domingo, maio 28, 2006

La reina (Pablo Neruda)

Yo te he nombrado reina.
Hay más altas que tú, más altas.
Hay más puras que tú, más puras.
Hay más bellas que tú. Hay más bellas.
Pero tú eres la reina.
Cuando vas por las calles
nadie te reconoce.
Nadie ve tu corona de cristal, nadie mira
la alfombra de oro rojo
que pisas cuando pasas.
Y cuando asomas,
suenan todos los ríos
en mi cuerpo, sacuden
el cielo las campanas
y un himno llena el mundo.
Sólo tú y yo,
sólo tú y yo, amor mío,
lo escuchamos.

domingo, maio 14, 2006

NOVO!!!

Malu de bicicleta quer interagir com você!!! A partir de agora, você poderá votar na nossa enquete.

*Caso as opções não sejam suficientes ou, se você quiser expressar sua opinião,vivemos em um país democrático! COMENTE À VONTADE!

Leia a "Carta ao Zézim", de Caio Fernando Abreu, e responda: "Qual o momento mais importante quando você escreve um texto?!"

domingo, maio 07, 2006

Carta ao Zézim

“Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta.”

Caio Fernando Abreu
Coloquei as palavras de castigo por não conseguirem expressar o que estou sentindo.
Ass: Engasgada.

sábado, maio 06, 2006

A carta de Gregória

A Jesus Cristo Nosso Senhor
"Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tăo repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a e queirais, Pastor Divino,
não perder na Vossa ovelha a Vossa glória."
--Gregório de Matos (1623-1696)



Mãe, feliz dia das mães. Submeto-me às comemorações oportunas ao comércio, embora eu bem saiba que, tão logo passar este segundo domingo de maio, o foco mudará e muitas mães permanecerão ocupando seus lugares entre a mobília.

Não é o seu caso.

Devo dizer que a grana estava curta e este ano não haverá presente embrulhado sobre a cama, rosas, cestas ou homenagens dispendiosas. Não tome esta falta como se representasse outras (falta de amor, por exemplo). Além disso, como sabe, o trabalho e os estudos me consomem. Cansada, mal tenho ânimo para lhe remeter esta carta. Mas a data não passará em branco. Seu presente agora se põe a escrever estas poucas linhas.

Minha Senhora, esta ovelha vem lembrar-lhe que Vossa glória reside na capacidade maternal de abstrair, relevar, perdoar, doar-se e amar incondicionalmente.

Meus erros recorrentes se traduzem em superioridade quando confrontados com Vossa habilidade maternal para compreender todos meus traços de imperfeição.

Portanto, neste momento afirmo: Eu sou o seu presente, pois lhe dou a chance de ser melhor a cada dia.

Não me agradeça.

Um beijo da filha que te ama,

Gregória.

sábado, abril 22, 2006

V = ∆S / ∆t

Em quinze dias ela aprendeu a andar de bicicleta. Tombou algumas vezes. Chegou de lábios inchados e vermelhos, joelhos ralados, manchas roxas... Um aprendizado dolorido e colorido. Ela sobe na bicicleta e precisa de uma mãozinha amiga e "prima" para se equilibrar. Mas em pouco tempo ela já consegue tomar impulso sozinha. E o primeiro passo para o equilíbrio é não pensar no desequilíbrio. De queda em queda as duas rodas vão se tornando suficientes e ela aprende a frear no momento certo: antes de colidir com postes, meio-fio, pedestres, carrinho de pipoca, árvore, banco de praça e o que for. Arrastada de seu tempo costumeiro, a experiência de aprender a deslocar-se sobre duas rodas chega para ela no momento em que já conquistou o equilíbrio da maturidade. Antes, quando ainda alimentava uma infantil instabilidade emocional, lhe fora vetada uma prática que só cabia aos homens; abrir as pernas em posição tão erótica quanto aquela que exige a pervertida estrutura de uma bicicleta. A mentalidade de um adulto, que impregnou o brinquedo com uma pudica promiscuidade, retardou o aprendizado dela, que agora sem nenhum pudor, solta cada perna para um lado do banco e faz sobre os pedais a força transmitida para a roda traseira através da corrente. E, exercitando o físico e a Física, ela comprova a cada pedalada a equação básica V = ∆S / ∆t. Ou seja: a vitória é igual à Variação de Suor dividida pela Variação de tombos.


