segunda-feira, março 15, 2010

Apresentando um poeta...

Há algum tempo estou querendo apresentar o livro (acima) do historiador, poeta, músico e amigo Guilherme Gonçalves. Até para mim, que conheço o autor desde que cursamos História no delicioso campus da UniRio, na Urca, foi uma grata surpresa abrir O peso da pena e as primeiras alegorias. Nos detalhes, Guilherme nos leva a viajar pelo mundo das suas profundas e deliciosas reflexões... Suas primeiras alegorias tem variadas trilhas sonoras: desde o poema Eu e ele - escrito ao som de Radiohead -, até Shiva, acompanhado pela Bachiana brasileira nº5 (Ária Cantilena). Em Contrações, ao som de Björk, a forma do poema incorpora a imagem do título; um vai e vem de metáforas àsperas e singelas.

Política, amor, sexo, paixão, alienação, História, golpes e revoluções, dor e êxtase: tudo é matéria prima.


"...o mundo
se abre com pernas de Afrodite
exalando odores íntimos
e pare, o amanhã descolando seus pulmões
espumando azul, meu coração não suporta
ouvir seu choro, lindo, lindo, como sempre soube"

(...)

"sinto-o chutar meu ventre seco
liquefazendo-me, em contrações
a viver o corpo entrevado que se agita"

Projeto 2009: o livro
A ideia, o conteúdo, a forma; tudo ganhou a marca da sensibilidade desse outro Gonçalves que, além de autor, assina o projeto editorial. Não sei ao certo quanto tempo demorou para a conclusão d'O peso da pena, mas sei que a concepção foi pra lá de demorada. Há um bom tempo escuto-o falando sobre o rebento que um dia viria ao mundo como produção independente. O projeto, concluído com a impressão de algumas dezenas de exemplares, dá agora lugar a outro: divulgar ainda mais suas alegorias. Quem sabe alguma editora não se habilita e dá uma forcinha?!

Produção independente

Ao contrário das concepções in vitro, a de Guilherme ocorrera 'na expansão do universo.' Suas intensas palavras versam sobre as coisas gigantes: "A saga do poeta é aspirar ao total, e diante do total, há muito pouco a ser dito". Talvez por isso, numa dialética bem armada, Guilherme acabe se dedicado a "capturar a fração, o instante preciso de sua revelação". A erudição do autor é somada à sua capacidade de sentir e de deixar-se afetar pela grandeza das coisas prosaicas, bem como pelo cotidiano das grandes experiências e potenciais transformações.

"Pois a tarefa de gentilizar o homem é a pena mais pesada
e a pena, não esqueçamos, por mais longa e pesarosa,
é também a memória da asa".


Com esse livro, por fim, Guilherme nos mostra uma forma muito boa de driblar "o peso da pena". Talvez deixando jorrar toda sua tinta sobre um papel, dando a ela o formato de belas poesias.





contato com o autor: guilherme_sazonal@hotmail.com

sexta-feira, março 12, 2010

Epígrafe para ditadura militar...

“Se havia alguém inofensivo naquele tempo,
era o envelhecido e desiludido Coronel
Aurélio Buendía, que pouco a pouco foi perdendo
todo o contato o contato com a realidade da nação.”

(...)
“Não fale de política", dizia o coronel.
“O que nos interessa é vender peixinhos”
(Cem anos de Solidão – Gabriel García Márquez)

terça-feira, março 02, 2010

Julie Delpy - A Waltz for a Night - Before Sunrise





Com esse filme aprendi que os finais de filme não precisavam ser 'mastigados'. Mas isso não me impede de desejar, ainda, que houvesse uma continuação...

- Baby, você vai perder seu voo. - Eu sei.


segunda-feira, março 01, 2010

Ambiguidade beauvoiriana

"Diálogo recente"

Por Email...

- Pensei agora: acho que tenho um pouco da ambiguidade beauvoiriana... A diferença é que nunca disse, nem publiquei livros dando a entender que eu era outra, diferente rsrs. Mas verdade seja dita: ninguém pode ser culpado por não ser uma coisa só.

Resposta...

- Acho que ninguém é uma coisa só... E, principalmente, que a ambiguidade sempre faz arte das pessoas. Às vezes ser mais sincero consigo mesmo pressupõe ser ambíguo*. E talvez tenha sido aí que a Simone (íntimas!) tenha, a meu ver, vacilado. Por que ela não admitia que pagava pau pro baixinho gordinho e zarolha, pô??!! Não, tinha que bancar a durona, a poderosa... Ela teve sua relevância, claro, não penso diferente disso não. Mas acho que, no final das contas, ela acabava se igualando às mulheres quadradonas das quais ela tentava se diferenciar.
*Adorei essa frase!

sábado, fevereiro 27, 2010

Por falar em liberdade...

Mandela: em nome da liberdade

Acabo de ver o documentário sobre a vida desse homem. Um homem apenas. Ele mesmo faz questão de desmistificar sua imagem: "Não sou um santo". Então estas palavras não são sobre santidade, perfeição, modelo ou paradigma. Mas sobre exemplo, um dos muitos, sobre experiências... O documentário é sobre um homem que passou 27 anos na prisão, que foi vítima da política racista do apartheid, e que, valorizando a educação, usou essa arma contra seus opressores, tornando-se o primeiro presidente de uma África do Sul mais igualitária, posta no caminho da reconciliação nacional, da paz interracial. Esse caminho, acabo de ver, não foi um caminho de esquecimento. O passado não precisava ser esquecido, mas precisava ser tornado passado, para nunca mais voltar a ser repetida a opressão entre seres humanos diferenciados pela cor da pele. No final de uma Copa Mundial de Rúgbi, Nelson Mandela vestiu o uniforme da seleção nacional, embora aquele fosse um esporte identificado com o branco, o opressor, o "outro".

Mandela convenceu seus companheiros de luta a aprenderem o idioma do inimigo, o "africâner" - língua do ramo germânico do grupo indo-europeu falada na África do Sul e na Namíbia. Negociou sua verdade no idioma de seu opressor.

Cenas da Truth and Reconciliation Comission me comoveram até as lágrimas. Consistia, entre outras coisas, no diálogo aberto de torturados diante de seus torturadores. Um diálogo sem limites, às claras. A descrição das torturas pelos seus sobreviventes foi feita perante os algozes ou perante aqueles que, por omissão, permitiram que ela ocorresse. Só uma democracia forte resiste às verdades. Ou melhor: uma democracia para tornar-se mais fortalecida exige verdade, transparência. E essa oportunidade foi dada ao país durante aquela transição democrática. A reconciliação não pressupôs empurrar a poeira por debaixo do tapete. Isso porque nenhuma história de silenciamento escapa do "retorno do oprimido", seja ele como for - pela violência declarada ou pelos sintomas de que a violência se fantasia. A história de Mandela, as imagens desse documentário, o ritmo africano - que, aliás, sempre exerceram uma espécie de encantamento sobre mim -; enfim, toda essa carga de emoção desviaram minha rota nesse dia. E quem pode prever o que provocará uma reação dessas? Eu não pude, mas fico satisfeita com o efeito provocado. Questões que me mobilizam atualmente, na forma de reflexões teóricas a serem postas no papel, ganharam esse reforço. A habilidade do negociador Nelson Mandela, sua característica de se opor sob uma tranquilidade invejável, sua postura de homem íntegro, cuja paciência se revestira de persistência.

Herói? Mito? Rótulos apenas, como tantos outros. Apontado no documentário como homem midiático e hábil na arte de comunicar-se, além de sobreviver à prisão, Nelson Mandela sobreviveu aos rótulos.

***

Estas são palavras imbuídas da emoção, da motivação pela estética do documentário. Um amigo outro dia quis contrapor sua própria "ciência" ao meu "tendencioso" encantamento pelas manifestações estéticas. E não é a estética algo político? Que poder tem os cantos africanos entoados pelas vozes femininas em pleno Congresso quando Mandela anuncia seu afastamento da vida política, abdicando de concorrer a um segundo mandato! "Nelson Mandela, Mandela, Mandela", canta a mulher seguida pelos demais presentes. Um outro colega me disse: "Essas são histórias de outra geração, outro tempo, outros valores". Com a afirmação parecia tentar convencer-me de uma defasagem. Não penso assim.

