Tudo é puro estímulo!
Täo perto das minhas mäos...
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Eis que meu leitor e amigo pergunta, aqui abaixo no espaço reservado para os comentários, sobre a bicicleta. Pois é, não sei. Na verdade, acho que a deixei em algum lugar e, no meio dessa correria em que vivo atualmente, a perdi. Eu sei que correrias não são justificativas. E eu deveria me organizar melhor (palavras do papai). Dormir menos tarde, acordar mais cedo e usar fio dental. As descalcificações ameaçam o branco dos meus dentes.
Sei que deveria arranjar um tempo para sentar em alguma praça, colocar o jornal no colo e fitar alguma lembrança gostosa perdida em algum lugar, talvez junto com a bicicleta. Viu, só? Foi só relaxar um segundo e já tenho uma pista...
obs: Acima, mais uma foto de Juiz de Fora...

Seguem mais algumas palavras que ainda duvido não serem minhas por me parecerem extremamente familiares. Seguem algumas palavras que catei no bosque alheio. (http://www.denisdemoraes.blogger.com.br/)
Meu nome é Caio F. Moro no segundo andar, mas nunca encontrei você na escada
Por Caio Fernando Abreu
Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas. Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa?(Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.)Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.
(O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 29/07/87)

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Não deixe que estas palavras façam parecer que eu não estou bem. Esta não é a imagem que deve ficar registrada. Sim, não sei direito para onde estou indo, mas isso não é novidade. A boa nova é que antes ninguém esperava que eu chegasse a algum lugar. Apenas eu.
Bom, she's got a ticket to ride and she do care! "She" sou eu. Essa música está martelando na minha cabeça desde segunda-feira. Acho que por eu ter pego a estrada no fim de semana. Estava precisando. A bicicleta está quebrada. Lembra?! Ainda com aquele problema da corrente. Eu pedalo, pedalo e pareço não sair do lugar. Se pelo menos estivesse em uma ladeira... Mas quem pode garantir que os freios funcionariam?
Tenho sonhos estranhos e turbulentos. Sonho que os prazos me atropelam. Ou seria o dia de ontem? Os prazos sempre me atropelaram. Esta também não é a novidade. A boa nova é que antes ninguém espera que eu os cumprisse. Tenho ganho a batalha. Eu 1 x 0 Relógio. Não, não estou pretendendo chegar ao milésimo ponto. E, felizmente, ninguém espera que eu faça isso.
"She's got a ticket to ride..."