achou que tivesse vocação para a castidade, pelo contrário.
Mas ao ouvir essa frase sentiu como se as palavras formassem um todo, um sólido, pesado, feito única e exclusivamente para ela. As palavras se uniram, cristalizadas em uma só e esta se repetia em sua cabeça.

As últimas experiências, quase traumáticas, fariam com que Malu se questionasse quanto a alguns “tabus” e aquelas palavras ecoaram em seus ouvidos: “Personagem casto”, “Você tem medo”, “Você não é apenas esse personagem...”

Quem as proferiu não merecia crédito algum. Fora derrotado já no segundo round. Contudo, suas palavras, ditas em pleno ringue - poderia ser um ringue de amor, mas não - soaram estranhas aos seus ouvidos. Claro, que não duvidava de que fizera o certo ao repelir aquele ser asqueroso que avançara em seus cabelos, puxando-a para si como o jogador viciado que sente o cheiro da sorte, aposta e raspa a mesa repleta de moedas na primeira rodada de pôquer. Mal sabe que esta é só para animá-lo a lances mais altos.
Quanto maior o vôo, maior a queda. Novamente volto às expectativas. Ou são elas que se voltam contra mim. “Só não quero que você tenha expectativas”. Como me pedem um absurdo desses?! Como ousam contrariar minha natureza: ansiar, aspirar, ambicionar expectante... Ah! Acabo de lembrar! Ouvi que em todas as línguas a palavra “noite” seria a união de n+oito. Bom, a explicação é interessante e até comporta a mudança do “o” pelo “e”. Afinal, não teria cabimento se chamássemos “noito” a cada vez que o sol brigasse com um lado da terra iluminando só o outro.
Que seja noite (com "e")! Ainda assim, vale a observação: night = n+eight (sem o “e”); noche = n+oche (ou ocho, que seja!). Forcemos a coincidência e eis que a palavra noite se revela como constituída pelo número 8 ou ∞, que significa o infinito. De fato, a noite e o infinito são parentes. Quem já não passou por uma noite interminável? Ou quem nunca olhou para uma noite em especial e pensou que esta bem poderia ser infinita? Noite, oite, oito, infinito, infinoito infinoite. Que viagem! Inspirada pelo significado dos números, talvez depois eu fale do “0” à esquerda.

Bom, quanto à viagem de Malu, um simples pernoite (ou pernoito) causou um rebuliço em sua cabeça. Isso porque as palavras do homem desprezível e repugnante ganharam vida própria e ainda a atormentam. Malu sequer festejou sua nova conquista. Na pressa de despedir-se de sua última parada, confiscou uma bicicleta que mais poderia ser uma ‘monocicleta’, dado o estado lamentável da roda traseira.

Novamente com seus cabelos ao vento, Malu prosseguiu pela estrada. Em seu rastro foram aquelas palavras ditas por um zero à esquerda em um momento que pareceu infinito: “Você tem medo de descobrir que você não é apenas esse personagem casto que você criou?”

terça-feira, agosto 30, 2005

2° ROUND

Malu segurava em suas mãos algo estranho. Peludo, corpo mole... Um bicho?! Talvez... Uma espécie de cola na parte inferior a impedia de soltá-lo. Pensou o que teria acontecido para que aquele homem se afasta-se sem que fosse preciso um grito ou um chute estratégico, nada. Apenas se debatera por alguns instantes. Com as pernas imobilizadas, articulou os braços aleatoriamente até que o homem se afastou, sem que Malu tivesse escutado o juiz determinar o fim da luta. Vitória? De quem?!

Seria apenas uma pausa para o golpe de misericórdia? Seria o momento de pedir clemência? Será possível que o inimigo tenha sido tomado por uma súbita compaixão, como o perseguidor de cristãos da Bíblia que se convertera? “Por que me persegues, Saulo?” Bom, sendo assim, pensou Malu, seu oponente deveria estar cego, como o fariseu, personagem bíblico atingido por uma forte luminosidade. A luz que cega é a mesma que ilustra.