Continua...
*Este texto foi escrito com base na experiência real da mais nova ciclista de Niterói-RJ.

sexta-feira, abril 07, 2006

Fazendo sacanagem...


A menina, 10 anos ou menos, convidou o tio:

- Tio, vamos fazer uma sacanagem?!

O tio se assustou e logo pensou como essas crianças de hoje em dia estão precoces e como isso queima etapas e como é preciso rever a educação das nossas crianças e que a TV é a grande culpada e que os pais estão muito ausentes, porque têm que trabalhar o dia todo para ganhar uma miséria, e que a exploração pelo capital corrói a sociedade, compromete os valores da família e blá blá blá blá...

O pai da menina se aproximou e perguntou qual o motivo da indignação do cunhado.

- Cumpadre, não sabe o que acabo de ouvir da sua filha.
- O que?!
- Ela me disse: "Tio, vamos fazer uma sacanagem?"
- E você esperou que ela terminasse?

O tio balançou a cabeça respondendo que não.

- Então espere ela terminar o convite.

E o tio, constrangido, perguntou para sobrinha qual sacanagem ela queria fazer com ele.

E, com um jeitinho indecente que só as crianças mais puras conseguem ter, a menina respondeu risonha:

- Tio, vamos apertá a campainha do vizinho e saí correndo?

quinta-feira, março 30, 2006

PRESSA


“Nossas emoções cabem em uma hora e meia?” Embrulho minhas emoções para presente, sem retocá-las um milímetro, sem maquiá-las. Em seguida, faço uma oferenda para o mundo ou para o recorte dele que colei no meu mural de fotos, de instantes e pessoas importantes. O pacote é feito de tempo e tem prazo de validade. Passado o prazo se abrirá forçando um desnudar completo de minhas emoções. É como uma criança no ventre da mãe, que permanece embrulhada pelo tempo exato da gestação e encerrado o prazo rasga avidamente a cortina que lhe dá acesso ao mundo. Corre-se para desembrulhar o presente, choro, catarse... Qual o tempo necessário para empacotar cada emoção? E se ela nascer desnuda de um estouro, derramando-se sem hora pré- determinada, sem anestesia? Em uma hora e meia cabe a emoção de um bom resultado na prova do colégio. Mas não cabe a emoção de um primeiro beijo, menos ainda do último. Uma hora e meia é um embrulho enorme para a emoção de um torcedor que vibra com o gol do seu time no amistoso. Mas é extremamente pequeno se este embrulho guarda a emoção pelo gol da seleção aos 48 minutos do segundo tempo na final da Copa do Mundo. Aqueles que pedem a mim uma emoção compacta, envolta no tempo que me é concedido entre um reclame e outro, não entendem de emoção nem de tempo. Minha ansiedade de ver a cortina se abrir é enorme, corro para chegar logo o momento de ver minhas emoções no palco. Não se disfarçando ou se contorcendo para caber no tempo do espetáculo, uma hora e meia. Quero minhas emoções livres das amarras. Amarras que oprimem, me obrigando a sentir no compasso dos ponteiros. Amarras de um belo embrulho que transforma minhas emoções em presentes, aprisionados pelas correntes das perspectivas em relação ao futuro.

terça-feira, março 14, 2006

"EU TE _ _ _"

Saio da minha experiência hermética e me exponho ao transe. Ao transe de um indivíduo em busca da troca. De um indivíduo que aguarda profunda e ardentemente a oportunidade de deixar sua individualidade solitária. A oportunidade de pertencer sem carecer ou depender. A chance de compartilhar sem temer a vulnerabilidade de conjugar o famigerado verbo na primeira do singular: "EU TE ...". Mas conjugar sem o receio angustiante da flexão no plural: "Nós nos...?"