No meio do documentário, lembrei que a Copa deste ano será justamente lá, na África do Sul. Que outra desculpa melhor para nossas professoras daqui levarem para as salas de aula um pouco dessa história? Não como algo do passado, não com o tom saudosista de uma época heróica. Não é disso que se trata. Mas de uma experiência rica em elementos passíveis de comparação (contrastes?) com a nossa própria história. Se o desafio está em atrair a atenção dos mais jovens, em falar numa frequência que os estimule no sentido da valorização do conhecimento, da educação em sentido geral, haverá "gancho" melhor neste ano?!



“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. (John Donne)

"Amandla!"


quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Las paredes que hablan...

O passeio virtual desta semana me levou até o México... Saudades! Encontrei um blog bem legal que convida as pessoas a enviarem registros fotográficos da chamada 'arte de rua', ou seja, é um convite para ouvirmos as vozes ecoadas através de muros e paredes mundo afora. Arte Callejero é um espaço onde de clique em clique somos levados a aguçar nossos olhares diante do prosaico, do cotidiano, das 'vozes' de diversos cantos. Muitas dessas vozes são verdadeiramente oprimidas, virando silêncio, sintoma ou 'grafite'.

Aprofundando a questão...

É muito comum que importantes órgãos vigilantes das condições para liberdade de expressão nos diversos países se levantem em favor da liberdade de imprensa. Contudo, o que percebo algumas vezes é que muitas das manifestações nesse sentido não transpõem o limite restrito da liberdade de "empresas" (jornalísticas ou de entretenimento em geral). Mais que empresas cerceadas em seu direito de veicular os conteúdos desejados, há que se ressaltar a necessidade de indivíduos ou grupos que, destituídos de um veículo adequado, recorrem à indigência da rua para expor sentimentos, frustrações, perseguições, traumas, violências, silêncios, "esquecimentos". São comunicadores anônimos que não se contentam com a representação de suas 'falas' por terceiros, não raro, desvirtuadas. Tratam-se de falas locais, regionais, latino-americanas, indígenas, desapropriadas, exploradas...clandestinas.


Ectasma Torres

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Uma imagem e mil palavras...




Carente de arte, descobri hoje as telas de Alvaro Peña. Uma rápida busca no Google (que sempre se faz necessário) me diz que o artista é espanhol. Suas telas me mostram cenas familiares... Seus traços me 'falam' de uma leveza escassa ultimamente... Escolho o despojar-se de La mujer de azul (acima) ou de La mujer del sillón... imaginando, ao fundo, o som d'El hombre del saxo




terça-feira, dezembro 29, 2009

2010

Nunca teve tanto a ver comigo o trecho que volto a citar aqui. Pularei em 2010 com meu vestido verde de listras douradas. E vejamos que mágica isso vai atrair...

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente"(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, novembro 04, 2009

Back up

É irritante o jeito como as pessoas todas parecem saber exatamente para onde estão indo quando caminham pela rua. No centro da cidade, qualquer cidade, ninguém pára de repente tentando lembrar aonde estava indo quando saiu de casa. Ninguém parece questionar porquê exatamente escolhera se dirigir para este ou aquele lugar. E eu me pergunto isso a cada segundo!
Não atravesso de um lado ao outro da rua sem me questionar diversas vezes: será o melhor caminho? E se fosse melhor andar mais um pouco e atravessar naquela esquina ali da frente? São milhares de perguntas a cada minuto. Minuto? Não mesmo! Acho que a cada 30 segundos. Quer dizer, o tempo médio de um comercial na TV. Assim, enquanto alguém está vendendo um produto, as interrogações se multiplicam entre minhas milhões de sinapses.

***
Hoje fui ao aniversário de uma prima. "Dez anos", ela encheu a boca para dizer. Lembro que, já nessa idade, inúmeras questões existenciais ocupavam meus infantis pensamentos. Os pêlos que cresciam; os seios que não cresciam; as férias que chegavam; as que não passavam; a turma que poderia se desfazer no ano seguinte... Uma tragédia em potencial. Sempre prevista, mas que nunca aconteceu de fato. Na verdade, tratei de me prevenir no ano em que a ameaça se tornou mais forte: mudei de colégio com algumas amigas melhores-amigas-da-vida-inteira-que-quase-nunca-vejo.

Fiquei em pé na porta do quarto da minha prima vendo suas coleguinhas interagirem. Estava intimidada, confesso. Com 20 e alguns, olho para as pequenas de dez e já me refiro a elas como "essa nova geração". O "essa" embute um distanciamento enorme! Sinto mesmo que daqui a alguns anos mais vou olhar para "essa nova geração" com o mesmo olhar de curiosidade e estranhamento que meu pai traz nos olhos quando me observa às vezes. Será que meu professor de sociologia da faculdade tinha razão ao afirmar que aos 20 somos incendiários e aos 40 bombeiros? Nunca quis aceitar essa ideia (não é que tiraram o meu acento?). Ainda queria provocar alguns incêndios por aí... Mas me pedem rigor, método, embasamento teórico... E assim o ímpeto quase vira fumaça se não há uma vitalidade qualquer que promova a combustão.

***
Minha mãe teve seu computador danificado por um vírus. Ela acha que não, mas compreendo a dificuldade e o esforço dela em lidar com algo tão abstrato quanto os códigos da tela azul que fala, num relance, de tal uma infecção expressa por letras e números tão ou mais estranhos que a sequência genética de um gafanhoto.

- Essa mídia não é para mim!

Foi uma constatação injusta com ela mesma. E com 'essa mídia' também. Oh McLuhan! O meio é a mensagem? Oh Aníbal! Oh Técnico de Informática. Todos os santos, venham em meu socorro! Eles atenderam. E acho que após um belíssimo back up minha mãe conseguirá superar seus traumas. As perdas foram mínimas. Aos poucos descobrirá que fazer back up está para o século XXI como a atividade dos monges copistas estava para a Idade Média.
***
De volta ao quarto todo rosa da minha prima de segundo grau e suas melhores-amigas-da-vida-inteira (e não venham me dizer que não tem hífen, pois adquiri limitações para assimilar a nova ortografia).
- Eu vou morar em Londres!
- E eu vou morar em Paris!
Dez anos! É isso mesmo?! Sim. E têm modelos de vida, castelos, planos. Os do meu primo, pai da pequena anfitriã, também estão traçados:
- Não vou trabalhar pr'os outros a vida inteira não! Daqui a uns dez anos, quero abrir minha empresa, com as pessoas trabalhando pr'a mim.

Boa sorte, primo!

As pessoas parecem saber exatamente para onde estão indo quando caminham pela rua... Mas eu herdei o desconforto materno, a sensação de estar constantemente deslocada. Solução: back ups constantes...Ontem mesmo atualizei o meu. E você? Está em dia com o seu?













Mario Benedetti

Triste Nº 1

Por la memoria vagamos descalzos
seguimos el garabato de la lluvia
hasta la tristeza que es el hogar destino
la tristeza almacena los desastres del alma
o sea lo mejorcito de nosotros mismos
digamos esperanzas sacrificios amores.

A la tristeza no hay quien la despoje
es transparente como un rayo de luna
fiel a determinadas alegrías.

Nacemos tristes y morimos tristes
pero en el entretiempo amamos cuerpos
cuya triste belleza es un milagro.

Vamos descalzos en peregrinación
triste tristeza llena eres de gracia
tu savia dulce nos acepta tristes.