Por vezes quando fecho os olhos tudo fica mais claro. Aliás, ultimamente, quanto mais os mantenho abertos menos enxergo. Já não confio no que eles me dizem. Vejo feições que não consigo interpretar e o mundo se dissimula, me pregando peças a todo instante. Malu, igualmente, recusava-se a abrir os seus olhos, tentando se desvencilhar daquele corpo estranho preso às suas mãos. Em vão. Pela respiração ofegante, teve a sensação de que o adversário apenas se preparava para um novo embate. Engano. Curiosa, arriscou um olhar de relance, temendo o que veria. Atordoada, pensou que havia outro homem além daquele com quem acabara de digladiar. Outro oponente?! Como?! Ergueu-se rapidamente. Teve nojo ao notar o vermelho que estampava a toalha jogada ao seu lado. Ainda assim, cobriu-se.

Sentado sobre os escombros daquela guerra sangrenta, um homem. Um outro homem. Cabisbaixo, humilhado... Não! Era o mesmo homem. A mesma mão ferida, os mesmos cordões pesando no pescoço, a blusa desabotoada, o peito à mostra... Era o mesmo. E estava novamente ferido.

Como explicar que Malu detinha entre seus dedos a força de seu adversário? Como imaginar que a determinação de um sujeito fosse abalada com um simples golpe desferido contra sua vaidade?! O Sansão perdera sua força e virilidade, instantanea e subitamente. Uma Dalila contrariada segurava numa das mãos as falsas mechas.

Quando se deu conta do caráter cômico da situação, Malu teve vontade de rir, mas a prudência lhe soprou ao ouvido que talvez não fosse adequado. E quem escuta essa senhora?! Dona prudência... Estamos sempre a contrariá-la. Pior se torna quando somos tomados pela dúvida que atormenta as almas barrocas, indecisas entre a catarse e a contenção:

“Mas desde o Céu a Santa Inteligência
Com doce inspiração mitiga a chama;
Onde a paixão ceda à prudência,
E a razão pode mais, que a ardente flama:
Em Deus na natureza, e na consciência
Conhece, que quer mal quem assim ama;
E que fora sacrílego episódio
Chamar à culpa amor, não chamar-lhe ódio.” (Caramuru: poema épico, de Santa Rita Durão)

(Mais uma vez destôo. Sugerirei que Malu escolha um(a) narrador(a) com menos pretensões a “eu-lírico”)


Catarse! Uma gargalhada ecoou entre os morros. Como quem desfere seguidos golpes sobre o oponente já derrotado, Malu não se conteve. Enquanto se apressava para abandonar o ringue, tripudiava. Numa das mãos, carregou seu merecido troféu, a peruca. Para trás, deixara um Sansão completamente nocauteado.


Vou fechar meus olhos por algumas horas e esperar que faça-se a luz! (Boa noite!)

segunda-feira, agosto 22, 2005

1° ROUND

Uma tinta vermelha coloria o chão. Na verdade, não era uma tinta. Na verdade, não predominava. Aquele vermelho forte que simboliza paixões, que arrebata multidões, que é pano de fundo de uma luta quase tão antiga quanto o pecado original; aquele mesmo vermelho lambuzava toalha e roupas, mas apenas respingava sobre as folhas secas do outono.

O cenário faria qualquer espectador recém-chegado apostar que houvera um confronto. As tábuas que antes serviam para esconder um corpo ensaboado agora estavam caídas. O banheiro improvisado ruíra. Nenhum grande estrago, se compararmos às quedas históricas (a Bastilha, a Bolsa em 29, o Muro de Berlim...) Assim, a queda de um mísero W.C não é nada se comparada a de um W.T.C.