Entrego-me ao transe de discorrer sobre algo que não conheço. Surpreso, leitor?! E, por acaso, você conhece? De qual tipo? Sim, há tipos, Vários! Conhece o de Camões? Ou o de Vinicius? Ou, quem sabe, não inventou um tipo novo em suas andanças?! Sem problemas, leitor passivo. Não precisa se abrir. Afinal, quem se expôs ao transe fui eu. Exposição, uma atitude difícil, encantadora. Como um quadro na galeria ou como uma bailarina na caixinha musical é fácil. Desafio-o a tentar a exposição tal qual a de um crooner amador que sempre recebe vaias, mas arrisca-se todas as noites a, quem sabe, ser ovacionado. Afinal, conjugar este famigerado sentimento – você sabe qual – é um desafio para iniciantes e doutores. A última é sempre a primeira vez.


Acostumado a rimar sempre com terminações em “OR”, quase me surpreendi pedindo “Por favor!” Surpreso, leitor?! Pois saiba que esse conjugar complicado não aceita orgulho, tampouco vaidade. Rima-se com “dor” e com “felicidade”. Sim, ao mesmo tempo. Ora, sei sabendo! De ouvir dizer, de ver na TV, de ler nos livros, de ver nos aeroportos, nos portos... Claro, rima-se com partida e chegada, com saudade, com cessão, com sessão... É possível rimar com fantasia, com realidade, com perenidade, com eternidade. Mas, devo confessar, estas últimas rimas me parecem bastante escassas, como me parece escasso o.... Você sabe o quê. Como? Medo? Não! Só não quero falar dele hoje. Por quê? Nada de mais, não quero e não vou. Posso voltar ao meu transe?! Obrigada!

Entre um fogo que arde sem se ver e algo finito posto que é chama? Não sei. Não queria me queimar. Inevitável? Você acha? Mas por que cargas d’água tem porque tem que ser desse jeito masoquista? Você ri? É trágico! Sei, engraçado porque não é você que está na berlinda. Eu sei. Conjuga-lo é colocar-se nela, na berlinda. Sim, “lo” é “ele”. Não adianta, não vou pronunciá-lo. Ainda não. Não hoje. Amanhã, talvez. (MLCM)

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

"O tempo não pára!"

Insônia

A madrugada me abriga poeta.
Foge a expectativa de ver Morfeu se aproximar
As palavras entram em ebulição
Pedindo um lugar no papel.
A noite é o jardim onde semeio
Dúvida, anseio e esperança.
A noite me abriga mulher
Me brinca criança.
Quando o silêncio impera
Faz-se euforia interna
Minh’ alma entra em festa
Meus olhos se abrem arregalados
Sou iluminista e revolucionária.
Incendiária, lidero multidões.
Escrevo o manifesto dos loucos
E recito publicamente entre quatro paredes.
Próximo passo: resgatar a sanidade.
À noite, infinita enquanto noite,
O passado me visita
Ganha a forma desafiante da inspiração
Ou se traveste de nostalgia.
Os cães ladram e a carruagem estaciona,
Enquanto dorme a cidade.
Sobra tempo para vestir cada ilusão
E desfilar pelo mármore cristalizado
Construo mil cenários.
Sou múltipla persona, ser fragmentado.
Sambo na ágora, senado boquiaberto.
Sou Baco e Apolo na festa do vinho.
Toureio na Acrópole para as ruínas do Parthenon.
A noite fricciona em minha pele
A aspereza da solidão
E a tez aveludada das possibilidades.
À noite posso perder o ritmo e a rima
Me permito pecadinhos e heresias
E enquanto adormece a Divindade
Posso abdicar das boas maneiras,
Abrir mão do pudor e deslizar na luxúria.
Só o que me freia é a contradição.
Aquela que me alicia, também atemoriza.
Então sinto falta de ombro, mãos e conivência.
É quando durmo, embriagada de sono e ansiedade.