El garabato de la lluvia nos conduce
hasta el hogar destino que siempre has sido
tristeza enamorada y clandestina

Y allí rodeada de tus frágiles dogmas
de tus lágrimas secas / de tu siglo de sueños
nos abrazas como anticipo del placer.

segunda-feira, setembro 28, 2009

segunda-feira, setembro 21, 2009

Bibi canta Piaf (Teatro João Caetano - 19 de setembro)

Foto de MªLuiza Muniz

A imagem é do Real Gabinete Português de Leitura em noite iluminada por Bibi Ferreira e por Edith Piaf . O Rio estava um pouco Paris no último sábado... Ou melhor, eu diria que é do Rio de Janeiro ser um pouco de cada coisa; um pouco Paris, um pouco Lisboa, um pouco Buenos Aires, um pouco Lima, um pouco Luanda... Como diz um autor que agora integra minhas referências bibliográficas, essa "volubilidade é condição humana, é feição pessoal e é característica brasileira".

sexta-feira, setembro 18, 2009

Nos(otros) o el jardín del vecino

No último dia 7, quando cheguei a Córdoba (Argentina), parei para o café da manhã na Confeitaria y Panadería Independencia. Pedi uma medialuna, um capuccino e o jornal veio como cortesia da casa aos fregueses. O jornal Ámbito Financeiro trazia na capa a seguinte notícia economico-futebolística:




Detalhe:






Pág. 3





quarta-feira, setembro 16, 2009

domingo, setembro 13, 2009

No te salves - Mario Benedetti

Por que não escolher o caminho mais fácil?
Porque aos 20 e tantos não há salvação em buscar apenas o equilíbrio e a constância das coisas...
Abaixo, o poema do mestre Benedetti na interpretação de Miguel Angel Solá
No te salves - Mario Benedetti

No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo
pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo.




sábado, setembro 12, 2009

Trailer - South of the Border

Aspas

"Dirán que nosotros somos los subdesarrollados, pero no lo crean" (Theotonio dos Santos, Buenos Aires - ALAS 2009)

Novela e Sociologia

Um professor de Sociologia me dizia que as novelas podem ser matéria-prima para compreensão de uma sociedade ou das representações que são feitas sobre ela. O último capítulo de Caminho das Índias, exibido ontem, dá um bom exemplo dessa suposta função das tramas televisivas.

***

Uma criança vai ao Juíz para anular seu casamento com o noivo indesejado. É abordada pela autora Glória Perez a tradição indiana do casamento arranjado entre crianças, apesar de leis contrárias. Bom, a jovenzinha de traquejos adultos consegue anular o matrimônio e corre para contar a novidade ao amigo dalit, um excluído sem casta.

Ela comemora, pois poderá escolher, no futuro, "um marido instruído e moderno". O pequeno dalit expressa seu desejo de ser o escolhido e sonda suas chances após alcançar as qualidades destacadas pela jovem de casta superior. Pela fala do pretendente, com suas prentensões de enriquecimento, "ganhar dinheiro" é igual a ser "instruído e moderno". A aceitação é imediata e um 'pacto de amor' é feito entre os pequenos de diferentes castas.

Interessante como a distinção originária do berço (a diferença de castas) é trocada por outra, caracterizada pelo dinheiro, ou seja, pela posição econômica do jovem pretendente. O mesmo valendo para sua versão adulta, representada pelo ator/apresentador Márcio Garcia. Fica a idéia de que a superação de uma distinção se dá pela criação de outra; vale dizer que a nova forma de diferenciação é racionalizada para parecer tão normal e natural quanto a que pretende substituir.

O marido moderno é oposto ao marido atrasado. Assim como a nova e moderna forma de diferenciação entre pessoas (ou pretendentes) se sobrepõe àquela outra, atrasada. Somos o que conseguimos conquistar com nosso esforço diário, segundo a máxima do self made man. E o 'fracasso' é sempre resultado de pouco empenho pessoal e nunca de condições econômicas estruturais, injustas e desiguais. Afinal, somos todos iguais perante a lei dos homens (e de Deus).

The end! Ou melhor, Fim.
***
21 de setembro de 2009
Comentário da Priscila, que veio pedalar por aqui e aproveitou para deixar sua opinião sobre a crítica sociológica (sim, e por que não?) do último capítulo de Caminho das Índias...
Gostaria de dar minha humilde opinião sobre o texto Novela e Sociologia no seu blog: Concordo totalmente com seu professor que uma análise das novelas pode auxiliar e muito na compreensão de nossa sociedade. Quando a personagem Anusha diz querer um marido "instruído e moderno" acredito que seja um homem instruído academicamente e moderno segundo às tradições indianas. Ter dinheiro não tem o mesmo significado de ser "instruído e moderno", pelo menos para os indianos. Existem dalits ricos e brahmanes pobres na Índia. Dinheiro e casta não tem o mesmo valor por lá. A personagem de Hari, o menino dalit, é pretendente de Anusha há muitos capítulos não por uma promessa mas porque os dois assim o desejam. A instrução acadêmica é um requisito para o "pacto de amor" porque a educação é muito importante para os indianos. E ser moderno vai por tabela porque um dalit que respeitas as tradições aceita resignado o seu "destino" e nunca se casaria com uma vaishya. O sistema de castas não é substituído pelo nosso das classes sociais, constituído pelo dinheiro. Os dois são cruéis, mas existem em ambas sociedades. A personagem de Márcio Garcia considero um pouco diferente. Um dalit educado no Ocidente, só entende sua condição na Índia sob o prisma ecônomico. Acredita que será aceito quando tiver dinheiro, o que não acontece. Depois crê que a inclusão se dará pelo casamento com uma mulher de casta e rica, mas em nenhum momento Glória realiza esse desejo dele. Se essa diferenciação pelo dinheiro fosse a utilizada pela Glória Perez, Maya se casaria com Bahuan logo nos primeiros capítulos, porque os dois tinham posses. Até acredito que na sinopse original ela teria dado esse final feliz para os dois, mas não sei de que forma. Seriam ricos porque não sei se você percebeu, mas ao contrário da família dalit, todos do núcleo indiano eram ricos, inclusive o Bahuan (Márcio Garcia). Mas provavelmente morariam no Brasil ou na Inglaterra, porque na Índia sempre seriam dalits independente da conta bancária. Sou noveleira há muito tempo e com minha formação em História, pude perceber melhor essas nuances na narrativa dos autores. Discordo de alguns pontos da obra da Glória Perez como a caricatura que ela faz de algumas personagens, mas acho que ela é uma das poucas escritoras/escritores que tratam o universo de outras culturas com tanto respeito. Aliás ela é historiadora. Beijocas, Priscila .

quinta-feira, agosto 13, 2009

terça-feira, agosto 11, 2009

Os leitores

Teología y periodismo
"Dice el teólogo que el conocimiento filosófico es individual, mientras que la fe exige al otro: es tradición. En algo lleva razón: creer es confiar, lo contrario de pensar. Pensar es osar pensar y pensar por uno mismo.

A veces hay que mezclar la teología con el periodismo. El bueno siempre parte del pensar de sus lectores. El otro, el espurio, vive del creer y de la credibilidad acumulada." (Lluís Bassets)

http://blogs.elpais.com/lluis_bassets/2009/08/teolog%C3%ADa-y-periodismo.html

sexta-feira, agosto 07, 2009

E depois de resistir?

Comunicación que no comunica

A partir de los suicidios en empresas generados por las condiciones de trabajo, Mela Bosch advierte sobre los riesgos que surgen cuando “la comunicación no comunica” e informa sobre la reivindicación de los sindicatos europeos en la materia.
Por Mela Bosch *
Desde Milán

El 14 de julio de 2009 es una fecha histórica para Francia. Es el día del suicidio número 18 en 18 meses entre los empleados de Telecom. En una carta a su familia que ha sido publicada por diarios de diferente signo político, como Le Monde, France Soir y Libération, un hombre de 51 años de Marsella dice más que explícitamente: “Yo me suicido a causa de mi trabajo en Telecom”. Menciona como factores “la urgencia permanente” y “la sobrecarga de trabajo”.

En “C’est dans l’air” (Está en el aire), uno de los programas televisivos de debate de más audiencia de la TV5, la preocupación por el malestar de Sarkozy dejó espacio a este malestar, quizá no tan taquillero a nivel mundial pero mucho más significativo.

Y no es para menos. Sólo en Telecom Francia, empresa de la cual el Estado es el accionista mayoritario y que emplea a más de cien mil personas, desde el inicio de la crisis económica se han producido 18 suicidios y 10 tentativas. En Renault ha habido tres suicidios y otros tantos en pequeñas empresas del interior, como el caso del delegado obrero de una fábrica de cerámica que no pudo evitar que sus compañeros terminaran en la calle.