Nenhum dos dois lutadores saberia naquele momento distinguir por onde escorria o sangue. Estamos naqueles ínfimos segundos entre o corte e a dor. Não tenho experiências com cortes. Até poderia falar sobre uma vez que fui tentar descascar uma laranja e “Ai!” Só uma pontada. Outras tantas, quando faço exame de sangue, o médico nunca encontra minha veia. Uma, duas, três... até cinco tentativas. Só uma espetatinha e depois vejo meu sangue jorrar para dentro do tubo de ensaio. Lindo! Não tenho muitas experiências com dores, não com as físicas. Mais com aquelas que desatinam sem doer.

Cá estou eu novamente me intrometendo em uma história que não é a minha. Assim sendo, não vou tentar descrever o corte, a dor, tampouco o amor. Antes de prosseguir, acabo de lembrar de um filme: “O óleo de Lorenzo”. Os pais de um garotinho lutam para curá-lo de uma grave doença. Daí, quando o filho já está quase inconsciente, a mãe fala algo como: “Lorenzo, fale para o seu dedo mindinho falar para sua mão falar para o cérebro ordenar que ele mexa." Acho que é esse o caminho a ser percorrido - mindinho-mão-cérebro-mindinho. Uma música tocante, minhas lágrimas embaçando a visão, Lorenzo aéreo e de repente... O mindinho mexe! Aleluia! Quase desidrato de tanto chorar.

Bom, assim aconteceu. O dedo falou para a mão para falar para o cérebro... “Ai, sua vadia! Você me cortou!” Ofegante e assustada, a autora da obra estava caída sobre as tábuas daquilo que minutos antes era um banheiro. Levantou a cabeça. Como doía! Doía o corpo inteiro. O homem a olhava, furioso, enquanto tentava estancar o sangue com uma toalha.

Em sua mão esquerda Malu ainda segurava o canivete, mas alguma coisa escapulira da outra mão(!!!). Ao perceber uma certa mudança na feição daquele homem, ela rapidamente se deu conta do que faltava. “Vou gritar!” Ameaçou, mas não gritou. Ficou quietinha, em silêncio. Aos poucos sua respiração foi ficando menos descompassada. Os enormes olhos azuis daquele homem foram ficando maiores e mais azuis, à medida que iam se aproximando...

segunda-feira, agosto 15, 2005

Estado onírico

Há quanto tempo seus pés não recebiam uma boa esfregada! Amassados dentro do tênis ou esparramados na sandália, os dedos acumulavam aquela sujeira preta que se acomoda dentro das unhas. A escova estava escura e a água que escorria formando um pequeno lamaçal em volta do banheiro improvisado era da mesma tonalidade.
Malu soltou os cabelos - já na hora de aparar - e aos poucos, bem aos poucos já que o chuveiro retardava o processo, ela foi sentindo o cabelo sendo encharcado.Gélida, a água parecia penetrar em sua cabeça, esfriando seu cérebro, tranqüilizando-a até se sentir alcançar uma outra dimensão, aquela para onde vão os contemplados que conseguem superar anseios e frustrações; ela viajou. Pensou nos próximos lugares que conheceria, pensou em tudo que havia passado, lembrou de sua bicicleta, mas não lamentou, não se inquietou, apenas percorria serena pelos limiares da consciência. Chegava a cantarolar... Era uma melodia que em nada combinava com o lugar, denunciando seu distanciamento.
De repente, um barulho a despertou de seu estado quase onírico. Aliás, sei que a história não é minha e que sou uma mera narradora, mas me veio uma idéia, que preciso expor. Seria a palavra “onírico” da mesma família que “ônus”? Já imagino a professora de latim: “Onírico vem do latim: “ônus”, que significa “aquilo que resulta em perda”.” (Reviravolta na academia! E no Olimpo!) Ainda que pareça uma conjectura absurda, chego a pensar que há um certo sentido. Vejam: quando sonhamos nos tornamos mais vulneráveis, não? E assim mais propícios para cairmos no conto de um vigário mal intencionado. As expectativas ou projeções, disse-me certa vez um amigo, são armadilhas, nas quais só caem os apaixonados e os estatísticos.