(Malu de Bicicleta)
***

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Jardim

"Meu conceito de jardim determina o que é praga ao redor de mim..."
(Affonso Romano)
Mas também determina o que é flor. E isso o Affonso Romano esqueceu de mencionar.
Eu lembro sempre.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A BANCA E O JOGO

“Inquirido disse: Que no dia de hoje, por volta das 14 horas e 45 minutos, a declarante caminhava pela Praia de Botafogo, em sentido ao Botafogo Praia Shopping, pelo calçadão, quando em frente à rua Farani, um grupo de três indivíduos que aparentavam ter entre doze e quinze anos, que com a mão sob a camisa, aparentando estar armado, um dos jovens disse: “Passa o celular e o dinheiro!”, sendo atendido; Que após o roubo, o grupo seguiu caminhando pelo calçadão em sentido ao Aterro do Flamengo, quando a declarante ouviu alguém gritar e olhou para trás...”
A declarante sou eu. Quisera não fosse. Quisera não tivesse nada a declarar. Mas tinha. Tinha muito mais do que me permitia o espaço reservado para meu depoimento, enquanto vítima e testemunha. Testemunha da insensibilidade humana, testemunha do desespero, da banalização, bem como da indignação e do medo quando transformados em individualismo e perversidade. A contragosto testemunhei tudo isso no dia mais triste de toda minha vida. Uma vida de poucos dias tristes, o que não minimiza o sofrimento do qual fui uma mera testemunha ocular.
Pudesse acrescentar alguns detalhes ao meu depoimento, assim o faria...
Que no dia de hoje, por volta das 14 horas e 45 minutos, a declarante, eu, caminhava pela Praia de Botafogo, trajando seu vestido novo, que fez questão de estrear no dia em que suas horas mal dormidas e todo seu esforço seriam recompensados e reconhecidos: “A Banca Examinadora, após argüição, decidiu pela aprovação com grau 100”. Possivelmente, sem perceber, a declarante, eu, trajava um sorriso de vitória ao ser abordada por três indivíduos enquanto caminhava pela Praia de Botafogo em sentido ao Botafogo Praia Shopping; (...) Que após o roubo, o grupo seguiu caminhando pelo calçadão em sentido ao Aterro do Flamengo, quando a declarante ouviu alguém gritar, olhou para trás e viu algo voar no céu, dar piruetas no ar a cair imóvel no asfalto que queimava sob o sol de 40 graus.
“Que deseja esclarecer que o taxista, autor do atropelamento não pôde evitar o acidente por se tratar de uma pista de alta velocidade e ter desviado dos outros dois indivíduos momentos antes, vindo a colher a vítima; Que com o indivíduo atropelado foi arrecadado o telefone e o porta-níquel com o dinheiro da declarante, sendo a vítima do atropelamento reconhecida ainda no local como um dos autores do roubo que fora vítima no dia de hoje...”
Eu, que prestei depoimento, que fui abordada, roubada e algumas horas depois obtive na 10ª DP meus pertences de volta; dos quatro, eu já não era tão vítima. Não conseguia me sentir vítima, tampouco lesada, vendo o sofrimento daquele garoto agonizando diante dos policiais e taxistas.
Trânsito lento, curiosos passam, espiam. Mais um acidente, como tantos que ocorrem pela cidade, pelo país. Fez por merecer. Ora, procurou!Tem mais é que morrer! Pior é que vai sobreviver e, réu, vai fazer outras vítimas. Garotos como ele, assaltam, roubam e até matam! Sem dó nem piedade. E aos 18 anos, voltam a ter a ficha limpa. Esse mundo é muito injusto... Infelizmente os outros dois escaparam. Antes tivessem sido lambidos pelo táxi, rodados no ar e caído agonizantes no chão. Esses garotos têm sete vidas e ainda gastam nossos impostos ao serem atendidos em hospitais públicos. O coitado fritou no asfalto! E que prejuízo esse garoto não deu ao se jogar na frente do táxi que passava, no mínimo, a 70 km/h. Uns R$ 500, calcula o taxista, candidatando-se ao posto de quinta vítima. Por enquanto, somos quatro, os três garotos e eu, testemunha e declarante.
Olhando o corpo no chão, imóvel enquanto não chegava o carro dos bombeiros, pensei na história dele. Um pé do chinelo jogado longe, talvez número 36, talvez aquariano como eu, talvez João, talvez Wellington, talvez irmão de mais 10, talvez filho único, talvez, talvez... Mas o que importa? Afinal, naquele instante era um corpo, era o corpo de um pivete que após se exibir dando piruetas no ar, permanecia segurando firme meu porta-nível e meu celular, devidamente resgatados depois que eu, caprichosamente, assinei três vias de um documento lá na 10ª.
O corpo. Sei que isso é desagradável, mas ainda tenho algo a declarar. Não sai da minha cabeça aquele corpo de bruços, aquela respiração ou qualquer coisa parecida que fazia as costas levantarem e descerem, levantarem e descerem num ritmo bem marcado, acelerado, como um animal abatido que resiste só por resistir, sem qualquer pretensão, apenas insiste em sobreviver.
Hoje eu fui testemunha ocular do visível e do invisível. Testemunhei horrorizada que a vida vale muito pouco nesses dias. Testemunhei que existe a pena de morte no meu país, debutante nas questões democráticas. Testemunhei que a sentença é dada sumariamente aos delinqüentes juvenis sem passado, sem história, sem desculpa, sem conserto, sem identidade. Apenas “pivete”. Ou o carinhoso e irônico diminutivo: “pivetinho”.
A declarante, eu, fui testemunha e vítima. Uma vítima que não se reconhece como tal. Uma vítima boba, complacente com os infratores, ladrões, delinqüentes... Indivíduos que lesam a sociedade de bem, que paga seus impostos e se ressente pela falta de segurança que assola este país.
Hoje, a historiadora aprendeu, na prática, as regras do jogo. Aprendeu como vivem indivíduos clandestinos, sem passado, sem história, sem justificativas. E por isso, previamente culpados.