El Ministerio de Trabajo, según anunció su titular, Xavier Bertrand, está llevando una investigación nacional sobre el estrés laboral para identificar los sectores más expuestos. Esta decisión se tomó a partir de un informe sobre los riesgos psicosociales en el trabajo, elaborado por un equipo coordinado por el magistrado Philippe Nasse y el médico psiquiatra Patrick Légeron. Este último hizo notar que la fragilidad es mayor entre los trabajadores del área de servicios y en especial en el sector comercial de las telecomunicaciones, sujetas a lo que el suicida marsellés llamó en su nota póstuma: “administración por medio del terror”. Se trata de una forma de gestión que se basa en la competencia permanente entre los funcionarios y que estimula el aislamiento frente a la computadora, a la vez que usa la humillación y la desvalorización como formas de castigo pasivo hacia quienes no producen de acuerdo con los objetivos de ventas exigidos, especialmente en un momento en que la recesión hace que estos objetivos resulten irreales e inaccesibles.

Los expertos del gobierno proponen lanzar una campaña de información para los directores de las empresas y los trabajadores sobre sus derechos en cuanto a condiciones de trabajo, lo cual resulta casi banal en medio de lo devastador de la situación. El médico y psiquiatra Légeron precisó en el programa televisivo que la crisis empezó siendo financiera, se hizo económica y terminará siendo sanitaria. Y es algo para tener en cuenta, si consideramos que desde el inicio de la crisis en Francia el suicidio por estrés laboral ha producido más víctimas que la gripe A (el 30 de julio se produjo la primera víctima, una niña de 14 años que padecía de una enfermedad grave).

Pero, por otra parte, es para valorar que en una sociedad individualista y frustrada por la crisis aparezcan nuevos valores y recursos en el campo de las luchas sociales. A partir de esa muerte del 14 de julio, sindicatos, comisiones obreras y de empleados de servicios y de telecomunicaciones han lanzado una revolucionaria reivindicación: considerar el suicidio como accidente de trabajo y hacer responsables a las empresas cuando esté claramente identificada la causa. Es revolucionario porque implica dar un nuevo enfoque a la seguridad en el trabajo, considerando dentro de los riesgos y la violencia en el ambiente laboral también los aspectos psicológicos, morales y de dignidad humana que involucran los despidos masivos, el aislamiento frente a la computadora y la competitividad despiadada entre compañeros. Un indispensable paso en el triste camino a recorrer para mitigar la impotencia y el dolor a las familias de las víctimas de las políticas liberales, que intentan cubrir su fracaso e ineficacia echando a sus trabajadores o exigiendo metas imposibles.

* Consultora lingüística. Docente on line de la Cátedra Tecnologías en Comunicación Social de la Facultad de Periodismo de la UNLP (Universidad Nacional de La Plata).

quinta-feira, agosto 06, 2009

Cambiando de mundo...

Um amigo me disse hoje que deve morar em Angola pelo próximo ano. Outro está procurando um inquilino para eu 'cafofo' em Copacaba (R$ 1.200,00 "com tudo incluído" - fiz a propaganda e quero minha parte...). Enquanto uns partem, outros se (re)encontram.

"O máximo que eu conseguia com ele era me lembrar de você". Um terceiro amigo reinaugura uma história de amor ao som dessas palavras, ditas por uma "ex", futura "atual". Antes, porém, meu amigo terá a difícil tarefa de comunicar a reviravolta da trama para a terceira ponta do triângulo. O ponto de virada é o retorno do romance passado, que agora pede para ser presente e futuro. Tudo junto. Isso significa um ponto final súbito no roteiro que vinha sendo rascunhado com capricho. O que me lembra aqueles fins estranhos de novelas com baixo índice de aprovação. Imagine se Machado de Assis escrevesse orientado pela divindade Ibope: será que Dom Casmurro correria o risco de terminar com um final feliz? Seria um desastre para nossa literatura!
Então, quem disse que os finais tem que ser sempre felizes, meu caro amigo?

"Ela tem um poder de fogo nos olhos que vai acabar comigo", disse ele, preocupado com o momento em que o triângulo terá que ser desfeito. Lembro-o daquela namorada, à época da faculdade. Tento defender a tese do "tudo passa"... "Ela era estranha", uma provocação. Trazia um botão fechado no lugar dos lábios. Sorrisos? Não cheguei a presenciar. Meu amigo conta que naquela época o namoro já estava desgastado. Mas um dia a moça havia sido atraente aos seus olhos: "Ela era a única menina que lia e pintava o cabelo de vermelho. Depois o tempo foi ingrato e ela acabou perdendo a graça para mim".

***
Comecei a escrever pretendendo fazer uma breve introdução. Lá se foi a brevidade em troca da fofoca... Enfim, o poema abaixo é de um uruguaio, falecido recentemente, que sabia como ninguém expressar essas coisas que versam sobre corações e finais. No poema com o qual me deparei há pouco, Mario Benedetti é certeiro com sua metonímia.
Assim que o poeta morreu no início do ano, recebi as seguintes palavras: "Mario Benedetti foi um dos últimos poetas a que me apresentaram e que valeu a pena conhecer (...) Apresentar um poeta a uma pessoa é coisa muito generosa. (Tanto, que às vezes, a gente até se engana com um gesto desses.) Gosto dos poucos versos dele que li. E gosto muito de você por, entre outras razões, fazer com que a gente leia coisas dessas na vida." São palavras de quem, longe, parece permancer. Ok, que seja...

Cuando la poesía

Cuando la poesía abre sus puertas
uno siente que el tiempo nos abraza
una verdad gratuita y novedosa
renueva nuestro manso alrededor
cuando la poesía abre sus puertas
todo cambia y cambiamos con el cambio

todos traemos desde nuestra infancia
uno o dos versos que son como un lema
y los guardamos en nuestra memoria
como una reserva que nos hace bien

cuando la poesía abre sus puertas
es como si cambiáramos de mundo.

*Poema inédito de la obra en marcha de título provisional: Biografía para encontrarme

In process...



Acima, mais um estágio de uma obra não terminada. Na parte lisa (que acabei transformando num grande vazio com cor-de-burro-quando-foge) ainda pretendo ousar, colocando em prática umas idéias que há semanas passam aqui pela cabeça. Jeans e contorções... Linhas de lã... Bom, como pretendido, o branco entre as partes coloridas deu um realce ao conjunto...

sábado, junho 13, 2009

quinta-feira, abril 16, 2009

Apenas um rapaz latinoamericano...ou Encontros.

Este texto me fez lembrar de encontros casuais que ocorrem durante viagens. São situações imprevisíveis que nos fazem, às vezes, mudar a rota e descobrir novos caminhos. A despedida é sempre como conta Juan Cruz no texto que captei de seu blog http://blogs.elpais.com/juan_cruz/. Ainda espero por novas viagens e pelas felizes surpresas que elas trazem... Para terminar este breve comentário e deixar o resto do espaço com o titular do blog Mira que te lo tengo dicho, chamo atenção para a última frase do texto de Cruz. A identificação é total!


16 abril, 2009 - 10:30 - Juan Cruz
Escritores entre Cervantes y una paloma
Estuve anoche en el Corral de Comedias de Alcalá de Henares conversando con cuatro jóvenes escritores latinoamericanos, nacidos todos ellos a partir de 1970. El más joven es el mexicano Tryno Maldonado, que nació hace 32 años. Los otros son la chilena Andrea Jefatnovic, la boliviana Giovanna Rivero y el argentino Juan Terranova. Todos han publicado ya libros, sobre todo novelas, y los cuatro fueron invitados para estar todo este mes en Alcalá de Henares. La iniciativa es de la Universidad, que hace coincidir esta invitación para que los jóvenes autores se encuentren y encuentren el centro del territorio de Cervantes con los actos que arropan allí la entrega del premio Cervantes a Juan Marsé, un maestro. El marco es, pues, el Festival de la Palabra, y este esquema de arropamiento de jóvenes escritores se llama Escritores en Residencia. Ellos están encantados de estar aquí; no se conocían, o se conocían poco, por los medios electrónicos; sabían algunos de ellos de ciertos textos suyos, pero no se conocían. Reproducían en sí mismos un problema grave de la comunicación literaria en español: conocen a los españoles, o lo que pasa por España, pero se desconocen entre países latinoamericanos. Y ese es un gran déficit de ahora, del pasado y del porvenir. Hablaron de eso, y hablamos de muchas más cosas. De las influencias; del lenguaje; de cómo el español de España y el español de los países iberoamericanos se impide o se retroalimenta; de los caciquismos literarios; de Cortázar; de Los últimos días de la humanidad de Karl Kraus; de cómo el marketing terminan impostando las novelas; de las imposturas; de cómo la literatura se mide con el capital; del marxismo; de las palomas que cagan sobre la estatua de Cervantes; de las novelas nazis (o sobre nazis) que se hicieron en México; de la novela híbrida (invención de Giovanna); de que todas las novelas ahora son híbridas; de Unamuno; de releer los libros propios; de la humildad; de la paciencia; de los egos revueltos; de los egos resueltos; de la búsqueda como sustento eterno de la vocación literaria; de los 1433 escritores que hay en México (y otros tantos en tantos sitios); de cómo se dice coger, follar, en cada sitio; de cómo se dice correrse; de cómo se traduce culear; de cómo Jean Claude Van Damme dice en español joder, y así sucesivamente. Quedamos para vernos otra vez. Lo que más lástima me dio es no ser joven y seguir allí, con ellos, escritor en residendcia. Pero soy latinoamericano. Que ya es muchísimo.