Voltando à história... Malu reconhecera aquele chacoalhar. E este se aproximava cada vez mais. Em tempo, o canivete estava na mão esquerda. A direita garantia que a toalha permanece enrolada ao corpo, desnudo e molhado. Enfim, o presente de seu pai serviria para algo além de descascar frutas.

Devo confessar que essa história de onírico me deixou com sono. Vou dormir um pouco. Mas tomarei o devido cuidado para não sonhar. (Como se pudéssemos evitar...)

sábado, agosto 13, 2005

Hora do banho...

O copo estava sujo. No leite boiava a nata. Malu detesta nata. Imaginou que, se pedisse para a moça coar, os olhos daqueles senhores se convergiriam em sua direção. Não era o lugar próprio para frescuras desse tipo. Tentou beber se esquivando da nata. Quanto ao misto, já fora quente um dia.

Enquanto ela comia, notou que o sujeito do cigarro não desviava os olhos. Se esforçou para ignorá-lo, mas isso parece extremamente difícil quando nos forçamos a fazê-lo. É como numa festa, onde tentamos ao máximo não olhar na direção daquele certo rapaz. Contudo, parece que o canto do olho age involuntariamente nessas ocasiões. Bom, neste caso, Malu não desejava que aquele sujeito a abordasse e o canto de seu olho parecia agir guiado por um instinto de sobrevivência. A cada movimento denunciado pelo barulho das correntes, Malu estremecia, temendo que ele se aproximasse. Não se aproximou. Não naquele momento.

Terminando de degustar o banquete, ela procurou se informar sobre a possibilidade de encontrar um cantinho para se recostar até o amanhecer. Não haveria outro jeito.

A alguns metros dali encontrou uma meia dúzia de casas. Famílias construíram seus barracos na beira da estrada. Um dia ainda serão despejadas por alguém que chegará dizendo que quer desenvolver a região pá ta ti, pá ta ta... E vai ser patada para todo lado se alguém ousar dizer que não sai.

Malu dormiu numa casa de família. Uma grande família. Pessoas simples, mas bastante atenciosas. Num mesmo cômodo dormiam pai, mãe e cinco filhos. Como sempre cabe espaço para mais um ou mais uma... Coluna castigada e a viajante se esticou num cantinho apertado da casa, quase junto da porta que dava para a varanda. Mais um pouco dormiria ao relento.

Já caía tranqüila nos braços de Morfeu quando nossa amiga foi acordada por um choro. Um choro miúdo, fraquinho, como se fosse abafado pelas mãos de um sujeito asqueroso que no meio da noite procura um corpo novo, rosadinho e... “Sai de cima dela, seu porco imundo!”, quase gritou. Antes que o fizesse, Malu viu que era a mais velha das filhas e, na verdade, não era propriamente um choro. Não era dor, concluiu. Deixou os dois sozinhos.

De seu colchão, próximo à porta, viu um senhor sair ajeitando as calças. O barulho das correntes não deixou dúvidas. Ao amanhecer, a filha mais velha foi a primeira a se levantar. Só faltava o véu para coroar tanta candura. Embora a menina não aparentasse, já passava dos vinte. Nesses lugares apegados aos costumes mais antigos, pensou Malu, já ficava para titia. Por aquelas bandas casava-se cedo. Foi assim que uma após a outra as casas foram sendo construídas. Quem casa, quer casa. Ainda mais embuchada. Uma roça na frente, umas galinhas no fundo e por pouco não se passava fome.