domingo, fevereiro 05, 2006

Desafio

"Vou com um sorriso no rosto e uma idéia na cabeça!
Depois dessa montanha (que daqui parece enorme), espero encontrar algumas ladeiras para deslizar feliz. Até os próximos desafios..."

Malu de bicicleta

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Moeda da sorte

Moeda da sorte
Inspirado em "BROWN PENNY" (Moeda Marrom)
by William Butler Yeats


Eu sussurrei: “Sou muito jovem”
E depois: “Envelheci o bastante.”
Então, joguei uma moeda
Para descobrir se eu seria amada

Ah! Moeda da sorte, moeda dourada,
Diga-me onde encontro o amor
Qual o sentido, qual a direção?
Como alcanço sua morada?

“Não escale a montanha vigiando a queda”.
Ah! Moeda dourada, dourada moeda,
Fui seduzida por um ritmo descompassado.
Meu par de novo bateu em retirada.

Como conter minha precipitação para saber o amor?
Como ser sábia e não viver a ansiedade?
O dia chega e flagra meu torpor.
Será o amanhecer um convite à possibilidade?

A música ainda toca ao fundo...
Ah! Moeda da sorte, dourada moeda.
Eu sei, cedo demais para um coração tão contrariado.
Mas esta noite a lua minguou e o tapete negro estava apagado.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Um convite para o dia seguinte...

Convite

CONVITE

Boemia, venha ver o pôr do sol!
É cedo para você, mas tarde para quem madruga antes das 6.
Quando ele mergulhar e você enfim aparecer
Não vá dizer que não avisei.
Não adianta me culpar pelo estrago que você fez.
Boemia, venha ver o astro rei
Sem essa de sair só depois que a noite ancorar
Deixa de história, para de se enfeitar.
Boemia, ele já está sumindo...
Corre se não vai perder
Deixa pr’a lá o que tiver de fazer
Isso não é ansiedade, tampouco afobação.
Quem lhe chama é a cidade, é São Sebastião.
Boemia, deixa seu tambor um pouco de lado
Vem batucar no meu terreiro
A chamo para ver o espetáculo
Você diz que só no próximo fevereiro.
Boemia, por que espera a festa da carne?!
A comemoração é agora!
Boemia, venha ver o pôr do sol!
Minha cara, que demora!
Já era... ele mergulhou.
Um bêbado se insinua...
Quer lhe pagar uma bebida, fazer uma brincadeira...
A noite é sua, nua, faça bom proveito!
Mas quando o sol escancarar sua bebedeira
Boemia, minha cara, sua graça não terá mais efeito.