Clarice sempre me faz lembrar de você...

"...o horror e as emoções negativas são infinitamente preciosos na medida em que também constituem modalidades daquele espanto ontológico elementar, que é nossa forma mais concreta de consciência do futuro latente em nós e nas coisas". Clarice Lispector

quarta-feira, março 25, 2009

Frase do dia

“Só quando transgrido alguma ordem o futuro se torna respirável"

Mário Benedetti - Antologia Poética

domingo, março 22, 2009

“I have doubts!” (“Eu tenho dúvidas!”)

Embora tenha sido batizada e tenha feito a primeira eucaristia, seguindo os sacramentos da Igreja católica, não tenho muita familiaridade com o texto bíblico. Fiz algumas leituras na Catequese, ouvi repetidas vezes as repetidas passagens do Evangelho nas missas - quando meus domingos eram religiosamente marcados pela visita à igreja -, e estudei trechos do antigo testamento em uma disciplina na faculdade de História. Ainda assim, é pouca minha familiaridade com os capítulos e versículos do sagrado livro.

Apesar disso, ao buscar na caixinha da memória, logo aparecem referências (vagas) sobre passagens marcadas pela dúvida. Uma delas é aquela da tempestade. Afasto uma lembrança daqui, outra dali, e finalmente alcanço a mensagem que, segundo acredita-se, os discípulos quiseram fazer chegar às gerações seguintes. O trecho da tempestade em alto mar é justamente aquele em que Jesus caminha sobre as águas. Salvo engano, Pedro é o desafiado da vez. Ele se joga ao mar para ir ao encontro de Jesus, que se encontra sobre as águas, mas a tempestade o assusta e ele teme, duvida. Jesus o repreende: “Homem de pouca fé, porque duvidaste?”

Há outras passagens ainda, mas não creio que seja o caso de revirar mais esta minha caixinha em busca de outros exemplos. Este me basta.

A questão é que – concluo agora – a Bíblia é marcada por histórias em que a dúvida representa a “crise de fé”. Ah, claro! Como posso ter me esquecido de São Tomé? Eis o desconfiado discípulo que precisa tocar as chagas do Cristo ressuscitado para crer no fenômeno supostamente impossível.

***

Acabo de assistir ao filme Doubt (Dúvida), do diretor John Patrick Shanley, com Meryl Streep (Sister Aloysius Beauvier), Philip Seymour Hoffman (Father Brendan Flynn) e Amy Adams (Sister James). Mais do a história de uma freira que confronta um padre suspeito de ter aliciado um estudante negro, o filme é repleto de densos diálogos sobre religião, moral, autoridade e a dupla dúvida/certeza.

No início do filme, o Padre Flynn começa seu sermão com a seguinte pergunta: “O que você faz quando não tem certeza?” O padre desenvolve seu sermão falando sobre a solidão daquele que duvida e sobre as possibilidades inerentes à dúvida tanto quanto à certeza: “A dúvida pode ser um vínculo poderoso e sustentar tanto quanto a certeza”, diz o sacerdote. A conclusão do Padre Flynn é um consolo para os Pedros e Tomés: “Quando nós duvidamos, nós não estamos sozinhos”.

Ou estaríamos vivendo uma solidão coletiva? No rastro do paradigma racional e positivista, a certeza é extremamente valorizada. E seu oposto, ainda que não seja a confissão da ignorância propriamente, já coloca o Tomé da vez em condição errática. As “crises de fé” da contemporaneidade são extremamente penosas, vide por exemplo, os efeitos do vigiado Risco Brasil. Este mede o nível de confiabilidade que os investidores estrangeiros podem ter em relação à economia brasileira, no caso. O índice varia em sentido negativo para a economia nacional quanto mais as condições políticas e econômicas colocam em dúvida a segurança do país como destino para os capitais em fluxo.

Em Doubt, há um ótimo diálogo entre o Padre Flynn e a Irmã James, uma jovem aparentemente fraca, dada sua dita ingenuidade e temperamento sentimental. Tais características são ainda mais ressaltadas diante da autoritária Irmã Aloysius Beauvier, a personificação da certeza, racionalidade e segurança. Será mesmo?

No referido diálogo, Padre Flynn defende seu comportamento carinhoso e humano no trato com os alunos da escola dirigida pela implacável Irmã Aloysius Beauvier. Em especial com Donald Miller, o pobre garoto negro, único na instituição de ensino. Em sua própria defesa, o padre aconselha Irmã James: “Há pessoas que vão atrás da sua humanidade, Irmã, para dizer-lhe que a luz no seu coração é uma fraqueza. Não acredite nisso!” E ele completa: “É uma velha estratégia de pessoas cruéis para matar a bondade em nome da virtude. Não há nada de errado com o amor”.

O contexto completo da fala acima será captado por aqueles que assistirem ao filme. Detenho-me aqui ao trecho matar a bondade em nome da virtude. Pois é disso que trata a apologia à certeza, uma defesa da virtude em detrimento da bondade. Esta vista no sentido daquilo que pertence ao campo semântico da emoção e dos sentimentos – supostamente erráticos e incertos. É compreensível, portanto, que na busca por fazer aparecer a verdade, Irmã Aloysius Beauvier acabe pecando. E após pecar, se justifica: “Em busca do pecado, um passo distante de Deus”.

Lembro que no colégio, e mesmo já na Universidade, alguns professores usavam de um expediente muito constrangedor para confirmar se o aluno sabia mesmo a resposta à pergunta feita: “Você tem certeza?”. E então o silêncio da dúvida preenchia a sala de aula. Dirão os adversos que o constrangimento é apenas para aqueles que não sabem o conteúdo ensinado. De fato. O constrangimento é àqueles que não estão seguros, que duvidam. A virtude é saber. E saber com certeza!

O denso embate entre o Padre Flynn e a Irmã Aloysius Beauvier traz nas palavras do primeiro a peça que promove o encaixe entre a certeza e seu ‘oposto’, a dúvida.

“A certeza é uma emoção, não um fato”.

E , sim, eu tenho dúvidas. E quantas!

quarta-feira, março 11, 2009

Título da obra: Anna

(Não comprei tinta preta para o cabelo...)

quinta-feira, março 05, 2009

Anatomia

"O sofrimento é inerente ao homem. Mas por que insisto em me dar marteladas? Para poder me sentir ótima quando eu paro".

segunda-feira, março 02, 2009

Testes...

Os retoques não pararam...


Eis a última versão (espero não tocar mais os pincéis na tela):

p.s: O efeito da combinação sol+tintas foi o toque final, não acham?



sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Planos


Os jardins do último post foram para o espaço com umas pinceladas... Abaixo, Planos. Com uma iluminação externa, as cores ganham mais vida. Ainda aprendo a colocar essa luz na tela!

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Arte com o jardim do vizinho...

Esta é minha primeira tela pintada inteiramente com pincéis e com tinta a óleo! Na verdade, ela foi feita em duas partes. Assim que terminei a primeira, fiz a foto que segue logo abaixo. Mas ainda senti que faltava jogar na telaum pouco mais de 'confusão'. Portanto, a versão final é a das duas últimas fotos. O nome do quadro é Verdes jardins.