Malu juntou suas coisas e foi tomar banho. O banheiro ficava um pouco acima do nível das casas, ao pé do morro. Era nojento. Em um buraco todos faziam as necessidades e aquela visitante chegou a pensar que talvez os dejetos carregados pela água das chuvas poderiam chegar até as roças. Por via das dúvidas, não ficaria para o almoço. Foi difícil se concentrar na posição em que se encontrava. Puxou a calça até os joelhos para evitar que entrasse em contato com a terra. Tudo fedia terrivelmente. Malu se agachou e... Bom, detalhes podem até serem bons para reforçar a veracidade dos fatos, mas há um limite.

Por trás de algumas tábuas de madeira estava escondido um corpo desnudo, que após dias finalmente se banhava com a água que caia timidamente de um chuveiro improvisado, assim como todo o resto. Malu teve a impressão de que alguém a vigiava. Talvez fosse só impressão, mas por via das dúvidas tratou de se apressar.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Lá vem ela de novo...

Ela sumiu. Deixou de se comunicar. Precisava de um tempo para definir novos rumos. Daí que desde a última vez que ouvimos falar da moça, muita coisa aconteceu. Muita água rolou debaixo da ponte. E quem tem tiver fôlego que acompanhe...

O trem pára. Malu desce. Passara algumas horas vendo mato, mato e mais mato. Pensou "como é impressionante haver disputa por terra num país tão grande, com tanta terra vazia... Colocam uns bois e pronto! A terra é produtiva!"

Quando o trem parou, ela saltou. Não avistava viva alma. Só uns bois magros morro acima. Aliás, morro era o que não faltava. Não saberia descrever a vegetação, mas pensou que já não estava no Estado do Rio de Janeiro. Minas, talvez... Se ao menos encontrasse alguém que falasse “uai” ou “trem bão” - estereótipos - ela se certificaria. Se ao menos sentisse um cheirinho de pão de queijo, tutu à mineira... Humm! O estômago reclamava.

Ela caminhou até a estrada a alguns metros do trilho. Nada. Nem viva alma. Pensou que talvez fosse perigoso pegar carona com um estranho... E que outra alternativa, ora?! Para alguém que decide sair mundo afora pedalando não deveria haver tempo ruim. Acontece que ter perdido a bicicleta deixara nossa amiga viajante e desbravadora subitamente um tanto cautelosa. Não o suficiente.

Passou um caminhão e ela fez sinal. Antes da carona, veio a pergunta sem resposta: “Para onde a menina quer ir?” Qualquer lugar, ela diria. Muito vago... “Só até a próxima cidade ou o próximo posto.” Nem mais uma palavra pelos próximos quarenta minutos.

Malu dormia, quando sentiu uma mão em seu rosto. Mão áspera... Era o motorista. “Chegamos, menina”. Rapidamente, ela se ajeitou, pegou suas coisa e desceu do caminhão. “Fico por aqui mesmo, obrigada!” Descera em um lugar um tanto impróprio. Logo deu de cara com um estranho sujeito. Não tanto pelo chapéu preto ou pelos óculos escuros e grandes, pelas correntes douradas que pareciam pesar em seu pescoço ou pela calça sambando nos quadris. Não tanto pelo modo como fumava seu cigarro, levando-o à boca, tragando e soltando a fumaça, como se gozasse a cada baforada no vazio. Não era nada disso. Era o conjunto. O lugar, o contexto. O clima frio, a noite que ameaçava cair, um cachorro cheio de feridas purulentas que se esgueirava ao redor da lixeira disputando com um moleque qualquer resto de comida, a luz amarela e fraca, alguns poucos caminhoneiros que devoravam a bóia quase como animais...

Malu pôs a mochila nas costas e caminhou em passou lentos, como quem se sente espreitado. Foi até o balcão e pediu: “Leite quente e um misto, por favor”. Um pequeno banquete para seu estomago faminto.

Bom, desculpem se a opção pelos detalhes torna a narrativa lenta. Simplesmente, quero ser fiel aos fatos.
Uma pausa para o café. Também tenho fome. Já continuo...