MLCM

sexta-feira, janeiro 06, 2006

"Loucura"

Malu conheceu uma senhora cujo filho, esquizofrênico, está internado. Ao escutá-la narrar seu sofrimento de mãe vendo as ilusões da mente perturbada de seu filho, ela fingiu uma força que desapareceu mais tarde, quando veio um choro inexplicável.

"Ela" se destaca mais pela paixão de suas esculturas, pela riqueza de sua percepção do mundo modelada no barro, no bronze... Mas era a "loucura" de Camille Claudel que se fixara na mente de Malu enquanto ouvia a senhora. Aquela mãe contava algumas das alucinações de seu filho, que comemora todo dia o aniversário da irmã e não se alimenta porque seus olhos lhe pregam peças e acusam a existência de bichos em sua comida. A agressividade de um jovem, vítima das seqüelas da dependência química, e o descontrole sobre os instintos sexuais são episódios deprimentes de uma vida esmagada pela loucura.
Mas o que é a loucura? Serão os loucos realmente loucos? Serão os sãos realmente sãos?

O que dizer para aquela mãe? O que "Malu no país das maravilhas" pode dizer? Apenas que todos temos nossas "loucuras", nossas alucinações. Malu de bicicleta teme a escuridão. Tenta se convencer do contrário, mas quando confrontada com a imprevisibilidade que há na ausência de luz ela imagina que há pessoas a espreitá-la. Há casos sérios de pessoas que têm graves alucinações ao se apropriar de coisas alheias e afirmarem convictas total inocência no banco dos réus ou das CPIs da vida. Há outros que passam a vida desejando que o fracasso alheio se traduza magicamente em seu sucesso instantâneo. Cadê as camisas de força?! Estariam escassas no grande mercado da impunidade?!

A loucura é algo dolorido - não deixo de imaginar Camille quebrando todo seu ateliê pouco antes de ser internada. Mas também é curioso pensarmos que os loucos de hoje podem ser os gênios criativos, a escultora brilhante, o inventor magnífico... Tudo no magnífico amanhã, o senhor dos contrastes. Para Malu, um reservatório empolgante de possibilidades e um enorme e assustador buraco negro, cheio de imprevisibilidade.
"Mais louco é quem me diz que não é feliz..."

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Licença poética

Até quando?
Até quando vou atravessar os outros como se eu estivesse dentro de um carro olhando a vida correr lá fora e esperando o momento certo de descer? Até quando vou sentir que há um sinal fechado logo ali adiante, justamente em frente àquele lugar onde eu queria dar uma paradinha, e quem sabe ficar um tempo? Até quando vou me cansar de um ano e correr para comprar a agenda do seguinte, tentando recomeçar a viagem que já dura mais de 20 primaveras. Até quando vou fazer questão de me jogar do carro justo nos lugares mais obscuros só para me certificar de que não estou perdendo alguma luz escondidinha e impossível de se ver da homogeneidade retilínea da estrada? Até onde vou ter que ir para encontrar o lugar que estava no cantinho do mapa que rasgou? Até quando vou procurar justamente pelo cantinho rasgado, quando há um mapa enorme indicando novas direções, novas possibilidades? Até quando vou me perguntar “quantos quilômetros faltam?!”? E quantos quilômetros faltam? E aquela sensação de que esqueci de carregar algo para essa viagem? Algo, que não encontrarei em nenhuma parada na beira da estrada, mas que, eu sinto, me fará uma falta enorme! É uma bagagem, uma leitura, um contato, um lugar, uma experiência, uma tentativa, um erro, um desafio, uma bobagem estratégica só para contrastar, só para dispersar... É uma nota, uma melodia, uma história, uma patota, uma farra, “um espinho na mão, um corte no pé”, uma meditação, uma pausa para ir mais longe... Mas onde mesmo?!