E a versão acabada! Só não vale chorar pela tinta derramada :(




terça-feira, fevereiro 24, 2009

"Perfis"

MLCM
Tinta guache sobre cartolina - "Perfis"

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

"Casal de cor"




Eis mais uma obra da artista "amadora"! Sem pudores, resolvi brincar com as cores e ângulos ao fotografar o quadro e postá-lo, dando uma valorizada no casal... Aqui, estão dois dos resultados que mais gostei.


Casal de cor não segue o 'padrão' que vinha estabelecendo, de pinturas soltas e sem uma forma muito definida. Resolvi ousar e percebi como é difícil colocar no papel as imagens que passam pela cabeça.


Inicialmente, em Casal de cor aparecia a mulher de frente (pena que não fotografei esse estágio!). Mas não consegui dar a ela uma feição que me agradasse. Tentei de várias formas fazer os olhos, boca e nariz. O resultado era sempre uma mulher triste ou com uma cara de esnobe (sobrancelhas! aí está o truque, que ainda não sei). Enfim, depois de várias tentativas (pensei até em deixá-la sem rosto, repetindo a obra anterior), resolvi que a mulher estaria de costas. E dá-lhe preto da tela!

Já o homem não me deu trabalho. Apenas seus cabelos longos, que surgiram após um traço equivocado. Solução: alongar as madeixas do rapaz. Até que gostei!

Bom, Casal de cor (com o "ó" aberto) é o quarto quadro que pinto com as mãos (os pincéis estão pela hora da morte!). É uma entre as muitas tentativas que venho fazendo para avançar no mundo das tintas, das misturas e, para mim, das viagens por cenários múltiplos. Cada quadro é isso: uma verdadeira viagem, para quem quer aprender de cor que em qualquer caminho "amar é o que basta" (licença para citá-lo, ok?). MLCM



P.S.: Saber de cor - quem ama algo, não o esquece. Portanto, quem sabe algo de coração, vai lembrar-se disso para sempre. "Saber de cor" provém daí.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Laranja mecânica

...e pensei que, desde que me apaixonei por você, talvez seja movida pela mecânica de amar... Não a mecânica que rege os relógios, sempre os mesmos tempos para os mesmo espaços, mas uma mecânica livre, que às vezes pede pausa e em outras movimento.

MLCM

terça-feira, fevereiro 10, 2009

'Mulher sem rosto e taça de vinho tinto'


Artista: MLCM
Tinta guache - pintado à mão.
Primeira obra do velho-novo movimento da printura contemporânea, Catarsentela

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Mais um dia 10...


B.


BRILHA NO CÉU ESSA ESTRELA SOZINHA

RELUZ LÁ LONGE COMO PROMESSA

E, NESTE CHÃO DE TERRA ESPESSA,

NOITE VIRA DIA

O ESCURO VIRA CLARO,

CASO VOCÊ APAREÇA.

ORA, E SE TUDO INVERTE,

SOL DE NOITE, ESTRELA DE DIA...

TORÇO POR DIAS MAIS CURTOS E LOGO

AMANHEÇO EM SUA COMPANHIA.

domingo, fevereiro 01, 2009

O tempo (por B.C.)

O tempo, minha amada, é castigo para quem vive do presente. Mas o castigo é ainda maior para quem não tem o presente.

Você ficou 25 anos assim, sem o dia pós dia. Hoje, quando você acordou, me coloquei no seu lugar. Os olhos girando para todos os lados, em busca de uma referência que te prendesse a esse novo presente. Uma referência que a fizesse perceber que o tempo de abstração involuntária perante o mundo realmente chegara ao fim. Acho que me decepcionaria. Os seus sonhos deviam se passar em um tempo onde as coisas eram mais simples.

Olhando nos meus olhos, você finalmente percebeu que, lá no fundo, apesar da confusão gerada pelos pêlos na face, pelas leves rugas nos cantos dos olhos, pelo cabelo desgrenhado com as marcas das preocupações colecionadas ao longo de mais de duas décadas, eu era aquele seu amigo de outrora. Espero que acredite em tudo que vou te contar a partir de agora.

Em 1984, quando você adormeceu, a lógica do big brother, fundada pelo Orwell, era mais amena. Hoje virou programa de televisão, virou doutrina estabelecida na maior nação do mundo. Virou CPI, virou paranóia nos celulares (não sabe o que é isso, né? Depois te explico isso e a Internet, com aulas práticas...) de quem tem algo a dever à sociedade.

Minha amada, naquela época ainda lutávamos contra o que restava de um autoritarismo institucional. Nossa vitória não veio no primeiro momento. As instituições ainda conseguiram derrotar a maior das instituições - o povo - uma vez mais. Mas elas trataram de amenizar a própria estupidez e nos permitiram, cinco anos depois, que escolhêssemos um presidente.

Ah, presidentes... Esses foram destaque. Você não sabe, mas há duas semanas um negro, com descendência muçulmana e africana, assumiu o governo dos Estados Unidos da América. Sim, Ronald Reagan, o bonitão de Hollywood, ficou restrito aos livros de história. O nome do negro é Barack Hussein Obama. Nada hollywoodiano, hã?

Se você já está supresa, deite-se novamente. Nosso primeiro presidente eleito pela vontade do povo foi um bonitão, promissor. Fernando Collor de Mello. Você acredita que ele não durou nem dois anos no cargo? Foi derrubado. Calma! Não foi golpe. Dessa vez, as instituições cumpriram a "vontade do povo". Depois do autoritarismo, seguia uma era de corrupção. A sigla CPI virou moda no Brasil. Comissão Parlamentar de Inquérito. Deputados e senadores investigando até mesmo seus pares e outros figurões do governo.

Pois muito que bem. Tivemos um presidente tampão, cuja ação mais famosa foi reativar a linha de produção dos Fuscas no Brasil. Em seguida, um outro presidente, muito conhecido seu, assumiu. Lembra dele? O Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo, que falava sobre a dependência externa brasileira. Pois o sujeito privatizou quase tudo no Brasil. Sabe o que é privatizar? Vendeu as empresas estatais. O Estado, o famoso Estado, foi se encolhendo.

Mas, há quase sete anos, o Brasil teve o seu Barack Obama. Elegemos um torneiro-mecânico, sem instrução, presidente. Mais um daquela nossa época. O Lula! Sim, o sindicalista! Ele é o presidente do Brasil!

Mas, calma... O Brasil não virou mais um aliado do Kremlin no quintal dos Estados Unidos. O Kremlin não é mais o mesmo. A União Soviética acabou. O comunismo perdeu. Lula, o radical, hoje veste ternos de primeira linha, tem cabelos brancos e barba bem aparada. Um gentleman do povo.

Bom, sobre guerras, mortes e intolerâncias, te falo mais tarde. Você ainda está muito fragilizada para ouvir tudo isso. Mas, saiba logo: o mundo continua não sendo um lugar muito simples para viver. Mas ficar de olhos fechados é muito desperdício diante de tantas novidades, não acha?

Calendário

- Esse calendário que você me deu está com defeito. A saudade é crônica e ainda faltam três semanas!
- O tempo, minha amada, é castigo para quem vive do presente. E alento para quem vive do futuro. Escolha sua opção... Amo presente e futuramente.


segunda-feira, janeiro 26, 2009

P.S.:


"Se é verdade que estamos todos sós no mundo, então também é verdade que estamos juntos nisso"

Frase do filme P.S.: Eu te amo


Foto: por MLCM, feita com o celular de BMLC - Icaraí, Niterói (RJ).
25 de janeiro de 2009

Palavras

...e me ama, como eu nunca conheci, completa e intensamente, com as expectativas de um futuro já existente no horizonte. Só a espera de nós dois...

domingo, janeiro 11, 2009

O mirante da Dona Marta




A "morena de Angola", a doceira do Engenho e o Pão de Açúcar

terça-feira, dezembro 16, 2008

Folha de laranja e cotovelo

Ok, meu amigo, não vou desprezar sua dor. Já vi coisa parecida algumas vezes e sei como essas coisas dominam sentimento e razão, fazendo ambos se confundirem no espaço da memória. Sei que as manhãs fazem falta e que seu teatro das reais carícias e regalias para a mulher amada está vazio desde que a personagem principal deixou o palco das primaveras contínuas. Sinto não ser mais útil, já que só posso oferecer meus ouvidos e condolências. O último parece atrair a palavra "enterro" e não acredito que seja o caso. Não ainda. Vele essa dor que agora sente, mas não vele o amor porque este não morreu ainda. Ameaça transformar-se. E isso, também sei, é tristeza ainda maior para os amantes que não desejam tornarem-se apenas amigos. Este seu oráculo tem pouco a sugerir. Se o mal fosse essa gripe que agora me atinge, aconselharia folha de laranja, ‘alfavacão’ e capim limão batidos no liquidificador com mel. Não é receita infalível, mas aplaca os efeitos que agora deixam meu corpo e mente anestesiados para os compromissos do dia a dia. Mas sendo dor de amor, é vírus para o qual, lamento, não encontro receita. O único modo que conheço para lidar com esses sintomas que o mal traz é curtir o momento em banho-maria com uma mão sustentando o cotovelo e a outra a cabeça. Esta deve continuar sobre o pescoço, aquele é bom que não encoste diretamente sobre a mesa. Pode ficar grudado ali por um bom tempo e é outro efeito que não desejaria para um amigo tão querido. Bom, coloque no lugar cabeça e cotovelo. Caso algumas lágrimas queiram escorrer, não prenda. Elas rolarão mais cedo ou mais tarde. E como já aprendi em situações anteriores: quando elas querem partir, é melhor permitir sem resistências. Não há tranca capaz de retê-las e todas as válvulas as ajudarão a escapar. No mais, tente o chá de folha de laranja quentinho. Não fazendo bem, mal não fará. Estarei aqui, com ouvidos e condolências. De resto, consulte o Tempo...






I heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this, the fourth, the fifth, the minor fall, the major lift, the baffled king composing Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

Your faith was strong but you needed proof, you saw her bathing on the roof, her beauty in the moonlight overthrew you
She tied you to a kitchen chair, she broke your throne, she cut your hair, and from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

Maybe I have been here before, I know this room; I have walked this floor, I used to live alone before I knew you
I've seen your flag on the marble arch, love is not a victory march, it's a cold and its a broken Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

There was a time you let me know whats really going on below, but now you never show it to me, do you? (and)
Remember when I moved in you; the holy dark was moving too, and every breath we drew was Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu----jah

Maybe there's a God above, and all I ever learned from love was how to shoot at someone who outdrew you
And its not a cry you can hear at night, its not somebody who's seen the light, its a cold and its a broken Hallelujah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu--jah

Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelu---u---jah

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Elephant gun ou Um desafio

Desafio o caro leitor deste blog a não querer dançar, rodopiar e saltitar ao ver este clipe da banda Beirut (http://www.beirutband.com/) Uma delícia de melodia! Quem vencer o desafio, na verdade, estará perdendo... Sim, já me entreguei ao som por aqui. Uma mini-catarse não faz mal a ninguém.





***

If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight

Far from home, elephant gun*
Let's take them down one by one
We'll lay it down, it's not been found, it's not around

Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down

Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down

And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the night

And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the silence, all that is left is all that i hide

**elephant gun: é uma arma de calibre largo. Ela tem esse nome porque originalmente eram feitas para uso de caçadores de elefantes ou outras caças perigosas.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

terça-feira, novembro 18, 2008

Fora de contexto ou Depois de amanhã

te amo
te adoro
te cama
te lençol
te chão
te salada
te nado
te remo
te mimo
te memo

MLCM

domingo, novembro 09, 2008

No corredor...

Domingo - almoço (tarde) - aniversário da vizinha

As visitas vão sendo recebidas no corredor... Abre-se a porta do elevador.

- Ahahahahaha! - é a irmã animada - Dudu, que saudade!
- Cortou mais o cabelo? - a aniversariante.

Sem resposta. Pergunta retórica.

Minutos depois...

Vozes de crianças no corredor.

- Olha, fica na quadra! Vou ficar olhado daqui de cima.

O controle da tia aniversariante.

Risos e vozes desencontradas das crianças no corredor.

- Não é melhor deixar o chinelo aqui? - a tia consulta.
- Sim.
-Você quer fazer xixi?
- Não.

Chega o elevador.

- Sétimo andar. Desceeendo - a acessorista eletrônica informa.

As crianças descem. Corredor em silêncio.

sábado, novembro 08, 2008

São Paulo, 18ºC

"Andar por essas ruas sem você é como ir à praia sem sol..." (B.C.)

quarta-feira, novembro 05, 2008

O simbólico é a mais forte realidade

Madrugada de 5 de novembro de 2008 - Barack Obama, eleito presidente dos Estados Unidos da América, discursa para cerca de 1 milhão de pessoas: "If there is anyone out there who still doubts that America is a place where all things are possible; who still wonders if the dream of our founders is alive in our time; who still questions the power of our democracy, tonight is your answer."
***

Manira, grande colaboradora que nos visita duas vezes por semana aqui em casa, correu de manhã para ouvir no rádio o resultado da eleição. Comemorou uma mudança: "o negro sempre foi tudo que é ruim". Conto que o "slogan" de Obama é Yes, we can e traduzo, "Sim, nós podemos". "É claro que podemos! Quem é o maior escritor brasileiro? Não é um negro?", pergunta Manira, já com a resposta. Negra, pretinha, de pele macia e dona de um abraço que reenergiza minhas manhãs. Essa é a melhor descrição que posso pensar para ela, que estudou só até a alfabetização. Eu, confesso, me surpreendo pela referência a Machado de Assis. "A gente escuta as coisas..." - responde ela, minimizando sua capacidade de absorção e crítica a respeito dessas "coisas". É interessante que o "nós" seja logo apropriado por Manira como referência aos negros. Mas quem são esse "nós"? "Nós" norte-americanos? "Nós" latino-americanos? Será que também podemos? "Nós" United State of America?

***

Engraçado como sempre, em qualquer discurso - inclusive nos filmes tipo Independence Day - os políticos e líderes heróicos enchem a boca ao pronunciar Ameerica, despertando o mais emocionado sentimento de pertencimento e provocando a catarse em aplausos e ovações ao locutor.

***
Ligo o rádio, a televisão, e escuto relatos inflamados por todo o mundo: "O primeiro presidente negro..." Alguns ao meu redor não foram contagiados pela "onda Obama", como destacam os meios de comunicação. Falava há pouco com um colega ao telefone. Entre os que preferem sequer entrar nesse mar de entusiasmo pela eleição do homem "mais importante do mundo" (Malu de Bicicleta apud Jornal Nacional) ser negro, ele me diz que apenas por seu valor simbólico a escolha de Obama merece algum entusiasmo. E pergunto: o simbólico não é real? Meu colega diz que não e, como de costume, discordamos. Sem grandes expectativas (elas nunca são boa companhia para mim) fico com a realidade contagiante do simbólico. Quanto aos próximos quatro anos... A política continua sua rotina de meios e fins, nacional e internacionalmente. Não acredito em grandes milagres, mas não me culpem por ficar otimista.