"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente"(Carlos Drummond de Andrade)


Stop!
O carro parou
Ou foi a vida?
**Malu de bicicleta passa bem. Estava um pouco desidratada, chegou a ter algumas alucinações. Imaginem que ela pensou que podia parar o tempo para descansar um pouquinho...

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Planície

Morro acima. Morro abaixo. E mais morro, morro. E quase morro de tanto morro.

Assim Malu de bicicleta traduziria seus últimos dias. Longas subidas... Trajetos inclinados, 40, 50°. E o tempo, por aí: 40, 50°... Sede, muita sede. A garganta foi ficando seca, as pontas dos dedos geladas, a visão turva, escura... pow! Desculpem os sonoplastas de plantão, mas essa onomatopéia foi exatamente o tombo. Não o primeiro, apenas um dos muitos. Lá no alto do morro, Malu foi ao chão. Desidratada, torrou sob o sol. O solo recebera seu corpo de forma grosseira, sem a recepção calorosa de um colchão, de uma rede, da areia, da água... Água! Quem dera... O morro se tornou maior, mais alto, parecia alcançar o céu. E por isso faltou pouco para que se assemelhasse com Malu, que quase ia encontrar com o pai sem sequer marcar hora. No alto do morro, ela mirra, morre e ninguém socorre. Triste fim.


Um resquício de consciência e Malu pensa que já havia subido tanto! Já era para ter chegado... Algo estranho acontecia com aquele morro que a cada dez passos se esticava vinte, numa progressão alucinante. Com seu resquício de consciência, já num estado de delírio, aquele chão de terra batida, rachado pelo sol, ficou mais confortável. Uma nuvem cinza e pesada encobriu o sol e fez chover água de banhar e água de beber. Uma brisa um pouco mais atrevida levantou-lhe o vestido que ia até abaixo do joelho. Braços fortes e sadios ergueram seu corpo que parecia ter se separado da alma ao ser suspenso em um único segundo. Daí, mais morro. Morro, morro, morro...

sábado, dezembro 03, 2005

Roda Vida

"Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração"

Roda Vida (Chico Buarque)


“O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração”.

Ela adormeceu um instante e quando voltou nada parava no lugar. A rotação da Terra seguia em passos retardados, débeis como seu sangue... Ela não saiu do lugar em que estava, continuou rodando naquela mesma roda que se soltou da bicicleta, apostando em novos rumos. E, como aquela roda, ela quis também se soltar, deixar seu jeito insosso, ser de carne e osso e rodar... No cotidiano a inércia não admite impulsos e ordena: que tudo permaneça igual, à menos que haja... atrito!

O sangue desacelerou em seu percurso sempre tão frenético, ele sempre tão preocupado em dar tempo, atarefado com a responsabilidade de enxaguar constantemente todo o corpo... Assim foi. Um coração arrebatado permitiu o atraso, ele próprio consentiu em bombear mais devagar... E o sangue deu suas voltas lentamente, retardando todo o resto.


Uma voz ébria aconselhou: “Por hoje deixe rodar, pois amanhã tudo permanecerá como sempre...” Insossamente parado.

No picadeiro, ela foi a atração. Rodou, rodou, se permitiu rodar...

A roda roda,
ela roda
na roda de samba,
o samba roda
ela roda,
bamba, samba...


O improvável é o desconforto, mas é também uma brecha mágica para a fascinante descoberta do inverso, do que é adverso, da falta de verso, de métrica, de rima. Quando a rotação cessa: surpresa! O acaso te surpreendeu mais uma vez.


“Me cobrir de humanidade me fascina...
Perfeição demais
Me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontra um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso...” (Mosca - Zélia)


Malu de bicicleta descobriu que tinha as ferramentas guardadas consigo e consertou ela mesma sua bicicleta. De novo em linha reta, busca seguir viagem... O circo ficou para trás, será?!