"TIMES" - 1963

200,000 NEGRO MARCHERS DISPERSE IN PEACE 8- WASHIINGTON'S DISCIPLINED DEMONSTRATION PRESIDENT'S EQUAL RIGHTS PLEDGE


200,000 Negro Marchers Disperse In Peace - From Our Own Correspondent WASHINGTON, AuG. 28 The largest Negro demonstration for freedom since the abolition of slavery took place here peacefully today. More than 200,000, according to police esti- mates, came in a vast but orderly throng to the Lincoln Memorial to demand freedom now. Away from the Mall, Washington was a deserted city. The whites stayed at home, offices were empty, bars closed, and military policemen took over the downtown street crossings. Outside, some thousands of troops in complete battle order stood by. They might as well have stayed in barracks. Although the crowd was twice as large as was expected, and long after the march got under way special buses and trains were still arriving from every part of the country, there was a complete absence of tension. SOLEMN IMPRESSION At times the demonstration sounded remarkably like an inter-Church assem- bly,- and there were probably more priests and clergymen present than in Rome. The assembly of rabbis could have shamed Tel Aviv and the Gandhi caps of the volunteer marshals served only to remind those with long memories how different this was from other demonstrations. In the words of Mr. Roy Wilkins, of the National Associa- tion for the Advancement of Coloured People, it was a great day. The demonstration got under way today with a middle-class decorum rufled only occasionally by religious fervour and political activism. Neither the folk singers, mostly white, nor the inevitable cranks dented in any way the solemn impression made by tens of thousands of decent Americans exercising their right of assembly to demand freedom for millions of their countrymen. They had come a long way since the first freedom buses were burnt by white mobs, since southern policemen had turned dogs and fire hoses on them. Since one of their leaders was shot in the back. The activists were there, youngsters in sweat shirts and jeans, many only recently out of gaol, but the vast majority were ordinary, conventionally dressed Americans whose faces happened to be black. FAMILY GROUPS Their collective respectability was almost overpowering: clergymen, dependable looking men in business suits, motherly ladies in flowery hats, and youngsters dressed for an Ivy League campus. Handsome girls, well dressed and with a determined look, old men in clean dungarees, trade unionists, youthful seminarists. and family groups bur- dened with picnic luncheons-never could there have been a more unrevolutionary assembly-not since the days of the Good Lord, one clergyman added when your Correspondent searched for a comparison. It was this respectability combined with quiet determination that made the demonstration so impressive. There were relatively few onlookers, at least in the early hours. to witness it, but the television networks cleared their programmes of much of the usual junk and soap operas to carry the impression from coast to coast. PROPERTY OWNERS The young Negro activists practised non-violence; the thought of it was obviously too abhorrent to those family men and property owners. They began to assemble at the Washington Monument, within sight of the White House, slowly from their special buses. Many first went to church in deserted downtown Washington, and, obeying the directions of their own marshals, looked for the rallying points of their groups: the National Council of Churches, the Lower East Side of New York Council of Religion and Race. the Committee of Christian Conference of New Canaan, Connecticut, and similar groups from Berkeley, California, Youngstown, Ohio. and Charleston, South Carolina. CLASPED HANDS There were many whites-clergymen and rabbis, and also many well-dressed people of the kind seen at country clubs. A few looked as if they had come from Newport or some other fashionable watering place. There were also many youngsters who if they had been born in England would rally to the C.N.D. and march from Aldermaston. All wore badges showing clasped black and white hands, and some carried banners with the legend " Freedom in '63 " or small national flags. As the huge meadow filled up enter-, tainers sang freedom songs or recited rather turgid prose. Groups sitting on the grass sang or hummed their own Song5 Just before noon the signal was given and they began to march slowly down Constitution and Independence Avenues to the Lincoln Memorial. They marched about 20 abreast, right across the broad streets, to the music of the inevitable brass bands. There were picket signs with demands for freedom. jobs, housing, and schools. " JOHN BROWN'S BODY" The police had requested that there should be no singing during the march. but to try to stop an American Negro singing in such circumstances is like trying to stop a lark from flying on a clear morning. Many sang John Brown's Body " as they marched slowly in two broad streams to the statue of the great emancipator. At the memorial the breadth and depth of the movement became evident. and after the Roman Catholic Archbishop of Washington had given the invocation the urgency showed through the middle class respectability. Miss Marian Anderson and Miss Mahalia Jackson sang spirituals, and a message was read from Mr. James Farmer, of the Council of Racial Equality, who is languishing in a Louisiana gaol. Mr. John Lewis, of the Students' Non-Violent Coordination Committee, said: "We are tired of being beaten by police. We are tired of being gaoled. How long can we be patient ? We want our freedom, and we want it now." "ALL THIS WILL END" The response from the throng was immediate, but it remained sober and gave at least equal attention to the economics speeches. The harshness of Negro unemployment, twice the national rate, can be more painful than the limitations on freedom. The Rev. Martin Luther King, said: "Five score years ago the great Ameri- can in whose shadow we stand today signed the emancipation proclamation. . . . One hundred years later the Negro is still crippled by the manacles of segregation and the chains of discriminaticn. He still lives in the corner of American society and finds himself an exile in his own land. We come here today to dramatize this shameful situation. .. we have also come to this hallowed spot to remind America of the fierce urgency of now. "Go back to Mississippi. Go back to Alabama. Go back to Georgia, to Louisiana, and the northern slums. Go back knowing that all this will end one day. We will hew hope out of the mountain of despair. Let freedom ring." The 200.000 seemed transported and as in hundreds of Negro churches throughout the south they responded to every period with " yes, oh Lord, let freedom ring ". The mass emotion was almost tangible and perhaps for some whites insufferable, but the middle class discipine held and after a final prayer the crowd melted away and the leaders went to the White House to petition President Kennedy as earlier they bad petitioned congressional leaders.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Questão de confiança e a política dos afetos no mercado

"A crise financeira só será contida quando a confiança entre os agentes for restaurada. A confiança não é um bem ou um serviço que possa ser fornecido somente pelo livre jogo das forças de oferta e procura dos agentes privados. Esse é o equívoco dos que defendem radical desregulamentação."

ANDRÉ FRANCO MONTORO FILHO, 64, doutor em economia pela Universidade Yale, é professor titular da Faculdade de Economia e Administração da USP e presidente do Etco (Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial). Foi secretário de Economia e Planejamento de São Paulo (1995 a 2002) e presidente do BNDES (1985 a 1988) / 24 de outubro - Opinião - Folha de S. Paulo.

quarta-feira, outubro 22, 2008

As aspas

- Tio Weber, isso é carisma?
"Quando chega o fim do ano um quer um tênis, um quer uma calça. E o dinheiro não dá. Você vai ter que, em vez de dar uma calça, dar uma bermuda mais barata para um e, em vez de dar uma meia que venha até o joelho, dar uma meia pequenininha. É sempre um cobertor que não dá para cobrir o pé e a cabeça", afirmou.
¨Sobre seu otimismo, ele disse que não poderia agir diferente. "Imagina visitar no hospital um companheiro que está em fase terminal, sentar na beira da cama e falar: "Ó, ontem morreu um cara igualzinho'".

presidente Luis Inácio Lula da Silva na Folha de hoje (22/ outubro)

sexta-feira, outubro 17, 2008

Idade

Idade

Se eu tivesse a idade da espontaneidade
não treinava minhas falas
nem media o assunto.

Se eu tivesse idade,
viajava sem malas
para Machu Picchu ou Maputo

Se eu tivesse a idade,
não calculava tributo,
não media escalas
nem tabelava a usura

- Ora! Mas, quem diz que espontaneidade
tem idade, erra por ignorância
ou poda pela censura.

Maria Luiza Muniz

quarta-feira, outubro 15, 2008

Enquanto não vens...

"Sinto, porém, que existe alegria no meu pensamento, sabendo que vens. E desejo que o dia de hoje passe. E queria gastar a minha vida mais depressa, pra que desde já fosse amanhã".

A Anna pegou da Cecília Meireles e me deu. Eu repasso para você.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Um brinde à poesia...

Na semana passada, estive com um grupo que costuma se reunir para recitar e ouvir poesia. O título deste post é o mesmo dado ao encontro. Poderia ser também Um brinde à pausa e cairia muito bem... Pois foi, para mim, um momento de pausa nessas questões urgentíssimas que nos ocupam (que me ocupam, ao menos). Uns segundos suspensos no ar, flutuando numa atmosfera de palavras. Então, tim tim! E vamos beber a poesia.

Este poema abaixo foi recitado por uma senhora muito simpática, cujo nome não memorizei, mas guardei a delizadeza e harmonia expressas em gestos e voz.

Da inversão de tudo - Cesar de Araujo

Há dias em que as cadeiras sentam na gente
as águas se lavam com nosso rosto
é a noite iluminando a luz.

Quem sabe a verdade
o inverso de tudo?

Inferno de inverno
encontro um homem
sorrindo verão.
Contei a dezenas
não me entenderam
não acreditaram.

Há dias em que as coisas ficariam bem
se estivessem ao contrário:
as árvores a plantar-nos
a estrada a andar em ti
a contemplar-me o sol.

Nós frutificaríamos
darias passagem
eu amanheceria.